A Cavalaria de São Gonçalo e São Benedito de Guaratinguetá foi reconhecida oficialmente como Patrimônio Cultural do Brasil. A decisão foi aprovada por unanimidade nessa terça-feira (22), durante a 114ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, realizada no Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), em Brasília.
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Com a decisão, o cortejo será inscrito no Livro de Registro das Celebrações, que reúne manifestações culturais marcadas por rituais, festas, religiosidade, entretenimento e outras práticas coletivas da sociedade.
A tradição, que remonta ao século 18, reúne fé, devoção, memória, costumes e referências ligadas à formação histórica do Vale do Paraíba. Todos os anos, no Domingo de Páscoa, cerca de 2 mil cavaleiros e cavaleiras vestidos de branco percorrem aproximadamente 20 quilômetros pelas ruas de Guaratinguetá.
O presidente da Associação Cavalaria de São Gonçalo e São Benedito de Guaratinguetá, Fernando Guimarães, comemorou o reconhecimento nas redes sociais e destacou que o processo começou há 11 anos.
“Um ano marcado em nossa Guaratinguetá”, afirmou.
Segundo ele, a conquista representa um momento histórico para a cidade e para todos os integrantes da Cavalaria.
“Hoje passa a ser um patrimônio não somente de nossa cidade, mas um patrimônio da nossa nação”, declarou Guimarães.
A história da Cavalaria está relacionada a duas importantes tradições culturais: o tropeirismo e a devoção afro-católica.
Segundo a memória local, tropeiros e viajantes construíram em Guaratinguetá, em 1726, a Capela de São Gonçalo do Amarante, em homenagem ao santo considerado padroeiro dos viajantes.
Décadas depois, em 1757, pessoas escravizadas colocaram na mesma capela a imagem de São Benedito e criaram a Irmandade de São Benedito dos Irmãos Pretos Cativos da Vila de Guaratinguetá, responsável pela preservação de símbolos ligados ao santo.
Não existe registro da data exata em que o cortejo passou a ser realizado anualmente. A tradição, porém, se consolidou como prática coletiva a partir de 1888 e já aparece documentada, em 1948, como uma celebração integrada ao calendário da cidade.
Foto: Alberto Lefèvre/Reprodução/Iphan
O cortejo atual é organizado pela Associação Cavalaria de São Gonçalo e São Benedito de Guaratinguetá, fundada formalmente em 1992. Os integrantes chamados de mantenas são responsáveis pela organização das filas, pelas bandeiras e estandartes e pelo cumprimento das regras da manifestação.
Além dos mantenas, participam seis clubes agregados, cada um com uniforme e identidade próprios. Também existe a chamada Fila de Branco, aberta a cavaleiros e cavaleiras sem filiação fixa, mediante cadastro prévio.
Durante o percurso, a Cavalaria faz paradas em cemitérios para homenagear integrantes que morreram. Familiares e amigos levam estandartes com fotografias dos homenageados.
Moradores também participam da celebração ao preparar altares nas calçadas e nas portas das casas para saudar a passagem dos cavaleiros.
A manifestação também passou por mudanças ao longo das últimas décadas. A entrada das mulheres ocorreu a partir dos anos 1970, quando Vera Aparecida de Paiva França, filha do chefe Evandro Paiva, tornou-se a primeira mulher a desfilar montada.
Atualmente, o cortejo conta com um grupamento feminino. Crianças entre 8 e 13 anos também participam como mantenas mirins, em uma forma de transmissão dos conhecimentos e das regras da tradição para as novas gerações.
As mudanças organizacionais ganharam força a partir de 1975, sob a liderança de Evandro Paiva, e culminaram na criação formal da associação em 1992.
Foto: Alberto Lefèvre/Reprodução/Iphan
Um dos pontos centrais da celebração ocorre durante a procissão do mastro de São Benedito. O objeto sai da Capela de São Benedito e Santa Cruz, na região central de Guaratinguetá, acompanhado pela coroa, pela bandeira e pela imagem do santo.
A Cavalaria escolta o mastro até a Igreja do Puríssimo Coração de Maria, onde ocorre a cerimônia de levantamento. O momento é acompanhado pelas Caixas de São Benedito, pelas congadas e pelos moçambiques, com orações, música, cantos e danças.
Os devotos colocam no mastro bilhetes com pedidos e agradecimentos. Depois da cerimônia, os cavaleiros seguem até a Praça São Gonçalo para executar a chamada meia-lua, um giro quase completo dos animais que remete às evoluções realizadas pelos tropeiros diante da antiga capela.
Foto: Fábio Bueno/Reprodução/Iphan
O cortejo reúne uma série de elementos que ajudam a preservar sua identidade. Entre eles estão o mastro, a coroa, a bandeira e a imagem de São Benedito, além da imagem de São Gonçalo, que abre o desfile e participa das procissões.
Os estandartes também têm diferentes funções. Alguns carregam as imagens dos santos, enquanto outros identificam a Associação e os clubes participantes. Há ainda os estandartes de homenagem póstuma, com fotografias de cavaleiros, cavaleiras e familiares que já morreram.
Os mantenas são identificados por elementos específicos na vestimenta, como gravatas, faixas, broches e o cravo vermelho. O conjunto diferencia os integrantes responsáveis pela organização do cortejo dos clubes agregados e da Fila de Branco.
Outro costume preservado é o empréstimo ou aluguel de cavalos e muares para o desfile. A prática é considerada, dentro da tradição, um gesto de devoção e está ligada à memória de famílias que, ao longo das gerações, disponibilizaram animais para a celebração.