“Fran, essa roupa pode?” - essa é uma das perguntas que mais escuto quando o assunto é imagem. E confesso: às vezes tenho vontade de responder simplesmente: pode.
Pode porque você é adulta, porque seu corpo é seu, porque roupa não deveria ser uma lista de permissões e proibições. Mas existe uma diferença enorme entre poder vestir e ser a melhor escolha para determinada situação. E é aqui que entra uma palavra que, no universo da moda, às vezes parece tão difícil de compreender: adequação.
Você pode vestir o que quiser, mas isso não significa que qualquer roupa funcione em qualquer contexto - e eu nem estou falando de regras engessadas e sim de leitura de cenário e momento.
Imagine que você foi convidada para um jantar em um restaurante super sofisticado. Não existe dress code informado no convite ou no site do restaurante. Tecnicamente, você pode aparecer de tênis, short jeans e camiseta, mas será que essa escolha conversa com o lugar, com a ocasião e com as pessoas que estarão ali?
Agora pense em uma reunião profissional. Você pode ir de camiseta e tênis também, e dependendo do seu trabalho, da cultura da empresa e do contexto, pode funcionar perfeitamente. Mas se aquela for uma reunião com um cliente importante, uma apresentação ou uma situação em que você precisa transmitir autoridade, talvez você queira fazer outras escolhas.
Não porque existe uma “roupa de mulher poderosa”, mas porque imagem é comunicação. Antes de você falar, a sua aparência já está participando daquela conversa, e entender isso não significa abrir mão do seu estilo, da sua essência. Muito pelo contrário, significa aprender a fazer o seu estilo conversar com o ambiente.
Se você tem um estilo mais criativo, não precisa se transformar em uma pessoa clássica para entrar em um escritório. Pode levar sua criatividade para a cor, para um acessório, para uma modelagem, para uma combinação inesperada, para a bolsa ou o sapato.
Se você é minimalista, não precisa colocar um monte de informação no look para ir a um evento. Seu minimalismo pode aparecer justamente na escolha precisa das peças.
Se você é romântica, sensual, esportiva, dramática, contemporânea… o seu estilo continua sendo seu. O que muda é a tradução, mais ou menos como falar outro idioma sem deixar de ter a sua voz.
E essa talvez seja uma das partes mais sofisticadas de entender sobre estilo pessoal: você não precisa usar a mesma roupa em todos os lugares para continuar sendo você. Aliás, uma mulher com repertório de estilo consegue fazer exatamente isso: adaptar sem se apagar.
Pense em uma viagem. Você não leva a mesma composição para caminhar por uma cidade durante o dia, jantar em um restaurante especial e participar de uma reunião de trabalho. Mas pode existir uma coerência entre todas essas versões.
Você continua sendo você, mas se produzindo conforme o contexto.
E aqui existe um contraponto importante ao famoso “vista o que quiser”.
Eu também quero que você vista o que quiser, mas quero que você saiba por que está escolhendo aquilo. Porque existe uma diferença entre liberdade e falta de consciência, de conhecimento.
Liberdade é poder escolher. Consciência é entender o impacto da escolha.
Então, antes de sair de casa, talvez valha trocar a pergunta “essa roupa pode?” por outras três: Onde eu estou indo? Com quem eu vou estar? O que eu quero comunicar?
Depois disso, vem a quarta pergunta, que para mim é indispensável: Como eu consigo responder a tudo isso sem deixar de ser eu?
Pronto. Você acabou de sair do “pode ou não pode” e entrou no território muito mais interessante do estilo com intenção.
A Moda não devia ser um eterno certo e errado, mas também não é um vale-tudo. Existem códigos, contextos, expectativas sociais, ambientes que pedem determinadas leituras - conhecer esses códigos não diminui a sua liberdade, na verdade aumenta o seu repertório. E quanto maior o seu repertório, mais possibilidades você tem de escolher.
Afinal estilo nunca foi sobre seguir regras e sim conhecer os códigos e aprender a conversar com eles sem perder a própria voz.