O Vale do Paraíba, uma das regiões mais industrializadas do país e um dos principais polos econômicos e tecnológicos do interior paulista, aparece pouco -- ou sequer aparece -- nos planos de governo dos candidatos ao Governo de São Paulo.
Clique aqui para fazer parte da comunidade de OVALE no WhatsApp e receber notícias em primeira mão. E clique aqui para participar também do canal de OVALE no WhatsApp
Dos seis planos de governo analisados por OVALE, todos disponíveis no sistema do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), apenas dois fazem tímidas referência direta à região: o do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição, e o da candidata Vivian Mendes (Unidade Popular).
Os demais -- Fernando Haddad (PT), Vera Lúcia (PSTU), Izadora Dias (PCO) e Carlos Machado (PCB) -- não citam nominalmente o Vale do Paraíba em seus planos de governo. A candidata Policial Edjane (Agir) não possui plano de governo inscrito no sistema do TSE.
O levantamento chama atenção pelo peso econômico e estratégico da região.
A RMVale (Região Metropolitana do Vale do Paraíba) abriga a Embraer, uma das maiores fabricantes de aeronaves do mundo, grandes montadoras de veículos, empresas ligadas à indústria de defesa e um importante conjunto de instituições de pesquisa e tecnologia, como Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica).
São José dos Campos, por exemplo, concentra parte relevante desse ecossistema, que reúne indústria, universidades, centros de pesquisa, startups e empresas de alta tecnologia.
Mesmo com esse perfil, a região tem presença discreta nas propostas apresentadas pelos candidatos.
O plano de governo de Tarcísio de Freitas tem 68 páginas e menciona o Vale do Paraíba apenas uma vez. A referência aparece no capítulo dedicado à criação de uma rede estadual de hubs de inovação e trilhas tecnológicas.
A proposta prevê que o Estado organize os polos de inovação de acordo com as características econômicas e científicas de cada região. Para o Vale, o documento estabelece como foco as áreas aeroespacial, de defesa e de drones.
O plano afirma: “No Vale do Paraíba, tecnologias aeroespaciais, defesa e drones, inspirado em Toulouse e no Aerospace Valley, na França (novas tecnologias em aeronaves, satélites, espaço, drones, sistemas autônomos, defesa, materiais avançados e sistemas embarcados, conectando empresas âncora, fornecedores, startups e pesquisa).”
Antes do trecho específico sobre o Vale, o documento explica que o governo pretende estruturar uma rede estadual de hubs de inovação a partir das “vocações econômicas, produtivas e científicas de São Paulo”.
A menção dialoga diretamente com a característica industrial da região, especialmente com a cadeia aeroespacial instalada em São José dos Campos e em outros municípios do Vale.
A candidata Vivian Mendes, da UP, é quem mais cita nominalmente o Vale entre os planos analisados. O documento tem 46 páginas e faz duas referências à região.
A primeira aparece no capítulo sobre desenvolvimento regional. A proposta afirma:
“No Vale do Paraíba, fortaleceremos a indústria aeroespacial, ferroviária e de defesa, ampliando a integração entre pesquisa científica, empresas públicas e produção industrial.”
A segunda menção está relacionada à expansão da malha ferroviária paulista. O plano defende investimentos no transporte sobre trilhos e cita o Vale entre as regiões que deveriam ser integradas à rede estadual.
O documento diz: “São Paulo precisa voltar a investir pesadamente no transporte sobre trilhos. Nosso governo retomará o planejamento da expansão da rede de metrô e trens metropolitanos, articulando a capital, a Região Metropolitana, a Baixada Santista, o Vale do Paraíba, Campinas, Sorocaba e outras regiões estratégicas.”
São, portanto, duas referências com enfoques distintos: uma voltada à indústria e ao desenvolvimento regional e outra relacionada à infraestrutura de transporte.
O plano de governo de Fernando Haddad, do PT, é o mais curto entre os principais documentos analisados, com 15 páginas. Apesar de apresentar propostas para diferentes áreas do Estado, não há menção nominal ao Vale do Paraíba.
A ausência chama atenção especialmente pelo perfil econômico da região e por sua posição estratégica entre São Paulo e Rio de Janeiro.
A candidata Vera Lúcia, do PSTU, apresenta um plano de governo com 54 páginas. O documento não cita o Vale do Paraíba.
O mesmo ocorre com Izadora Dias, do PCO. Seu plano tem apenas sete páginas e também não faz referência nominal à região.
Carlos Machado, do PCB, apresenta o documento mais extenso entre os candidatos analisados, com 182 páginas. Ainda assim, o Vale do Paraíba não aparece nominalmente no plano.
A baixa presença do Vale nos planos de governo contrasta com a importância econômica da região para São Paulo e para o país.
O Vale do Paraíba reúne uma cadeia industrial diversificada, com destaque para os setores aeroespacial, automotivo, metalúrgico, tecnológico e de defesa. A presença da Embraer transformou São José dos Campos em uma referência mundial na indústria aeronáutica e ajudou a formar uma extensa rede de fornecedores, centros de pesquisa e mão de obra especializada.
A região também conta com grandes montadoras e empresas de tecnologia, além de instituições como o Inpe, o DCTA (Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial) e universidades que alimentam o mercado de profissionais qualificados.
Essa estrutura coloca o Vale em uma posição estratégica para políticas estaduais de inovação, infraestrutura, qualificação profissional, ciência e tecnologia.
Além da economia, o Vale enfrenta um problema que exige atenção do próximo governo estadual: a segurança pública.
A região é apontada como a mais violenta do interior paulista, cenário que amplia a pressão sobre as forças de segurança e os municípios. A localização estratégica, próxima às divisas com Minas Gerais e Rio de Janeiro e cortada por importantes rodovias, também impõe desafios no combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas.
Nesse contexto, a ausência de referências específicas ao Vale em boa parte dos planos de governo contrasta com problemas que ultrapassam as fronteiras municipais e exigem articulação com o governo estadual.
O levantamento mostra, portanto, que o Vale aparece de maneira pontual no debate eleitoral. Tarcísio relaciona a região à inovação aeroespacial, defesa e drones. Vivian Mendes propõe fortalecer setores industriais e ampliar a integração ferroviária. Os outros quatro candidatos, porém, não fazem menção nominal ao Vale em seus planos.
Para uma região que combina peso industrial, produção tecnológica, localização estratégica e desafios de segurança, a pergunta que fica para a campanha é justamente qual será o espaço reservado ao Vale do Paraíba nas prioridades do próximo governo de São Paulo.