10 de setembro de 2026
OVALE ENTREVISTA

Salles diz que Lula vai 'implodir' o país e prega freio ao crime

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 26 min
Antonio Basílio
Ricardo Salles na redação de OVALE

Em entrevista a OVALE, o deputado federal Ricardo Salles (Novo), candidato ao Senado por São Paulo e ex-ministro do Meio Ambiente do governo Jair Bolsonaro, criticou abertamente seus adversários na corrida eleitoral.

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Ele classificou as candidatas da esquerda como "forasteiras" e apontou o rival André do Prado (PL) como representante do Centrão fisiológico e sem coerência ideológica.

Além disso, o postulante defendeu que a direita se una no segundo turno presidencial contra a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), afirmando que uma nova vitória do petista iria "implodir o Brasil".

Voltando suas propostas para a região, Salles enfatizou a necessidade de blindar o Vale do Paraíba contra o avanço das facções criminosas vindas do estado vizinho, propondo a criação de uma barreira ostensiva e de inteligência policial nas cidades limítrofes com o Rio de Janeiro.

Salles defendeu ainda a fixação de uma idade mínima de 60 anos para a indicação de ministros ao STF (Supremo Tribunal Federal), além de criticar a atuação do Senado no controle dos abusos judiciais e pedir o fim do fundo eleitoral e das emendas parlamentares.

Confira a entrevista na íntegra.

Pesquisas recentes colocam o candidato ao Senado André do Prado um pouco à frente do senhor em alguns levantamentos, enquanto outros mostram uma disputa mais apertada. Por que o eleitor da direita deveria votar em Ricardo Salles e não nos outros candidatos?

Primeiro, eu sou paulista de verdade.

Conheço São Paulo a fundo. Já fui secretário de Estado mais de uma vez, fui ministro do presidente [Jair] Bolsonaro e deputado federal, o quarto mais votado, quinto mais votado do Brasil. Fui eleito com 640 mil votos. Portanto, tenho uma relação com o nosso Estado antiga e, acima de tudo, coerente.

Então, aqui nós estamos falando de duas coisas diferentes.

O candidato que de fato conhece o Estado, tem amor pelo Estado, quer defendê-lo de verdade e não usar o Estado, esse é o meu caso. Tampouco sou aquele que, a cada momento, muda de direcionamento político. Eu sempre fui uma pessoa com as mesmas posições. Sempre defendi a visão conservadora, sempre defendi a visão liberal e sempre defendi que São Paulo precisava ter mais protagonismo no cenário brasileiro.

O que a gente vê é, de um lado, as duas candidatas da esquerda que, para além das más ideias da esquerda, não sabem nada do nosso Estado, não têm nenhuma relação com o nosso Estado e estão usando São Paulo para se promover para suas carreiras pessoais.

De outro lado, nós temos o candidato André do Prado, que é do Alto Tietê, que sempre esteve ligado à esquerda. Enquanto eu fundei o movimento Endireita Brasil, em 2006, já defendendo as mesmas ideias que eu tenho hoje, portanto, há 20 anos, André do Prado era um candidato cujo grupo político, do padrinho dele, Valdemar da Costa Neto, estava dentro do governo Lula, praticando corrupção no Ministério dos Transportes, no antigo PR.

Em 2010, quando eu fui candidato pela segunda vez, com o lema "Chega de PT", o André do Prado estava apoiando ostensivamente a eleição da Dilma Rousseff. Ou seja, naquela altura, eu era anti-Dilma, ele era pró-Dilma.

Em 2014, quando eu fiz campanha contra a reeleição da Dilma, ele novamente estava do lado da Dilma e do governo da Dilma, do Padilha, do Mercadante e do Suplicy. Em 2018, quando eu fiz campanha para o presidente Bolsonaro, ele estava contra o presidente Bolsonaro, estava do lado do Geraldo Alckmin. Em 2022, quando a gente estava fazendo a campanha do Tarcísio, ele estava do lado do Rodrigo Garcia.

Ou seja, uma pessoa que não tem nenhuma coerência ideológica, nenhuma história na direita e está inserida num grupo político que é um dos maiores grupos de corrupção do Brasil. O Centrão, dentre eles, a turma do Valdemar da Costa Neto, representa o que de mais corrupto existe no nosso país. Quando a gente vê, na saúde, o dinheiro que falta, é o Centrão que está roubando.

Quando a gente vê que falta dinheiro na educação, no saneamento, na habitação, o Centrão está envolvido em todos os escândalos de corrupção desse país nos últimos 40 anos. E essa turma da República de Mogi, chamada República de Mogi, que é comandada pelo Valdemar da Costa Neto, está envolvida em todos esses escândalos nos últimos 40 anos.

Portanto, por que o eleitor deve votar no Ricardo Salles? Porque o Ricardo Salles é paulista, conhece o nosso Estado, vai brigar de verdade pelo nosso Estado, que é o papel do Senado.

Diferentemente das forasteiras, que estão usando o nosso Estado para se alavancar pessoalmente, e tampouco uma pessoa que eu não admito corrupção, ao contrário da turma do Centrão do André do Prado, que, além da incoerência ideológica, do oportunismo de fazer de conta que é de direita, está envolvida em todos os escândalos de corrupção desse país nos últimos 40 anos.

 

Quais os planos do senhor caso vença a eleição? Como vê o Estado hoje? Quais as principais necessidades?

Acho que a primeira função de um senador por São Paulo é brigar pela alteração do pacto federativo, sobretudo no que diz respeito a recursos de São Paulo.

São Paulo é a locomotiva do Brasil. Nós pagamos 32% de tudo que a União arrecada de impostos e recebemos menos de 10% de volta. Então, o senador tem obrigação de brigar contra essa injustiça orçamentária. São Paulo é o que mais contribui e o que menos recebe.

Por outro lado, ao brigar pelos recursos de São Paulo, que é a obrigação dos senadores, você começa a ter dinheiro para fazer várias coisas que o nosso Estado precisa. Vou dar um exemplo aqui do Vale do Paraíba. O prolongamento da Carvalho Pinto e da Ayrton Senna é uma medida fundamental para acabar com esse problema de logística aqui no Vale.

Você pega a Dutra. Eu vou para Guaratinguetá praticamente duas, três vezes por mês e pego a Dutra toda parada na ida e na volta. Ou seja, já era para nós termos feito essa obra. Se São Paulo, ao invés de dar dinheiro para outras regiões do Brasil, tivesse mantido esse recurso aqui, a gente já teria feito essa obra do prolongamento há mais tempo.

Outra questão fundamental é habitação.

Você tem vários problemas de favelização de cidades ao longo do Vale do Paraíba e você não tem aqui recursos para fazer tudo ao mesmo tempo. De novo, recurso de paulista que é mandado para fora do Estado e falta dinheiro para nós fazermos aqui.

Terceiro ponto fundamental: segurança pública.

Eu fiz uma designação de emenda parlamentar para a Polícia Civil aqui do Vale, da seccional do Vale Histórico, lá do fundo, para trocar todos os 200 computadores da Polícia Civil, que são computadores que não funcionam. Foram R$ 1,2 milhão de emenda parlamentar para isso. Não precisava ter emenda parlamentar para isso.

Isso deveria ser um dinheiro do orçamento, para você poder cuidar da segurança pública do Estado e manter as nossas polícias Civil, Militar, Penal e Técnico-Científica no melhor nível que a gente precisaria ter.

Ou seja, São Paulo precisa brigar para ter o que há de melhor. Dinheiro para fazer isso nós temos. O problema é que nós estamos sendo dragados.

São Paulo está sendo sangrado pela União para distribuir dinheiro paulista para outros Estados que, por sua vez, desperdiçam o nosso dinheiro, quando não roubam o nosso dinheiro nesses escândalos de corrupção.

Outra medida importante, para o Estado inteiro, é na área de segurança pública, ou de qualidade de vida das pessoas. Na área de segurança pública, é o fim dessas liberações na audiência de custódia.

Então, o Senado tem o papel de alterar a legislação penal e de processo penal, de tal sorte que a audiência de custódia, que é hoje a maior porta giratória — a polícia prende o bandido e a audiência de custódia solta, na esmagadora maioria dos casos —, tenha sua regra alterada. Nós precisamos mudar a regra para que eventual soltura de um preso numa audiência de custódia seja a exceção da exceção.

Para isso, você muda a regra para que o juiz tenha o instrumento legal necessário para que o preso na audiência de custódia não seja solto, a não ser num caso muito extremo, em que haja uma evidente nulidade da operação. Do contrário, quem está preso tem que continuar preso. E, se para isso a gente tiver que construir mais presídios, que construa. E, para isso, de novo, precisa de dinheiro.

Outra medida fundamental é a regulamentação de todo esse modelo de execução penal que nós temos. A legislação brasileira permite que o preso trabalhe. Nós temos que mudar a legislação para obrigar que o preso trabalhe.

É uma diferença muito grande entre permitir que ele trabalhe ou obrigar que ele trabalhe. Cabeça vazia, oficina do diabo.

O preso fica na cadeia sem fazer nada, o tempo inteiro pensando em novas práticas de crime ou coordenando a criminalidade do lado de fora, que, aliás, é beneficiada pelas chamadas visitas íntimas, que têm que acabar.

Você acaba com a visita íntima e, por outro lado, põe o preso para trabalhar obrigatoriamente. Põe o preso para cortar grama na rodovia, para consertar cerca, para fazer pavimentação, não importa.

Aí você tem aquela imagem muito comum. A gente vê nos filmes dos guardas de prisão americana, no cavalo, com a espingarda na mão, e os presos todos trabalhando em volta. Tem que acontecer isso no Brasil também. Nós temos que mudar a regra para o preso ser obrigado a trabalhar.

Então, você tem muitos temas realmente que o Estado de São Paulo pode e deve avançar, mas, para isso, precisa ter um Senado que efetivamente defenda o nosso Estado, incondicionalmente.

Eu não me curvo a esse argumento de que São Paulo é rico e tem que se sacrificar pelo resto do Brasil. Nós somos ricos porque a gente trabalha, porque a gente tem uma população aqui muito dedicada ao esforço, ao mérito, e nós temos problemas aqui. Problemas, como eu já disse, de saúde, de educação, de transporte, de moradia e de tudo.

Então, enquanto todos os nossos problemas não tiverem sido sanados, eu não concordo em mandar dinheiro para outros lugares do Brasil.

 

O senhor se apresenta como alternativa à política tradicional, mas acumula uma trajetória como secretário de Meio Ambiente de São Paulo, ministro e deputado federal. Como o senhor se diferencia da chamada política tradicional? E quem representa essa política tradicional na disputa pelo Senado de São Paulo?

O candidato que é a cara do sistema, do Centrão, da velha política, da corrupção, do aparelhamento do Estado, é o André do Prado.

Ele representa aquilo que a política brasileira já devia ter expurgado, que é o candidato camaleão. Ele apoia qualquer tipo de governo, qualquer linha ideológica, desde que eles tenham caneta, dinheiro e poder.

Eu acho que esse é o principal ponto. As pessoas no Brasil se acostumaram durante muitos anos ao político que não tinha posicionamento. É a história da folha morta no vento: para o lado que o vento sopra, a folha vai. O André do Prado é isso.

Ele apoiou Dilma, Mercadante, Márcio França, o fecha-tudo do João Doria, se juntou ao PT para ser presidente da Assembleia Legislativa dois anos atrás. Ou seja, é uma pessoa que não tem posicionamento ideológico nenhum. Ele quer o poder pelo poder. E isso é muito ruim. Essa é a verdadeira velha política. É o sistema, é o Centrão, são as práticas de corrupção, de esquema que a gente vê se propagando no nosso país.

Infelizmente, esse grupo, que no Estado de São Paulo é liderado aqui pela chamada República de Mogi, a turma do Valdemar da Costa Neto, preso no mensalão por corrupção, esse pessoal se imiscuiu na direita, se misturou dentro da direita e, portanto, está contaminando a direita.

A esquerda tem seus problemas, não só de comportamento, mas ideias com as quais eu não me alinho, mas pelo menos você sabe quem eles são.

O Centrão, não. O Centrão é um camaleão que se infiltra em quaisquer fileiras políticas para engolir o processo por dentro. É uma espécie de cupim das instituições brasileiras.

 

O Vale do Paraíba é estratégico para São Paulo, por sua localização entre São Paulo e Rio de Janeiro, pela indústria, tecnologia, defesa, logística e pelo peso econômico de cidades como São José dos Campos, Taubaté e Jacareí. Na sua avaliação, que importância o Vale tem no projeto de desenvolvimento do Estado de São Paulo e o que hoje está sendo negligenciado pela União e pelo governo paulista? E, se eleito, quais seriam as suas prioridades aqui para nossa região?

O Brasil e São Paulo devem muito ao Vale. A nossa própria identidade enquanto país, nós vimos isso agora no 7 de Setembro. O Vale do Paraíba está intimamente ligado à identidade brasileira, à independência do Brasil, à construção do nosso processo histórico. Por outro lado, foi sendo esquecido ao longo dos anos, por vários motivos.

Você tem problemas de logística no Vale, como nós já nos referimos aqui. Na rodovia, na Dutra, é praticamente a única via de acesso, como você falou, do Vale do Paraíba. A importância do Vale é muito grande porque ele faz essa ligação do Rio de Janeiro com São Paulo, e ele foi sendo deixado de lado.

A agricultura do Vale do Paraíba não teve o apoio que merecia.

O próprio turismo do Vale do Paraíba, que tem um grande potencial, não recebe os investimentos que a gente poderia ter. Eu acho que o Vale Histórico, toda a história do Vale do Paraíba, é uma grande oportunidade de renda, uma renda alta, boa, limpa, correta, e tudo isso não está sendo feito.

Então, nós temos que investir numa agricultura melhor. Você tem, obviamente, limitações da própria característica da geografia do Vale, as montanhas e tudo, mas você tem coisas muito importantes do agronegócio, do ecoturismo, do turismo rural.

Então, tem muita coisa no Vale do Paraíba para ser investida, mas é preciso ter recursos. Infelizmente, nós temos uma contradição no Vale.

Nós temos essa ligação importante de São Paulo e Rio, que historicamente e economicamente é muito relevante, mas nós temos, por outro lado, uma contaminação do Vale do Paraíba com a criminalidade que vem do Rio de Janeiro.

Nós já sabemos que várias cidades do Vale do Paraíba já têm uma disputa, inclusive, entre PCC e Comando Vermelho.

Então, é preciso criar uma espécie de barreira muito forte nos municípios limítrofes, ali Lorena, Cachoeira, Queluz, enfim, todos os municípios que são do fundo do Vale precisam ter um cuidado especial na área de segurança pública, porque, obviamente, seria muita inocência achar que a criminalidade do Rio de Janeiro não tenta vir para São Paulo.

Então, acho que essa é uma preocupação muito grande que o Vale precisa ter. Nós precisamos criar uma barreira muito forte de policiamento de inteligência, de policiamento ostensivo, de controle de rodovias, para que o crime do Rio de Janeiro não invada o nosso Vale do Paraíba.

 

O senhor foi ministro do ex-presidente Jair Bolsonaro, se apresenta como candidato de direita e sempre teve forte identificação com o bolsonarismo, mas declarou que não votará em Bolsonaro para presidente no primeiro turno. Por que essa decisão? Ela é apenas partidária, em relação ao seu partido, ou o senhor não acredita na capacidade de Flávio Bolsonaro?

O meu partido tem um ótimo candidato, que é o Romeu Zema.

Foi duas vezes governador, reeleito em primeiro turno, fez o saneamento das contas públicas de Minas Gerais. É uma pessoa extremamente correta, muito honesta e uma pessoa decente. Então, para nós, é uma alegria poder ter o Romeu Zema como candidato.

Ainda que, dadas as dificuldades de um partido pequeno como o Partido Novo, ele tenha a dificuldade de crescer, ele nos orgulha muito e, portanto, é fundamental que a gente tenha lealdade ao Romeu Zema, que é o nosso candidato a presidente.

Agora, no segundo turno, a prevalecer essa pesquisa eleitoral que indica que é o Flávio que deve ir contra o Lula, evidentemente nós vamos apoiar o Flávio. Até porque, se não tirar o Lula do poder, o Brasil vai implodir. Então, é fundamental que a gente tenha todo o esforço concentrado para vencer o PT e o Lula.

 

No Estado de São Paulo, qual é a posição do senhor, pessoalmente, e do partido com relação à reeleição do Tarcísio?

O Novo apoia a reeleição do Tarcísio.

O Novo foi o primeiro partido a declarar incondicionalmente apoio à reeleição do Tarcísio. Nós fizemos isso independentemente de apoio recíproco, cargos ou qualquer outra coisa.

O que nós entendemos é que, primeiro, o Tarcísio faz um bom trabalho e merece, portanto, ser reeleito. Por outro lado, o Haddad e o PT, como sempre acontece, seriam um desastre para o nosso Estado de São Paulo.

 

A candidatura do senhor ao Senado provocou um certo racha dentro da direita paulista e irritou setores ligados à campanha de Flávio Bolsonaro. O senhor reconhece que hoje é visto por parte do bolsonarismo como um adversário interno? E até onde está disposto a ir nesse confronto, nessa disputa?

Veja, a direita precisa entender que o Centrão se infiltrou nas nossas fileiras e está destruindo a direita.

Quando você vê a ala do PL ligada ao Valdemar lá em Brasília, votando sistematicamente em apoio ao governo Lula, o Valdemar colocou um vice-presidente do Senado que é governo Lula. Colocou um vice-presidente da Câmara que é governo Lula. Ou seja, a ala do Valdemar e, portanto, a ala do André do Prado é uma ala do Lula. É uma ala do governo atual, do governo Lula.

Eles usam o bolsonarismo, usam a direita para fazer voto, porque somos nós, da direita, que temos voto. Mas, na hora de se posicionar, eles se posicionam como o Centrão sempre se posicionou: em torno de dinheiro, em torno de cargos, emendas e verbas.

E, infelizmente, a direita, ainda essa parte que apoia o André do Prado, ainda não se deu conta de que essa promiscuidade do Centrão dentro da direita está destruindo justamente as vantagens competitivas da direita, que são um discurso de moralidade, de ética, anticorrupção, de fidelidade aos princípios liberais na economia e conservadores no comportamento.

Toda vez que o Centrão se infiltra na direita, todas essas bandeiras saem enfraquecidas.

O Centrão usa a direita para isso e, portanto, quando eu vejo a candidatura do André do Prado, no fundo, eu estou vendo o enfraquecimento da direita pela contaminação de alguém que sempre esteve ligado à esquerda e hoje se finge de direita, destruindo justamente a direita por dentro.

 

O senhor acusou Eduardo Bolsonaro de ter negociado a candidatura ao Senado por valores que poderiam chegar a R$ 60 milhões. Eduardo negou. O senhor tem provas dessa acusação? Qual seria o motivo dessa negociação de Eduardo e a quem ela beneficiaria?

Na verdade, eu reproduzi um comentário que estava sendo dito em Brasília por vários parlamentares.

De certa forma, o Eduardo, na minha opinião, é uma pessoa muito preparada e sempre foi um candidato e depois deputado contrário às más práticas do Centrão, tanto que há um vídeo importante dele no final de 2018, antes de nós entrarmos no governo do pai dele, justamente questionando as pessoas, dizendo quem seguiria firme nas ideias da direita e quem, por outro lado, se venderia ao Centrão.

Então, para mim, foi uma coisa incompreensível o Eduardo aliar-se ao André do Prado no primeiro momento. Hoje já não é mais suplente. A Justiça, infelizmente, diz que ele não pode se candidatar a nada.

Mas, para mim, foi uma surpresa o Eduardo, que é uma pessoa que eu sempre vi muito alinhada aos princípios ideológicos da direita, de repente se curvar a essa candidatura do Centrão, do André do Prado, que é a antítese de tudo aquilo que o Eduardo sempre defendeu.

Portanto, para mim, é uma postura inexplicável.

 

Se o senhor for eleito senador, será um senador independente do bolsonarismo, um aliado de Jair Bolsonaro, um opositor de Flávio Bolsonaro ou um representante do Novo aliado ao governador Tarcísio de Freitas, eventualmente na reeleição dele? A quem o senhor pretende ser leal estando no Senado?

Eu, em primeiro lugar, serei leal aos paulistas.

Eu sou um paulista acima de tudo, embora tenha enorme gratidão e reconheça o valor do presidente Bolsonaro, que é uma pessoa espetacular e que fez um grande trabalho.

Eu, acima de tudo, sou paulista. Eu coloco os meus princípios, os meus valores acima de qualquer coisa e atender São Paulo, para mim, é um objetivo em si mesmo. Eu sou paulista. Eu não sou paulista para apoiar fulano ou beltrano. Eu sou paulista para apoiar São Paulo.

Nas coisas boas que o governo Flávio fizer, terá todo o meu apoio. Coisas que prejudiquem São Paulo, ainda que sejam eventualmente dentro do governo dele, eu não posso apoiar.

Da mesma forma, o governo Tarcísio está fazendo um bom trabalho e terá todo o meu apoio sempre.

Eu defendo São Paulo. Eu defendo os meus princípios, os meus valores em primeiro lugar. E São Paulo está dentro dessa prioridade.

Portanto, um senador por São Paulo tem que defender São Paulo.

Não é uma questão partidária nem nada disso.

 

O senhor votou duas vezes contra a proposta que acaba com a escala 6 por 1. Qual é a sua justificativa para esse voto? O que o senhor responderia ao trabalhador que defende dois dias de descanso por semana e entende que a atual jornada prejudica sua qualidade de vida, caso o senhor seja eleito senador?

Sem dúvida, votei contra e votarei contra como senador.

Eu não concordo que o Estado se meta e queira determinar como são as relações entre patrão e empregado, entre empregador e funcionário.

Acho que hoje em dia a economia já está bastante avançada e sofisticada, de tal modo que o patrão e o empregado possam eles mesmos negociar se querem trabalhar por hora, se querem trabalhar por dia, por tarefa, quais dias da semana, que horário será o trabalho.

Não é o Estado, não é o governo que vai se meter nessa relação.

Toda vez que o governo se mete nesse tipo de coisa, no final das contas acaba com os empregos, fecha as empresas e essas pessoas que estão se iludindo com essa proposta vão perceber que o resultado prático dessas medidas do governo Lula será igual ao que acontecia antigamente na Argentina: fechar empresa, fechar emprego, fechar oportunidade.

O que nós temos que defender é a liberdade entre as pessoas, patrões e empregados, em negociar as condições.

Cada funcionário, cada empregado pode ter as suas demandas. Ele pode querer trabalhar no final de semana, pode querer trabalhar mais horas por dia para poder ganhar mais, pode querer trabalhar mais dias da semana para ganhar, por exemplo, mais comissão ou fazer mais tarefa.

Então, essa liberdade tem que ser garantida e o projeto do Lula retira essa liberdade. Isso é muito ruim para o país.

 

Como o senhor vê essa crise que se estabeleceu no Supremo Tribunal Federal? O senhor defende mudanças para a escolha de ministros, prazo para o mandato, prazo definido? O que o senhor acha que deve mudar na Corte Suprema do país?

Acho que a primeira proposta que nós temos que pôr em cima da mesa é a idade mínima para o Supremo. Nenhum ministro do Supremo, na minha opinião, deveria assumir o cargo com menos de 60 anos de idade.

E, consequentemente, como o limite é 75 anos, só com esse dispositivo de idade mínima de 60 anos você já está limitando o mandato a 15 anos, que é mais do que suficiente.

Uma pessoa, aos seus 60 anos, já tem maturidade suficiente para adotar posições ou escolher posições como ministro de uma Corte Constitucional, que hoje trata de muitos outros assuntos que não apenas a questão constitucional.

Acho que esse é um outro ponto. Segundo ponto também relevante: nós reduzirmos, de fato, questões constitucionais mesmo, aquilo que a Suprema Corte se dedica a julgar.

Por outro lado, o que nós temos visto é que há um certo casuísmo com relação às críticas ou às omissões sobre as posturas do Judiciário, seja na invasão de competências do Legislativo, seja também na invasão de competências do Executivo e num desrespeito sistemático que a gente tem visto em algumas áreas, como a história do 8 de Janeiro, o devido processo legal, a ampla defesa e o contraditório.

Só que essas críticas têm que ser feitas de maneira impessoal, porque são críticas à postura, ao procedimento, à conduta.

Então, portanto, nós temos que fazer com que o Supremo — e quem vai fazer isso é o Senado — se recoloque na sua função constitucional e obedeça às regras que ele mesmo existe para defender.

Em grande medida, essa ausência de autocontenção, como disse o ministro Marco Aurélio de Mello, do Supremo Tribunal Federal, decorre da omissão do Senado.

Hoje você tem um presidente do Senado que está enrolado até o último fio de cabelo, inclusive no caso do Banco Master. A revista Veja diz que ele recebeu R$ 155 milhões.

Então, é uma pessoa que não tem a menor capacidade de administrar um processo de arbitramento desses problemas do Judiciário, para recolocá-lo, para restabelecer a harmonia entre os poderes, que é determinada pela Constituição, e também a sua independência.

Quem colocou o Alcolumbre e o Motta na presidência da Câmara e no Senado foi o PT junto com o Centrão. O Centrão, inclusive, do Valdemar da Costa Neto.

Sobre a promessa de que o Motta ia votar a anistia e até hoje não votou, e sobre a promessa de que o Alcolumbre ia agir republicanamente quando fosse necessário, nós estamos vendo que ele não age republicanamente.

Então, esses partidos, sobretudo a ala do Valdemar dentro do PL, que vendeu para a população a necessidade de apoiar a chapa do Motta e do Alcolumbre, eles têm que se explicar.

Por que hoje a pessoa que eles brigaram para colocar lá, que é o Alcolumbre, não age de acordo com o que a sociedade quer e tampouco com o que defende o próprio discurso do PL?

Quer dizer, é uma contradição. Eles brigaram para pôr o Alcolumbre lá. E agora dizem, reclamam que o Alcolumbre não age. Ora, foram eles que colocaram o Alcolumbre lá, assim como o Motta, que não põe a anistia para ser votada.

Então, você vê como, de novo, voltando ao ponto anterior, como o Centrão aparecia à direita, usou os votos da direita, inclusive para eleger o Motta e o Alcolumbre, e agora faz de conta que não é com eles, como se o Motta e o Alcolumbre não fossem fruto dessa aliança horrorosa, perniciosa, do Centrão do Valdemar com o PT.

Eles fizeram isso na Câmara dos Deputados para eleger o Motta, fizeram isso no Senado para eleger o Alcolumbre e fizeram aqui na Assembleia Legislativa para eleger o André do Prado. Se juntaram com o PT.

 

A que o senhor atribui esse desarranjo institucional que mencionou?

Quando o modelo da Constituição, os chamados freios e contrapesos, não funciona, um poder acaba se sobrepondo sobre o outro.

No caso do Brasil, nesse momento, é o Judiciário. Em outros momentos da história, em outros países, em outros lugares, houve outros poderes. Mas, no Brasil, inequivocamente, o desequilíbrio da balança entre os três poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário, se dá pela exacerbação das funções do Judiciário.

O Judiciário invadiu as competências do Executivo durante o governo Bolsonaro, hoje invade as competências do Legislativo e não pratica a autocontenção que foi destacada pelo ministro Marco Aurélio Mello.

Isso decorre, basicamente, de um enfraquecimento do órgão que, pela Constituição brasileira, é o órgão encarregado de manter este equilíbrio, que é o Senado.

Quando o Senado, quando os membros do Senado não estão à altura deste seu papel constitucional, reduzem, diminuem e enfraquecem a própria figura do Senado. Realmente, infelizmente, é o que a gente acaba vendo: esse desequilíbrio entre os poderes.

 

O senhor identifica o Centrão como uma grande chaga da política brasileira. Como reduzir essa força? O senhor apoia a redução do número de partidos, partidos mais ideologicamente claros, menos partidos? Como reduzir essa zona cinzenta, em que ninguém sabe muito bem para onde vai politicamente?

Hoje, sem uma regra intrapartidária que seja obrigatória para a escolha de candidatos, enfim, um sistema que seja obrigatório, o que você tem são donos de partido.

Você tem os donos do partido, que mandam no partido integralmente. Vou dar o exemplo do PL, que eu conheço melhor.

O PL tem 19 membros no diretório nacional, dos quais um é o presidente Bolsonaro, o outro é o Rogério Marinho. Todos os outros 17 membros são pessoas ligadas aqui à região do Alto Tietê, de Mogi, da República de Mogi, do Valdemar. Ou seja, ele é o dono do PL.

Se você reduzir demais os partidos e, portanto, excluir as alternativas partidárias e simplesmente continuar colocando dinheiro público, que eu sou contra — sou contra fundo partidário, sou contra fundo eleitoral e sou contra emenda parlamentar, que tem sido sistematicamente objeto de corrupção —, mas tudo isso concentra poder nos donos de partido.

Se você reduzir para cinco partidos e cada partido tiver um dono, quem não fizer o beija-mão com o dono do partido não tem espaço para se candidatar no Brasil mais.

Ou seja, você vai privatizar para esses cinco donos de partido todo o sistema eleitoral brasileiro.

Então, para você poder reduzir partidos, tinha que ter duas coisas. Primeiro, o fim desses mecanismos: tempo de televisão, fundo partidário e fundo eleitoral. Acabar, aliás, com emenda parlamentar também.

E, por outro lado, exigir, por lei, que os partidos tenham um sistema semelhante ao americano: prévia, debate interno, votação de quem vai ganhar a prévia para ser candidato.

Hoje é um arbítrio total do dono do partido. Ele escolhe quem vai ser candidato, quem não vai, quem tem tempo de televisão, quem recebe fundo eleitoral, quem não recebe.

Ou seja, o dono do partido, no fundo, se você reduzir os partidos, você vai criar cartórios eleitorais e os cinco, seis donos de partido hoje no Brasil vão mandar no país completamente.

 

Deixe uma mensagem para o eleitor do Vale do Paraíba.

Eu queria dizer o seguinte: há 20 anos, eu fundei o movimento Endireita Brasil, baseado em valores liberais na economia e conservadores na conduta.

Quando nós fundamos o Endireita Brasil, em 2006, ele tinha uma missão de combater as ideias da esquerda que, na nossa visão, levam o nosso país cada vez mais ao atraso, mas, por outro lado, também combater a corrupção, que é talvez a chaga mais dolorida da sociedade brasileira.

O que a gente vê hoje no Senado em São Paulo são as ideias da esquerda, ainda por cima representadas por pessoas que não têm nada a ver com o nosso Estado. Marina e Simone estão vindo aqui de maneira oportunista enganar os paulistas e para projetar as suas carreiras pessoais, que nada têm a ver com o nosso Estado.

E, por outro lado, o que nós temos?

O Centrão corrupto, fisiológico, patrimonialista, querendo usar a direita através da candidatura do André do Prado para se perpetuar no poder. Um candidato, como eu já disse, que apoiou Dilma Rousseff, Mercadante, Suplicy, Padilha, Márcio França, se juntou ao João Doria no fecha-tudo e finalmente se juntou ao PT para ser presidente da Assembleia Legislativa.

Então, a minha mensagem: a candidatura Salles é uma candidatura para quem não quer a esquerda, mas também não quer a corrupção do Centrão e quer um paulista de verdade para defender o nosso Estado.