26 de setembro de 2026
FRAN GALVÃO

O que Nova York me ensinou sobre comprar roupa

Por Fran Galvão | Consultora de imagem e estilo
| Tempo de leitura: 4 min
Divulgação
O que Nova York me ensinou sobre comprar roupa

No linguajar das redes sociais, talvez eu pudesse dizer que, durante este mês em Nova York, “não entreguei looks”. E eu explico.

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Eu repeti roupa, fiz adaptações, usei a mesma peça de maneiras diferentes, troquei só os acessórios, sobrepus camadas, mudei sapato, bolsa...reorganizei combinações de acordo com o compromisso, o clima e, principalmente, com a vontade de experimentar. E isso aconteceu justamente enquanto eu estava cercada de moda.

Nova York tem esse efeito. Você anda algumas quadras e vê uma vitrine interessante, entra em uma loja e descobre uma marca que não conhecia, caminha pela rua e encontra alguém usando uma combinação que jamais teria imaginado. Fashion Week, street style, tendências, acessórios, cores, volumes, sobreposições…um turbilhão de informações.

Mas acredita que quanto mais moda eu vi por aqui, menos senti necessidade de comprar por comprar?!?!?!

E isso não quer dizer que não gostei do que vi - muito pelo contrário - acho que a moda vem começando a voltar a me comover (parece que ela voltou a querer ser olhada de pertinho, sabe?), mas acho que o que aconteceu foi uma das grandes comprovações que levo desta temporada: mais repertório, não necessariamente mais desejo de compra.

E aqui faço uma ressalva importante: isso não significa que você não precise de roupas novas - tem gente que precisa, sim. Aliás, muita mulher precisa justamente porque passou anos comprando muito e comprando errado. Tem roupa demais, mas pouca roupa que conversa com a vida que leva. Peças que não combinam entre si, modelagens que não favorecem o corpo atual ou a rotina que se leva, compras feitas por impulso, tendências que chegaram ao armário sem nunca chegar à vida real. Nesse caso, comprar pode ser parte da solução.

Aliás o problema não é comprar ou não comprar, roupa nova ou velha – o problema é quando comprar vira a única estratégia para resolver um guarda-roupa que não funciona.

E Nova York me fez pensar muito sobre isso. Quando você desenvolve repertório (porque repertório aumenta possibilidades), começa a perceber que uma camisa branca não precisa ser apenas uma camisa branca. Ela pode aparecer aberta sobre uma camiseta, fechada com uma saia, por baixo de um tricô, com as mangas dobradas, parcialmente para dentro da calça ou funcionando como terceira peça.

O jeans que você já conhece pode ganhar outra leitura com um sapato diferente, o blazer pode deixar de ser “aquela peça para trabalhar” e entrar no fim de semana, um lenço pode mudar completamente a leitura de uma produção, um acessório pode transformar uma roupa básica em um look com intenção – possibilidades!! E sabia que isso tem nome? Chamamos de styling - ele é a capacidade de enxergar possibilidades.

Neste período em Nova York também percebi que repetir roupa não diminui estilo, muito pelo contrário. Talvez uma das maiores armadilhas das redes sociais seja a ideia de que cada aparição precisa produzir uma roupa inédita, como se repetir fosse falta de criatividade, como se uma mulher interessante precisasse de um look novo para cada fotografia.

Mas estilo não é quantidade de looks entregues, é a qualidade da leitura que você faz sobre aquilo que veste.

Mas atenção, existe uma diferença enorme entre repetir uma roupa porque você não sabe o que fazer com ela e repetir porque descobriu que aquela peça realmente funciona para você. A primeira situação pede repertório, já a segunda demonstra repertório.

Por isso busquei mais identidade durante essa viagem. Eu queria vestir a Fran que estava em Nova York e não montar uma personagem para parecer que estava em Nova York - parece detalhe, mas não é.

Imagem pessoal também é coerência. Você pode usar a tendência mais atual da Fashion Week, mas, se aquilo não conversa com quem você é, com a sua rotina, com seu corpo, com seu repertório e com a mensagem que quer transmitir, talvez você esteja apenas usando uma roupa bonita. E roupa bonita, sozinha, não constrói estilo, nem presença e muito menos autoridade.

Talvez essa seja uma das coisas que a maturidade ensina (e viajar também): a gente começa a comprar menos pela promessa da novidade e mais pela possibilidade de resultados e benefícios.

Não significa parar de consumir moda. Eu, inclusive, continuo amando moda (talvez ainda mais), ir nas minhas lojas prediletas, experimentar tudo que gosto, mas hoje quero saber: quantas combinações essa peça me oferece? O que ela conversa com o que eu já tenho? Ela amplia meu repertório ou apenas aumenta meu volume de roupas? Me ajuda a comunicar a mulher que sou e tudo que tenho construído?

Porque foi isso que Nova York me fez observar, quanto mais referências eu vi, mais possibilidades enxerguei nas peças que já tenho. A cidade não me fez querer ter mais roupas. Me fez querer usar melhor as que eu tenho.

E talvez seja esse o verdadeiro luxo de um guarda-roupa: não ter infinitas opções e sim saber enxergar possibilidades onde antes você só enxergava repetição.