01 de outubro de 2026
OPINIÃO

IA e burrice natural


| Tempo de leitura: 3 min

Todos os dias lemos notícias sobre a IA – Inteligência Artificial. Ela vai acabar com muitos empregos, principalmente aqueles hoje preenchidos por pessoas que têm diploma. A corrida por títulos universitários inservíveis iludiu gerações neste Brasil que poderia estar trilionário se tivesse explorado adequadamente a sua exuberante biodiversidade. Se tivesse agregado valor às comodities que continuam tomando o rumo do exterior, onde se submetem a processos que as convertem no tesouro que enriquece o resto do mundo. Menos o Brasil.

Pois bem. Não desaparecerão os empregos que os robôs não conseguirão preencher. Os cuidadores de idosos. Milhões de pessoas experientes já ostentam sintomas de demência. Nem todos sabem que estão a caminho do depauperamento mental, que causa degradação física e leva à morte.

Não desaparecerão os jardineiros, os enfermeiros, os contadores de história – embora robôs possam contar histórias. Mas não conseguem interagir com empatia e sensibilidade. Também não desaparecerão aqueles humanos que sabem distinguir o que é erva daninha e a plantinha frágil que precisa ser mantida. Tomara não desapareça a conversa gostosa, o flerte, a aproximação amorável, a sensualidade, a vontade de estar junto.

Há um livro escrito por Adam Frank, Marcelo Gleiser e Evan Thompson, que merece leitura. Chama-se “O Ponto Cego”. Nele se lê que a ciência avança mas negligencia a experiência humana. A IA, por exemplo, é produto de trilionários que se apoiam em autocratas. Avança-se em tecnologia, adquire-se inacreditáveis performances, descobrem-se aplicativos inimagináveis. Mas nada se faz para que a humanidade seja revalorizada e que valha a pena o contato pessoal, o olhar direto ou furtivo, a piscadela, o sorriso ou o meio-sorriso, aquele convite que se faz, mesmo sem palavras, para que a outra pessoa se sinta chamada a partilhar emoções conosco.

A perspectiva de se criar superinteligências que substituam os humanos, para o astrofísico Adam Frank, é mera fantasia. As máquinas da IA são, para ele, réplicas medíocres. Não chegam perto da inteligência humana. Porém, como são bilionários e trilionários que as promovem, a plebe ignara se encanta, fica envolvida e manipulado. Isso faz com que o homem aceite o rebaixamento e sirva à máquina, em lugar de se servir dela.

Os riscos que Adam Frank vislumbra, não são aqueles da IA suplantar os humanos. Ao contrário: é o rebaixamento da humanidade ao nível delas. É a ignorância humana, deslumbrada com a técnica, descer ao nível raso e menos que humano da IA, o que tornará a experiência de mundo mais plana, superficial e mais pobre.

Aquilo que merece a atenção é o profundamente humano. Como tornar as pessoas mais tranquilas, mais equilibradas, mais felizes. Menos desalentadas e menos doentes. Como recuperar a saúde do planeta, que nós praticamente destruímos, com o desmatamento, com a poluição em todos os níveis, com o nosso criminoso agir, como se não fizéssemos parte dessa maravilhosa criação inteligente?

Por nos sentirmos superiores ao Universo, na tola pretensão de sermos “imagem e semelhança divina”, desprezamos o ambiente, desrespeitamos a natureza, desconhecemos a biosfera. Tem razão Adam Frank quando adverte: não se diga que precisamos “salvar a Terra”. Pense-se nela como uma deusa furiosa. Quando a maltratamos, despertamos seu lado perverso. Em vez de “salvar a Terra”, temos é de parar de irritá-la. Senão, “ela nos sacudirá como pulgas em um cão. Essa visão muda o debate: não se trata de direita contra esquerda ou empresas contra ambientalistas. Trata-se de sobrevivência!”.

 

 

 

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.