Secas podem se tornar mais longas e intensas no Rio Paraíba do Sul até o fim deste século, com impacto na região dos reservatórios de Paraibuna, Santa Branca e Jaguari, no Vale do Paraíba.
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Um estudo científico publicado em agosto de 2026 projeta que os períodos de seca devem ocorrer com menor frequência, mas terão duração e severidade maiores entre 2021 e 2100, o que amplia os riscos para o armazenamento de água, abastecimento público e operação de um sistema do qual dependem mais de 20 milhões de pessoas no Sudeste.
Intitulado “Secas futuras na Bacia do Rio Paraíba do Sul, Brasil: seleção de modelos climáticos orientada por desempenho e projeções multi-modelos“, o trabalho científico foi publicado na revista RBRH. Os autores são Lucas Pereira de Almeida, Rosa Maria Formiga-Johnsson, Ályson Brayner Sousa Estácio e Alfredo Akira Ohnuma Júnior.
O estudo avaliou dois períodos futuros: 2021 a 2060 e 2061 a 2100. Os pesquisadores compararam cenários de mudanças climáticas, séries históricas de chuva e dezenas de modelos climáticos para estimar como duração, severidade e intervalo entre as secas podem mudar na Bacia do Rio Paraíba do Sul.
A principal conclusão é de que as secas podem ficar menos frequentes, mas cada episódio tende a durar mais e apresentar maior severidade.
Isso significa que períodos secos poderão surgir com intervalos maiores. Mas quando ocorrerem, terão potencial para manter déficits de chuva por mais tempo e impor pressão maior sobre reservatórios e disponibilidade de água.
O resultado aparece em quase todas as sub-bacias avaliadas e nos dois cenários climáticos utilizados pelos pesquisadores.
A tendência ganha força no período entre 2061 e 2100. O alto Paraíba do Sul, onde ficam reservatórios estratégicos para o Vale do Paraíba, aparece entre as regiões que merecem maior atenção.
O Reservatório de Paraibuna possui a maior capacidade de armazenamento do sistema e exerce papel central na regularização das vazões do Rio Paraíba do Sul.
Os dados históricos usados no estudo apontaram duração média das secas de cerca de 0,65 ano na sub-bacia de Paraibuna. Em um dos cenários analisados para 2061 a 2100, a projeção multimodelo alcança 1,82 ano.
Na prática, o valor representa quase três vezes a duração histórica considerada na comparação.
Santa Branca também apresenta aumento importante. No mesmo cenário e período, a duração média projetada chega a 1,68 ano.
Esse resultado interessa diretamente aos moradores do Vale do Paraíba porque a capacidade dos reservatórios de guardar água durante períodos chuvosos ajuda a sustentar vazões nos meses de menor precipitação.
A severidade apresentou uma das mudanças mais expressivas do estudo.
Essa medida não representa apenas quantos dias ou meses dura uma seca. Ela considera o déficit acumulado de precipitação durante todo o episódio.
Santa Cecília, na porção média da bacia e já no estado do Rio de Janeiro, apresentou o maior valor projetado no cenário de emissões mais altas para 2061 a 2100. O índice de severidade alcançou 58,46.
Paraibuna também apresentou aumento importante. No cenário intermediário para o fim do século, o índice chegou a 25,91. Santa Branca alcançou 21,63.
Os números não representam percentual de falta de água nem queda direta no nível dos reservatórios. Eles fazem parte de um índice climático usado para comparar intensidade e persistência das secas.
O estudo projeta intervalos maiores entre os eventos. Nos dados observados, o intervalo médio ficou próximo de 1,53 ano no conjunto das áreas avaliadas. Nas projeções futuras, esse período aumenta.
Para Paraibuna, o intervalo pode alcançar 2,39 anos entre 2061 e 2100 no cenário SSP2-4.5. Em Santa Branca, chega a 2,24 anos. Em Santa Cecília, o cenário SSP5-8.5 aponta período de retorno de 2,60 anos no final do século.
Por isso, “menos frequente” não significa risco menor. O problema está na combinação entre intervalos maiores e eventos mais persistentes e severos.
O estudo utilizou modelos do CMIP6, um dos principais conjuntos internacionais de simulações climáticas.
Os pesquisadores partiram de 36 modelos climáticos globais. Desses, 14 possuíam os dados históricos e futuros necessários para os dois cenários analisados.
Na escala de 12 meses, 12 modelos atenderam aos critérios de desempenho adotados no trabalho e formaram a base do conjunto final.
A equipe utilizou o Índice Padronizado de Precipitação, conhecido pela sigla SPI, nas escalas de seis e 12 meses. O SPI compara a quantidade de chuva de um período com os padrões históricos.
O DRIP, sigla em inglês para Índice de Representação da Seca, avalia se um modelo consegue reproduzir características de secas já observadas.
O método considera três componentes: duração, severidade e período de retorno. Os pesquisadores deram maior peso aos modelos que tiveram melhor desempenho na reprodução do período histórico. Essa escolha reduziu a diferença entre os resultados dos modelos.
Segundo o estudo, a redução média das incertezas chegou a 61% para duração, 70% para severidade e 59% para período de retorno.
O estudo não afirma que um único cenário ocorrerá exatamente como projetado. A comparação entre eles serve para avaliar como diferentes trajetórias climáticas podem alterar o risco de seca.
Também existe variação importante entre sub-bacias. Um cenário com maior emissão não produz necessariamente o maior valor para todas as variáveis e todos os locais.
A Bacia do Rio Paraíba do Sul possui cerca de 62 mil quilômetros quadrados e alcança 184 municípios de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Dentro da própria bacia, aproximadamente 6,8 milhões de pessoas dependem diretamente da água. O sistema também transfere água para a Região Metropolitana do Rio de Janeiro e para o Sistema Cantareira, em São Paulo.
Com essas transferências, mais de 20 milhões de pessoas possuem relação direta ou indireta com a disponibilidade hídrica da bacia.
O sistema inclui os reservatórios de Paraibuna, Santa Branca, Jaguari e Funil, além de usinas, canais e estruturas de controle de vazão.
Essa importância explica por que uma seca longa na cabeceira pode gerar efeitos muito além das cidades próximas aos reservatórios.
A bacia passou por secas importantes entre 2001 e 2003 e durante a década passada.
A crise de 2014 e 2015 ficou entre as mais graves do histórico recente e pressionou reservatórios, abastecimento e a gestão compartilhada da água entre os estados.
O estudo atual usa 1979 a 2018 como período histórico principal para a avaliação dos modelos e inclui esse episódio crítico.
O problema voltou ao debate regional em 2026. O alerta hídrico sobre os reservatórios do Paraíba do Sul mostrou volumes muito abaixo dos registrados um ano antes.