10 de outubro de 2026
FRAN GALVÃO

DVF voltou. E você, precisa voltar a ser quem era?

Por Fran Galvão | Consultora de imagem e estilo
| Tempo de leitura: 4 min
Arquivo pessoal
DVF voltou. E você, precisa voltar a ser quem era?

Talvez você não saiba o nome dele, mas provavelmente já viu um (ou até já teve um): aquele vestido transpassado, que cruza na frente do corpo, marca a cintura e parece acompanhar a mulher em vez de obrigá-la a caber dentro da roupa. Sabe quel é? O famoso wrap dress.

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Criado em 1974 por Diane von Furstenberg, ele virou um dos vestidos mais emblemáticos da história da moda — e ajudou a transformar sua criadora em uma das grandes personagens da moda americana.

Era feminino sem ser ingênuo. Sensual sem ser complicado. Confortável, prático e, principalmente, tinha movimento.A mulher podia trabalhar, viajar, sair para jantar, dançar e o vestido acompanhava. Atemporal, confortável, lindo.

Agora, mais de 50 anos depois, a história ganhou um novo capítulo.

A DVF, marca fundada por Diane von Furstenberg, voltou oficialmente ao calendário da New York Fashion Week neste último mês de setembro, depois de quase uma década longe das passarelas. E voltou justamente em Nova York, na High Line, um dos lugares mais simbólicos da cidade e que também tem uma ligação pessoal com Diane (inclusive sua loja fica logo abaixo da High Line). Mas com um detalhe: sem Diane no comando criativo da marca.

Na primeira fila, estava ela e na passarela, Henry Zankov, nomeado diretor artístico da DVF em maio deste ano.

E é aqui começa a parte mais interessante dessa história.

Zankov não é um desconhecido. Ele já havia trabalhado na DVF em 2014, antes de seguir carreira própria e construir uma marca reconhecida pelo trabalho com tricôs, cores, grafismos e misturas de estampas.

Agora, voltou para a casa que conhece, mas com uma missão nada simples: fazer a DVF voltar a ser relevante sem deixar de ser DVF.

Porque existe uma diferença enorme entre ser famosa e estar relevante.

Diane continua sendo uma lenda. Mas a marca passou por anos difíceis e perdeu presença no universo fashion. E quando uma grife fica muito associada a um único produto ou a uma única estética, existe uma armadilha: aquilo que um dia foi sua maior força pode começar a funcionar como uma prisão.No caso da DVF, o próprio wrap dress.

E aí surge a pergunta: como continuar sendo reconhecida sem repetir eternamente a mesma fórmula?

A resposta de Zankov não foi apagar Diane e sim atualizar.

O desfile trouxe os códigos que fizeram a marca ser reconhecida: vestidos transpassados, jersey, estampas (Diane sempre trabalhou muito bem as estampas), animal print, cores fortes, sensualidade e referências aos anos 70.Mas também trouxe tricôs, grafismos, novas combinações de estampas, proporções contemporâneas e a linguagem própria de Zankov.

Foi nítido que o passado estava lá, mas olhando para o presente e principalmente para o futuro.

E isso coloca essa história da DVF em um lugar muito mais interessante para o nosso dia a dia. Porque quantas vezes fazemos exatamente o contrário?

Mudamos de fase, de profissão, de rotina, de corpo, de prioridades, de idade…, mas continuamos usando a mesma imagem que funcionava para uma versão anterior de nós. O mesmo corte de cabelo, a mesma combinação de peças, os mesmos códigos visuais.

Ou então fazemos o movimento oposto: decidimos que precisamos “virar outra pessoa” e saímos comprando um guarda-roupa inteiro que não conversa com absolutamente nada do que somos.

Nenhum dos dois caminhos são muito inteligentes e talvez a questão não seja se reinventar e sim atualizar a imagem de quem você já é.

A mulher que você era aos 30 não precisa desaparecer aos 40. A profissional que construiu uma carreira não precisa se vestir como se estivesse começando agora. A mulher que se tornou mãe, empreendedora, executiva, avó ou simplesmente mudou de prioridades não precisa abandonar totalmente seu estilo para acompanhar a nova fase.Mas precisa perceber quando a imagem ficou parada enquanto ela avançou.

Diane construiu sua marca em torno de liberdade, sensualidade, movimento e independência feminina. Esses valores continuam absolutamente atuais, mas mudou a forma de traduzi-los.

E talvez essa seja uma boa pergunta para levar para o seu próprio guarda-roupa:

O que em mim ainda me representa — e o que só está aqui porque um dia funcionou?

Porque guardar uma roupa apenas porque ela pertence a uma versão antiga de você não significa se manter firme na sua identidade, está muito mais para um medo de admitir que a vida mudou.

Moda não precisa transformar você em outra pessoa, mas pode te ajudar a reconhecer a mulher que você se tornou.E assim como a marca DVF, não precisamos voltar a ser quem fomos para continuar sendo fiéis a quem nos tornamos, é pegar aquilo que continua verdadeiro em você e encontrar uma forma atual de expressá-lo.