01 de outubro de 2026
ELEIÇÕES

Quem mora no Vale vale menos?

Por Eduardo Cury | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 2 min
Ex-prefeito de São José dos Campos e candidato a deputado federal pelo PL
Eduardo Cury, ex-prefeito de São José dos Campos e candidato a deputado federal pelo PL

Na urna, o voto de quem mora em São José dos Campos, Taubaté, Jacareí, Caçapava ou Ubatuba vale exatamente o mesmo que o de qualquer outro paulista. É a regra mais básica da democracia: um eleitor, um voto. Mas, quando a conta chega a Brasília, nossa região descobre que essa igualdade termina na seção eleitoral.

Os números são objetivos. As 39 cidades do Vale do Paraíba, Serra da Mantiqueira e Litoral Norte reúnem quase 2 milhões de eleitores. Pela proporção do eleitorado paulista, isso seria suficiente para garantir quatro cadeiras na Câmara dos Deputados. No entanto, dos 70 deputados federais eleitos pelo Estado em 2022, nenhum teve a maioria de seus votos aqui. Nenhum.

Isso não quer dizer que o Vale deixou de votar. Votou, e muito. Mas nossos votos se espalharam e ajudaram a eleger parlamentares com base, compromissos e agenda em outras regiões. É legítimo que cada deputado defenda primeiro quem o elegeu. O problema é que, nessa fila, o Vale ficou sem ninguém que o coloque em primeiro lugar.

E a falta de representação tem preço. Em Brasília, o dinheiro não cai do céu. Ele é disputado – emenda a emenda e ministério a ministério – por quem conhece cada cidade e tem mandato para brigar por ela. Sem essa voz, nossa região deixou de receber perto de R$ 1 bilhão. Não é uma abstração contábil. É dinheiro que poderia ter virado creche, unidade de saúde, asfalto e ambulância.

Por isso, a pergunta do título não é retórica. Uma mãe que espera horas na fila do posto no Vale vale menos que uma mãe em qualquer outra região do Estado? Uma criança daqui sem vaga na creche vale menos? A resposta óbvia é não. Mas, na prática, a forma como o Vale tem sido representado diz que sim.

Conheço esse jogo por dentro. Fui prefeito de São José por dois mandatos e deputado federal por outros dois. Aprendi que representação regional não é bairrismo, é método. O deputado federal comprometido com sua região acompanha o pedido do prefeito, cobra o ministério, destrava o convênio e volta para prestar contas. Quando essa ponte existe, o recurso chega. Quando ela falta, a cidade assiste de longe à divisão do orçamento.

Não se trata de pedir privilégio, e sim de corrigir uma distorção. O Vale do Paraíba é um dos motores econômicos de São Paulo, com indústria aeroespacial e automotiva, tecnologia, turismo e agronegócio. Gera riqueza, gera empregos e paga impostos. Uma região com esse peso merece atenção federal à altura do que produz, e não um papel de coadjuvante.

A mudança passa pelo eleitor. O voto do Vale pode continuar se dispersando e fortalecendo outras agendas. Ou pode se concentrar em quem assume um compromisso simples: o Vale primeiro. Primeiro na disputa por emendas, primeiro na defesa dos projetos da região, primeiro na cobrança por resultados.

Quem mora no Vale não vale menos. Está na hora de Brasília aprender isso, e de a nossa região garantir que haja alguém lá para ensinar.