A força das redes sociais e dos discursos ideológicos nas eleições divide a avaliação de ex-prefeitos do Vale do Paraíba. A votação expressiva de Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano, ambos do PL, expôs a diferença de opiniões entre políticos com experiência na administração municipal sobre o peso da trajetória política, da comunicação digital e das propostas regionais na escolha dos eleitores.
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Juntos, Pavanato, eleito deputado federal, e Campopiano, eleita deputada estadual, receberam 349.513 votos no Vale do Paraíba. O resultado supera em 43.065 votos a votação somada de nove ex-prefeitos da região que disputaram vagas na Câmara dos Deputados e na Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo). Os antigos chefes do Executivo municipal reuniram 306.448 votos.
As declarações de três ex-prefeitos ouvidos por OVALE mostram diferentes interpretações para o desempenho da dupla.
Eduardo Cury (PL), de São José dos Campos, destaca a chegada de jovens à política e considera a internet uma ferramenta que veio para ficar.
Marcus Soliva (PSD), de Guaratinguetá, avalia que os discursos extremistas e agressivos ganharam espaço em detrimento das pautas regionais.
Já Izaías Santana (MDB), de Jacareí, considera positiva a entrada de novos nomes na disputa, mas pondera que as redes sociais não explicam sozinhas o resultado das urnas.
Único dos três entrevistados eleito nesta disputa, Eduardo Cury afirma que o desempenho de Pavanato, Campopiano e outros candidatos com forte presença digital foi expressivo e representa uma oportunidade de renovação política.
“A votação do Pavanato, da Campopiano e outros foi fantástica. É muito bom ver líderes jovens vindo para o embate ajudando a mudar o Brasil”, declarou.
Para o ex-prefeito de São José dos Campos, a internet se consolidou como instrumento de campanha e deve ampliar sua influência nas próximas eleições. Ele, no entanto, pondera que a votação da dupla precisa ser analisada em relação ao tamanho do eleitorado regional, estimado em quase 2 milhões de pessoas.
Cury também atribui parte do desempenho mais modesto de outros candidatos à pulverização das candidaturas, e não apenas à força dos políticos que ganharam projeção nas redes sociais.
Marcus Soliva apresenta uma avaliação mais crítica sobre o resultado eleitoral. Para o ex-prefeito de Guaratinguetá, os discursos moderados e as propostas voltadas aos problemas do Vale do Paraíba perderam espaço para mensagens polarizadas, agressivas e ligadas a temas nacionais.
“O Brasil é maior que os extremos”, afirmou.
Na avaliação de Soliva, candidatos com forte presença na internet conseguiram ampliar o alcance de seus discursos e conquistar eleitores, enquanto políticos com experiência administrativa e propostas direcionadas às cidades da região tiveram mais dificuldade para se destacar.
Ele também aponta diferenças na distribuição dos recursos de campanha como um fator que prejudicou a concorrência. Segundo Soliva, enquanto alguns candidatos receberam R$ 3 milhões do fundo partidário, outros contaram com R$ 300 mil.
“O discurso do ódio” e a viralização de conteúdos nas redes sociais, na avaliação dele, contribuíram para o resultado. Soliva afirma que os ex-prefeitos que defenderam pautas regionais não conseguiram mobilizar o eleitorado na mesma proporção.
“Os problemas de nossas cidades não são virtuais, não são de inteligências artificiais. Eles são reais”, disse. Mesmo sem mandato, ele afirma que continuará defendendo maior representatividade parlamentar para o Vale do Paraíba.
Izaías Santana, ex-prefeito de Jacareí, tem uma visão diferente da apresentada por Soliva. Para ele, as redes sociais facilitaram a entrada de novos nomes na política, sem que fosse necessário percorrer os caminhos tradicionais de formação de lideranças.
“Posso até discordar de uma ou outra posição, mas não vejo como ruim para a democracia. Vejo como bom”, afirmou.
Izaías, porém, não atribui o desempenho de Pavanato e Campopiano exclusivamente à presença digital. Ele argumenta que a votação da dupla precisa ser considerada dentro do universo eleitoral da região e que o resultado não impediu que outros candidatos também recebessem votos.
“Estamos falando de uma região com 2 milhões de votos. Isso em nada atrapalharia se os outros 1,7 milhão de votos votassem”, disse.
O ex-prefeito também reconhece que o movimento de renovação eleitoral atingiu políticos com experiência administrativa, incluindo ele próprio e Thales Gabriel, ex-prefeito de Cruzeiro e candidato a deputado estadual.
“Estamos num processo há 10, 15 anos, já fomos beneficiados, ganhamos duas eleições para prefeito nas nossas cidades. Não é sempre que a gente ganha”, afirmou.
Izaías ainda criticou a cobertura da imprensa durante a campanha. Na avaliação dele, o debate sobre as candidaturas e suas propostas teria sido mais proveitoso se tivesse ocorrido antes da votação.
A cientista social e política Dora Soares avalia que as redes sociais têm hoje mais influência nas eleições do que a trajetória política dos candidatos.
“As pessoas não estão conversando, está cada uma no seu celular. Então, se você não está na rede social, não aconteceu”, disse.
Segundo ela, candidatos apostaram em "disseminação de ódio, insistência e repetição de aberrações, que estão nos perfis, nas plataformas”.
“É isso o que as pessoas hoje veem. As pessoas não leem notícia, não leem uma coisa inteira, elas vão recebendo aleatoriamente, no computador, no celular, conforme o tema e forem se interessando. É assim que essa onda reacionária, ignara, essa orla de gente violenta, bárbara, sem caráter, está assolando o país”, afirmou.
“Não precisa de prova, não precisa de noção de realidade, a informação não precisa ser informação. Pode ser ‘Matildes’ falando, pode ser mentira. Interessante é se eu gostei, eu dissemino. E aí isso tem estimulado o pior da humanidade. A mesquinharia, o ódio, a violência, a incapacidade de reconhecer seus limites, seus complexos. É uma sombra nos olhos do autoconhecimento”, completou.
O levantamento com base nos dados do TSE mostra a dimensão do desempenho de Pavanato e Campopiano no Vale do Paraíba.
Pavanato recebeu 232.679 votos na região para deputado federal, enquanto Campopiano obteve 116.834 votos na disputa estadual. Sozinho, o deputado federal eleito superou a soma dos votos dos seis ex-prefeitos que concorreram a uma vaga na Alesp.
Entre os ex-prefeitos que disputaram uma cadeira na Câmara dos Deputados, Cury foi eleito e recebeu 66.860 votos no Vale. Marcus Soliva somou 18.962 votos, enquanto Felipe Augusto, ex-prefeito de São Sebastião, obteve 14.994.
Na disputa estadual, Thales Gabriel foi o ex-prefeito mais votado, com 60.619 votos. Na sequência aparecem Dr. Isael, de Pindamonhangaba, com 55.169; Ortiz Júnior, de Taubaté, com 45.009; Antonio Carlos da Silva, de Caraguatatuba, com 23.504; Izaías Santana, de Jacareí, com 14.765; e Petala, de Caçapava, com 6.566.
A diferença de 14,1% entre a votação da dupla do PL e a dos nove ex-prefeitos coloca em evidência um desafio para os políticos tradicionais: compreender como a experiência administrativa, a atuação regional e a presença nas redes sociais influenciam as escolhas dos eleitores.