05 de novembro de 2026
EXPULSO DE ÔNIBUS

'Só queria levar meus filhos para a escola', diz pai em São José

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução
Sem dinheiro para a tarifa dos filhos, pai diz que foi expulso de ônibus em São José

O que deveria ser apenas mais um trajeto até a escola terminou em uma situação que emociona o jardineiro Fabrício Oliveira, 33 anos, de São José dos Campos.

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Sem dinheiro suficiente para pagar as passagens dos dois filhos, de 7 e 9 anos, ele tentou levá-los de ônibus passando com as crianças por baixo da catraca.

A atitude provocou uma discussão com um cobrador e terminou em uma ocorrência policial.

Ao conversar com OVALE, o pai chorou ao lembrar-se do episódio e resumiu sua intenção: “Só queria levar meus filhos para a escola”.

Fabrício conta que não sabia exatamente a partir de qual idade as crianças precisavam pagar passagem no transporte público. Por acreditar que os filhos poderiam ter algum tipo de gratuidade por estarem indo estudar, tentou embarcá-los sem pagar as tarifas.

“Eu não tinha certeza de qual idade a criança não paga passagem no ônibus. Achava que meus filhos pudessem não pagar por estarem indo à escola. Nunca quis arrumar encrenca e nem aparecer, só queria levar meus filhos à escola”, afirmou.

A situação financeira da família ajuda a explicar o drama vivido pelo jardineiro. Ele mudou de profissão recentemente e agora trabalha com jardinagem, mas ainda depende de serviços esporádicos para garantir a renda. A mulher também trabalha e o casal tem outro filho pequeno, que frequenta a creche.

“Sei que sou responsável por pagar por eles, mas não sabia bem a idade que não precisava pagar”, disse.

O episódio teve consequências que foram além da discussão no coletivo. Segundo Fabrício, por causa da confusão, ele precisou abrir mão de um serviço em uma chácara e deixou de receber o dinheiro que ganharia com o trabalho.

“Ontem, por causa dessa confusão com o ônibus, tive que abrir mão de um trabalho em uma chácara e deixei de ganhar um dinheiro”, contou.

Durante a entrevista, o jardineiro se emocionou ao falar dos filhos e da dificuldade para garantir que eles frequentem a escola. Ele afirma que não quer exposição nas redes sociais nem busca transformar o caso em uma disputa pública.

“Foi muito triste e ruim. Me dá um nó na garganta. Não gosto de brigas. Só quero levar meus filhos para a escola. Não estou me vitimizando e nem nada. Não quero aparecer em rede social e nada disso. Minha preocupação é que meus filhos frequentem a escola. Só isso”, declarou, chorando.

Passe escolar

Depois do episódio, Fabrício afirma que pretende buscar o passe escolar para os dois filhos, benefício que permite o deslocamento dos estudantes com tarifa reduzida, conforme as regras do sistema municipal.

Ele também tenta transferir o filho mais velho para a mesma escola municipal frequentada pelo irmão mais novo. Atualmente, as crianças estudam em unidades diferentes, a Antônio Palma, da rede municipal, e a João Ferreira, da rede estadual. A mudança, segundo ele, facilitaria a rotina da família, mas ainda não conseguiu aprovação da Secretaria de Educação.

“Vou tentar o passe escolar para meus filhos, para que eles frequentem a escola sem problemas. Também estou tentando transferir o maior para a mesma escola municipal do menor, pois ficaria muito mais fácil para a gente”, explicou.

Pai registra BO

Além do drama financeiro, Fabrício registrou um boletim de ocorrência após afirmar que foi ameaçado e agredido pelo cobrador durante a confusão. O documento foi feito pela internet na terça-feira (3).

Segundo o relato apresentado à Polícia Civil, o episódio aconteceu por volta das 12h25, na Estrada do Bom Retiro, em frente ao Condomínio Tulipas, durante uma viagem de ônibus na região do Bom Retiro.

O pai afirma que, depois de uma discussão sobre a passagem das crianças, o cobrador teria se aproximado, feito ameaças e o empurrado. Com a interrupção da viagem, os passageiros precisaram desembarcar e aguardar outro coletivo.

Ainda conforme o boletim, enquanto aguardavam, o funcionário teria circulado repetidamente nas proximidades da família, o que levou Fabrício a temer uma nova agressão.

O jardineiro decidiu começar a gravar a situação com o celular. Ele afirma que o cobrador avançou em sua direção, tomou o aparelho e exigiu que a gravação fosse apagada.

Um dos filhos teria tentado recuperar o telefone e acabou empurrado pelo funcionário, segundo a versão apresentada pelo pai. Uma pessoa que passava pelo local teria presenciado a situação e intervindo em defesa da família.

Fabrício pediu à Polícia Civil que solicite à empresa as imagens das câmeras de segurança do ônibus, incluindo os registros do salão de passageiros e das portas de acesso. Também quer que sejam identificadas e ouvidas as testemunhas.

Ele afirma ter uma gravação própria que registra parte da ocorrência e diz que já conversou com uma advogada sobre a possibilidade de processar a empresa responsável pelo transporte.

O que diz a Prefeitura

Em nota, a Prefeitura de São José dos Campos informou que crianças até 5 anos e 11 meses não pagam passagem. A gratuidade por idade termina quando completam 6 anos.

A administração municipal esclareceu que estudantes acima dessa faixa etária têm direito ao passe escolar, benefício criado para garantir o deslocamento entre a residência e a unidade de ensino.

Sobre o episódio, a Prefeitura lamentou a exposição das crianças e manifestou preocupação com o uso de situações como essa para gerar repercussão nas redes sociais.

A administração também afirmou que, segundo relatos de motoristas e cobradores, situações semelhantes envolvendo o mesmo passageiro já teriam ocorrido anteriormente em outras ocasiões.

O que diz a Joseense

A Joseense Transportes informou que solicitou apoio da GCM (Guarda Civil Municipal) na terça-feira (3), após um problema registrado em uma linha que atende o bairro Bom Retiro, por volta do meio-dia.

Segundo a empresa, um homem acompanhado de duas crianças tentou passar pela catraca sem pagar a passagem, situação que, conforme a nota, já teria ocorrido em outras linhas do transporte público municipal nos últimos dias.

A concessionária afirmou ainda que houve discussão e ameaça à equipe do ônibus e que a viagem foi interrompida para garantir a segurança dos passageiros e funcionários.

A empresa declarou que mantém o compromisso de oferecer um serviço de transporte seguro e agradeceu o apoio da GCM.