12 de outubro de 2026
MISSA EM APARECIDA

Arcebispo: 'Evangelho não autoriza odiar quem pensa diferente'

Por Xandu Alves | Aparecida
| Tempo de leitura: 5 min
Xandu Alves/OVALE
Devotos durante a missa solene da festa de Nossa Senhora Aparecida

O arcebispo de Aparecida, dom Mário Antônio da Silva, fez um apelo à paz, ao diálogo e ao respeito às diferenças durante a homilia da missa solene da festa de Nossa Senhora Aparecida, celebrada na manhã desta segunda-feira (12), no Santuário Nacional, em Aparecida.

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Diante dos devotos reunidos para a celebração da Padroeira do Brasil, o religioso afirmou que os ensinamentos de Jesus não podem ser usados para justificar o ódio contra quem pensa diferente.

“O evangelho, queridos irmãos e irmãs, não nos autoriza a odiar quem pensa diferente e nem a matar os inimigos”, declarou o arcebispo, ao refletir sobre a necessidade de construir a paz em um cenário marcado por conflitos, divisões e guerras.

Na sequência, dom Mário ressaltou que a mensagem cristã deve incentivar a aproximação entre as pessoas, mesmo quando existem divergências. “O evangelho, sim, nos autoriza a construir pontes, onde alguém abre precipícios”, afirmou.

A fala foi um dos destaques da homilia, que também abordou a solidariedade, o combate à indiferença diante do sofrimento humano e a importância de transformar a fé em atitudes concretas no cotidiano.

Arcebispo critica guerras e divisões

Ao relacionar os ensinamentos de Jesus aos desafios da sociedade contemporânea, dom Mário Antônio da Silva criticou as atitudes que alimentam a violência e aprofundam as divisões entre as pessoas e os povos.

“Sabemos que Jesus manda construir a paz. E aqui escutando o Evangelho, uma paz desarmada e desarmante. Mas muitas vezes alimentamos divisões, com armamentos, com guerras e tantos confrontos entre nós”, disse.

O arcebispo destacou que conhecer a Palavra de Deus exige mais do que ouvir as leituras bíblicas ou participar das celebrações religiosas. Para ele, a mensagem do Evangelho precisa orientar as escolhas, as relações pessoais e a maneira como cada pessoa trata o próximo.

Nesse contexto, a defesa da paz está diretamente ligada à capacidade de reconhecer as diferenças sem transformar divergências em hostilidade. A proposta apresentada na homilia é substituir o confronto pela construção de pontes, o ressentimento pelo perdão e a indiferença pela solidariedade.

“Quem escuta Deus não pode ficar indiferente”

Outro ponto central da homilia foi o chamado para que os cristãos não permaneçam indiferentes diante das dificuldades enfrentadas pela população.

Ao recordar a personagem bíblica Ester, que intercede pela vida de seu povo ameaçado, dom Mário ressaltou que o compromisso com a fé também passa pela disposição de acolher o sofrimento dos outros.

“Quem ama se coloca diante dos sofrimentos e necessidades das outras pessoas. Ester nos ensina que conhecer a Palavra é deixar-se tocar pela vida dos outros. Quem escuta Deus não pode ficar indiferente”, afirmou.

O religioso mencionou situações como a fome, a pobreza, a violência, a solidão e o abandono de idosos. Também chamou a atenção para as dificuldades enfrentadas por crianças, jovens e famílias, além dos conflitos armados e da destruição da natureza.

Para o arcebispo, a fé deve se manifestar em ações capazes de aliviar o sofrimento e promover a dignidade humana. O compromisso cristão, segundo a reflexão apresentada, não se limita à oração: exige participação, cuidado e responsabilidade diante dos problemas que atingem a sociedade.

Esperança do povo brasileiro

Durante a celebração, dom Mário também recordou a história da imagem de Nossa Senhora Aparecida, encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul, em outubro de 1717.

O arcebispo relembrou que, depois de encontrarem o corpo e, posteriormente, a cabeça da imagem, os pescadores lançaram novamente as redes e conseguiram uma pesca abundante.

A passagem foi apresentada como um sinal de esperança e da ação de Deus na vida das pessoas.

“Deus pode unir o que está quebrado, encher o que está vazio e, onde parecia haver apenas fracasso, fazer nascer a esperança”, afirmou.

Segundo dom Mário, a devoção a Nossa Senhora Aparecida permanece presente na história brasileira há mais de três séculos, acompanhando os fiéis em momentos de alegria, sofrimento e dificuldade.

Ele também destacou que a Igreja deve ser compreendida como uma comunidade de peregrinos, formada por pessoas que enfrentam desafios, mas seguem caminhando juntas na fé.

Evangelho precisa se transformar em atitudes

Ao comentar o episódio das bodas de Caná, narrado no Evangelho, o arcebispo ressaltou a atitude de Maria ao perceber que o vinho havia acabado durante a festa. Na passagem bíblica, ela orienta os servidores a fazerem tudo o que Jesus disser.

Para dom Mário, o episódio mostra a importância de estar atento às necessidades dos outros e de colocar em prática os ensinamentos de Cristo.

O religioso observou que muitas pessoas conhecem as orientações do Evangelho, mas encontram dificuldades para vivê-las no dia a dia.

“Sabemos que Jesus manda perdoar, mas guardamos ressentimentos”, afirmou. Ele também criticou o preconceito contra os mais pobres e a postura de quem deseja ser servido, mas não se dispõe a servir.

A reflexão reforçou a ideia de que a fé precisa produzir resultados concretos, como o perdão, a generosidade, o acolhimento e a disposição para ajudar quem enfrenta dificuldades.

Projeto prevê jardins de mosaicos no Santuário

A homilia também foi marcada pela apresentação do projeto “Semear a Palavra”, iniciativa ligada a uma proposta artística para o Santuário Nacional de Aparecida.

Dom Mário explicou que o projeto prevê a instalação de mosaicos no teto das quatro naves do templo, formando grandes jardins. A obra foi concebida pelo artista Cláudio Pastro, que deixou o projeto antes de sua morte.

Os mosaicos serão acompanhados por vitrais, cujas cores, segundo o arcebispo, simbolizam a luz de Deus e a transformação da vida por meio da fé.

Durante a explicação, dom Mário afirmou que a iniciativa vai além da dimensão artística e representa um convite à missão evangelizadora da Igreja.

A proposta, segundo ele, é incentivar os fiéis a acolherem a Palavra de Deus e a fazerem seus ensinamentos florescerem em atitudes de amor, justiça, misericórdia, fraternidade e esperança.

Mensagem final pede proteção ao Brasil

Ao encerrar a homilia, dom Mário Antônio da Silva dirigiu uma oração a Nossa Senhora Aparecida, pedindo proteção para as famílias, as comunidades, os migrantes e toda a população brasileira.

O arcebispo também reforçou o chamado para que os devotos cuidem do país como um espaço de convivência, respeito e fraternidade.

A mensagem da celebração voltou, assim, ao compromisso de viver os ensinamentos de Jesus para além dos templos religiosos: acolher quem sofre, respeitar quem pensa diferente e trabalhar pela paz.

Na festa da Padroeira do Brasil, a reflexão de dom Mário deixou um recado direto aos fiéis: a fé cristã não deve servir de justificativa para o ódio, mas de caminho para o diálogo, a solidariedade e a construção de uma sociedade menos dividida.