Um livro infantil criado pela Juíza titular da 2ª Vara de Capão Bonito, Caroline Costa de Camargo, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), tem mostrado a centenas de crianças, de forma lúdica e com linguagem apropriada para a faixa etária, como identificar a violência doméstica, e assim, despertar nelas a consciência para a construção de relações baseadas no respeito, na igualdade e na não-violência. Inteiramente escrito e desenhado à mão pela Juíza, o livro “Clarisse me Disse” é a base de uma série de ações educativas que começaram em sua Comarca – que inclui as cidades de Capão Bonito, Ribeirão Grande e Guapiara –, no interior de São Paulo, e que agora alcança 11 municípios em quatro estados.
O programa educativo tem ganhado tanta adesão que, no próximo dia 19/10, o livro “Clarisse me Disse” será lançado em uma versão inédita em Guarani-Kaiowá, especialmente para as atividades em escola de Ponta Porã (MS), localizada na fronteira com o Paraguai e frequentada por alunos dessa etnia. O Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul (TJMS) abraçou o projeto e o tem levado a crianças do Estado. O mesmo fez o Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), que capacitou profissionais para promover a ação no sistema público de educação. Paulo Afonso, na Bahia, será a próxima cidade fora de São Paulo a receber o projeto.
A prática da Juíza Caroline Costa de Camargo foi finalista do 3º Prêmio #Rompa TJSP/Apamagis, que premia iniciativas de combate à violência doméstica. O trabalho também ganhou projeção nacional ao ser entregue em mãos à farmacêutica Maria da Penha, símbolo da Lei nº 11.340/2006 de proteção à mulher. A ativista elegeu a obra para compor o rol de publicações que o Instituto Maria da Penha adota formalmente para disseminar a conscientização sobre igualdade e combate à doméstica em instituições em todo o país.
“Clarisse me Disse” vem percorrendo o Brasil com um mosaico de ações institucionais que unem o Judiciário e a Educação e que incluem formação de professores, oficinas práticas com crianças nas escolas, palestras de sensibilização e reuniões com secretarias municipais e autoridades do setor. Nas atividades diretas com os alunos, o espaço aberto para perguntas torna-se um dos momentos mais ricos do programa, permitindo que as crianças esclareçam dúvidas espontâneas e agreguem reflexões genuínas na convivência próxima com a autora e as equipes pedagógicas. As crianças também fazem visitas aos fóruns – o lugar de punição também passa a ser um lugar de prevenção – e, ao final, elas têm uma formatura com direito a diploma de amigos da Clarisse.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelam a urgência de intervenções pedagógicas e preventivas voltadas à infância e à família. Em 2025, foram registrados no país 38.986 casos de maus-tratos no ambiente doméstico, um salto expressivo de 106,1% em quatro anos, concentrando 59,1% das ocorrências na faixa de 0 a 9 anos.
Essa violação direta contra as crianças conecta-se intimamente à violência contra as mães: 62,5% dos feminicídios no país acontecem dentro do próprio lar, espaço que também registrou mais de 286 mil lesões corporais decorrentes de violência doméstica em apenas um ano.
Quando a agressão verbal ou física se torna rotina na convivência familiar, a ausência de mediação externa impede os filhos de compreenderem a anormalidade daquele ambiente abusivo. É exatamente nessa lacuna que atua o material didático, auxiliando os pequenos a identificar sinais de desrespeito e a reconhecer canais de proteção.
Para a Juíza Caroline Costa de Camargo, a atuação pedagógica ressignifica o papel social do Poder Judiciário frente às demandas estruturais de gênero.
“No sistema de Justiça, estamos acostumados a intervir após o fato consumado, aplicando medidas protetivas ou sentenças penais. Essa é a nossa missão constitucional, mas acredito em uma nova perspectiva: um Direito preventivo, que atue por meio da educação e da cultura para evitar que a violência ocorra, mudando o final da história antes que ele se repita”, enfatizou a Magistrada.
“Conseguimos traduzir a complexidade jurídica para o universo infantil por meio de uma personagem, sem juridiquês. Explicamos o que é violência, limites de convivência e formas de romper o ciclo a partir de uma história acessível. A força e a projeção nacional do projeto se sustentam exatamente nesses pilares: atuação preventiva, parceria direta com a rede escolar e alta replicabilidade.”
No ambiente escolar, o projeto assumiu formatos múltiplos e criativos, permitindo que cada educador trabalhasse o conteúdo segundo as necessidades de sua turma.
Na Escola Samuel Messias, em Capão Bonito, a professora do 4º ano, Bernadethe Ormondes, relatou a receptividade imediata ao tema: “Trabalhamos o livro em sala de aula e cada criança levou um exemplar para casa, para que as famílias também pudessem discutir o tema e refletir sobre a importância desse debate”, explicou.
Além da leitura, foram realizadas rodas de conversa e atividades de desenho, nas quais os alunos retrataram formas de violência e maneiras de conscientizar sobre o problema. “Muitas crianças perceberam que atitudes e palavras que consideravam normais, como alguns xingamentos, também são formas de violência. Foi um processo de aprendizado e reflexão muito importante para todos”.
A reflexão estimulada pelo projeto acabou por atravessar os muros das escolas e iluminar a realidade dos próprios lares. Uma das participantes da comunidade escolar, que preferiu preservar sua identidade, relatou a ruptura de um ciclo silencioso provocada pela leitura compartilhada da obra infantil: “Trabalhando o livro com as crianças, vendo da forma que ele foi abordado, eu me identifiquei. Eu fiquei com vergonha quando li o livro, aí eu falei: 'Poxa, e não é que eu faço isso na minha casa e isso também é um tipo de violência?' Então, a partir daí, isso foi me dando forças para eu tomar uma atitude em relação ao meu relacionamento.”
A expansão para o Centro-Oeste brasileiro ocorreu por meio da assinatura de um termo de cooperação com o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) e as prefeituras de Campo Grande e Ponta Porã, assegurando a destinação de 2 mil exemplares do livro e capacitação prévia para professores ministrada pela Coordenadoria Estadual da Mulher. Na fase piloto, dez escolas municipais do 5º ano, cinco na capital e cinco em Ponta Porã, desenvolvem atividades com mais de 300 estudantes.
A adaptação ao idioma nativo demandou atenção gráfica e cultural da autora. “A iniciativa da versão em Guarani-Kaiowá partiu do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, diante da diversidade cultural do estado. A adaptação para a língua materna é um ato de valorização e respeito à identidade e à cultura dessas comunidades”, explicou a Juíza.
A Magistrada detalhou as mudanças na edição bilíngue: “Houve uma adaptação singela no conteúdo: incluí uma personagem indígena na ilustração, que aparece no final junto aos outros personagens, além de uma dedicatória para as crianças indígenas em respeito à sua origem, saberes e cultura”, disse. Também foi incluída uma página explicativa, que passa a integrar todas as versões, contextualizando o nome da obra e o significado das marcas no rosto da personagem e de sua mãe dentro do ciclo de violência doméstica. “Agora traz de forma explícita o que antes ficava mais subliminar”, afirmou.
Ao falar sobre a estrutura que viabilizou a expansão da ideia para além das fronteiras paulistas, a Juíza Caroline Costa de Camargo destacou o papel das entidades representativas da Magistratura: “Desde o início, a Apamagis e a Associação dos Magistrados Brasileiros abraçaram a iniciativa. Assim que os presidentes conheceram o projeto, demonstraram interesse em ajudar a ampliar essa mensagem e levar a informação para outros lugares. Essa visibilidade faz toda a diferença, porque permite expandir o alcance do trabalho e conscientizar cada vez mais pessoas.”
Essa articulação se refletiu na adesão dos tribunais estaduais. O Vice-Presidente do TJMS, Desembargador Eduardo Machado Rocha, destacou que o ganho central da articulação interinstitucional é “o impacto social da ação, que busca romper esse ciclo ao conscientizar crianças, adolescentes e adultos”. A coordenadora Estadual da Mulher do TJMS, desembargadora Sandra Artioli, complementou que a intervenção precoce projeta reflexos de longo prazo: “Os números tão altos que hoje retratam a violência contra a mulher poderão dar lugar a indicadores de bem-estar, qualidade de vida, empregabilidade e de mais mulheres ocupando espaços de poder”.
A cerimônia de lançamento no TJMS contou também com a Primeira-Dama do Estado, Mônica Riedel, que ressaltou a sensibilidade comunicativa do material impresso e a necessidade de políticas públicas transversais. “É muito difícil falar com esse público de maneira sensível e, ao mesmo tempo, tão assertiva. O que estamos semeando aqui pode não mostrar o resultado de imediato, mas é um passo que vai transformar vidas lá na frente”.
*Representação artística e ilustrativa sem fins de precisão geográfica