A Justiça de SP decretou a prisão preventiva (sem prazo) de seis acusados por uma tentativa de golpe de R$ 845,9 milhões contra a herança do fundador do Grupo Unip-Objetivo, João Carlos Di Genio.
Na decisão de 15 de outubro, o juiz Guilherme Eduardo Martins Kellner, da 3ª Vara Estadual de Organizações Criminosas e Lavagem de Bens, aceitou a denúncia do Ministério Público contra nove no processo.
De acordo com o magistrado, o grupo usou documentos falsificados e uma câmara de arbitragem para simular uma cobrança legítima ao espólio de Di Genio.
A disputa envolve os bens deixados pelo médico, morto em 2022 aos 82 anos. Ele criou o cursinho Objetivo em 1965 ao lado de outros professores, e deu origem em 1988 à Universidade Paulista (Unip).
O juiz diz que a organização criminosa investigada teria atuado com "extrema sofisticação para conferir 'roupagem de legalidade' à fraude", camuflando um estelionato vultoso.
Tiveram a prisão decretada Anani Cândido de Lara e Luiz Teixeira da Silva Júnior, ligados à Colonizadora Planalto Paulista (empresa imobiliária), além de Wagner Rossi Silva, Patricia Alejandra Ormart Barreto, Camila Mariana Alejandra Piaggio Nogueira Ormart e Carlos Xavier Lopes, vinculados à Fonamsp (câmara voltada à solução de conflitos).
Os seis são descritos como foragidos. Ao fundamentar as ordens de prisão, Kellner citou o risco de reiteração dos crimes, a fuga prolongada e o fato de o grupo continuar peticionando na cobrança judicial.
Outros três investigados -Jorge Alberto Rodrigues de Oliveira, Rubens Maurício Bolorino e a árbitra Aline Cordeiro de Oliveira Boaventura- receberam medidas cautelares alternativas, como o comparecimento trimestral em juízo e a proibição de contato com testemunhas. Boaventura foi suspensa do exercício da arbitragem.
Como a Folha de S.Paulo mostrou em março, o suposto esquema utilizou assinaturas falsas de Di Genio e de seu procurador para simular a compra de 448 imóveis em Piraju, a 329 km de São Paulo. A suposta dívida começou em R$ 635 milhões e foi elevada pelo próprio grupo para R$ 845,9 milhões.
A Colonizadora notificou a família em agosto de 2024, pediu a habilitação do crédito no inventário e abriu procedimento na Fonamsp.
Em janeiro de 2025, Aline Boaventura proferiu a sentença arbitral cobrando o valor, o que permitiu à empresa pedir o cumprimento judicial da decisão em junho. A cobrança acabou travada na Justiça após laudos do Instituto de Criminalística confirmarem a montagem digital das assinaturas.
Guilherme do Amaral Pereira, que defende Rossi, nega a participação do cliente na fraude e informou ter pedido habeas corpus contra a preventiva, que não havia sido cumprida.
O advogado, que também defende Boaventura, disse que a Fonamsp seguiu a legislação, que cartórios confirmaram os atos notariais e que árbitra atuou estritamente com base nos papéis apresentados, sem responsabilidade pelas comunicações do espólio.
Pereira destacou ainda que a própria árbitra suspendeu os efeitos da decisão arbitral em abril deste ano após dúvidas sobre as assinaturas e ressaltou que "o recebimento da denúncia é uma etapa inicial, em que não há juízo sobre culpa".
A Folha de S.Paulo procurou o defensor de Luiz Teixeira, que informou ter deixado a causa. O atual advogado dele não foi identificado.
Também não foram identificados os defensores de Anani Cândido de Lara, Patricia Alejandra Ormart Barreto, Camila Mariana Alejandra Piaggio Nogueira Ormart, Carlos Xavier Lopes, Jorge Alberto Rodrigues de Oliveira e Rubens Maurício Bolorino.
Na avaliação do juiz, Anani assinou os contratos falsos, Luiz geriu as investidas de cobrança, Rossi disponibilizou a câmara arbitral e Lopes, Patricia e Camila forneceram o suporte societário e operacional à entidade.
O caso motivou uma operação do Gaeco e da Polícia Civil em março. Com o aceite da denúncia, Kellner autorizou o compartilhamento das provas com a OAB, o Ministério Público e corregedorias de cartórios para apurar a conduta dos tabelionatos e investigar eventuais novos envolvidos.