11 de agosto de 2026
CLIMA

El Niño ganha força e acende alerta no Vale e Litoral Norte

Por Jesse Nascimento | Vale do Paraíba
| Tempo de leitura: 6 min
Reprodução
Imagem ilustrativa

Os alertas do Cemaden para os efeitos do El Niño ganham importância no Vale do Paraíba, Litoral Norte e Serra da Mantiqueira após o fenômeno atingir intensidade forte em agosto e apresentar alta probabilidade de chegar à categoria muito forte entre setembro e outubro de 2026. Segundo o pesquisador Giovanni Dolif, o Sudeste pode alternar períodos de tempo seco e muito quente com episódios de tempestades intensas.

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O cenário exige preparação de prefeituras, Defesas Civis e moradores, principalmente em cidades com áreas sujeitas a alagamentos, enchentes e deslizamentos. Ao mesmo tempo, períodos prolongados de calor e pouca chuva podem aumentar a preocupação com abastecimento de água, agricultura, vegetação e incêndios.

O principal ponto para o morador entender é que o El Niño não representa uma previsão de desastre para uma determinada cidade. O fenômeno altera probabilidades de chuva, seca e calor em diferentes regiões do país. Por isso, a prevenção depende do acompanhamento das condições meteorológicas e das vulnerabilidades de cada município.

El Niño já é considerado forte

Giovanni Dolif afirma que o fenômeno já alcançou intensidade forte em agosto e pode subir de categoria durante a primavera. O período entre setembro e outubro aparece como uma janela importante nas projeções atuais.

“O El Niño já está com intensidade forte a partir deste mês de agosto e as previsões indicam alta probabilidade de ele chegar a uma categoria muito forte, possivelmente entre setembro e outubro”, afirmou o pesquisador do Cemaden.

Segundo Dolif, a intensidade elevada pode permanecer durante o último trimestre do ano. Isso, porém, não significa que todos os municípios terão os mesmos impactos ou que um evento extremo ocorrerá em uma data determinada.

Como o El Niño pode afetar o Sudeste

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, fenômeno que interfere na circulação atmosférica em escala global.

No Brasil, os efeitos variam conforme a região e dependem também da atuação de frentes frias, corredores de umidade, sistemas de baixa pressão e outras condições atmosféricas.

No Sudeste, não existe uma resposta única ao fenômeno. A região pode registrar períodos mais secos e quentes e, posteriormente, episódios de chuva intensa. “Em algumas regiões, como Sudeste e Centro-Oeste, pode ter uma alternância entre períodos secos e muito quentes e períodos com tempestades”, explicou Dolif.

Esse comportamento merece atenção no Vale do Paraíba, onde municípios possuem áreas urbanas próximas a rios e córregos e pontos sujeitos a alagamentos.

Na Serra da Mantiqueira, o relevo aumenta a preocupação com áreas de encosta durante episódios de chuva intensa. No Litoral Norte, a combinação entre relevo acidentado e chuvas fortes também pode elevar o risco de movimentos de massa.

Um município pode, portanto, atravessar semanas de calor e pouca chuva e depois enfrentar episódios concentrados de precipitação.

Chuva forte e seca exigem monitoramento

A alternância entre extremos também muda a forma de acompanhamento.

Eventos como enxurradas, inundações e deslizamentos exigem monitoramento meteorológico e hidrológico contínuo. Já a seca apresenta evolução mais lenta e precisa ser analisada em períodos mais longos.

O Cemaden mantém monitoramento permanente de eventos associados a extremos de chuva capazes de provocar inundações, enxurradas e movimentos de massa. O trabalho reúne informações meteorológicas, hidrológicas e dados sobre áreas vulneráveis.

“O Cemaden faz esse monitoramento 24 horas, já há 15 anos e vai seguir com esse monitoramento”, afirmou Dolif.

Os alertas são encaminhados à estrutura de Defesa Civil e chegam às esferas estadual e municipal. A partir das informações técnicas e da avaliação das condições locais, cada órgão pode colocar em prática seu plano de contingência.

Na prática, o Cemaden fornece informações técnicas sobre o risco, enquanto a resposta depende das estruturas locais de proteção e defesa civil, que conhecem áreas vulneráveis, rotas de fuga, abrigos e equipes disponíveis.

Prevenção começa antes da tempestade

Segundo Dolif, um sistema eficiente de redução de riscos não depende apenas da emissão de um alerta. A prevenção envolve quatro eixos principais: conhecimento; monitoramento e alerta; capacitação e educação; e resposta com medidas estruturais.

O primeiro é o conhecimento. Pesquisas ajudam a identificar vulnerabilidades e aprimorar a compreensão sobre chuvas intensas, secas, ondas de calor e outros fenômenos.

O segundo é o monitoramento. Dados sobre chuva, rios, solo e atmosfera ajudam os técnicos a avaliar a possibilidade de eventos que possam atingir a população.

O terceiro envolve capacitação e educação. Equipes municipais precisam conhecer os protocolos de emergência, enquanto moradores de áreas vulneráveis devem saber como agir diante de um alerta.

O quarto eixo é a resposta, incluindo obras de drenagem, intervenções em áreas de risco e outras medidas estruturais.

A prevenção, portanto, começa muito antes da tempestade. Um alerta perde eficiência quando o município não possui um plano de contingência atualizado ou quando o morador não sabe como agir.

Entre as medidas preventivas estão a limpeza de córregos, cursos d'água, bocas de lobo e redes de drenagem. A retirada de resíduos ajuda a evitar obstruções que podem agravar alagamentos.

Prefeituras também podem revisar mapas de risco, rotas de saída, pontos de apoio e planos de contingência. Treinamentos com servidores, agentes de Defesa Civil e comunidades vulneráveis ajudam a diminuir o tempo de resposta.

Obras de drenagem e intervenções em locais com histórico de enchentes ou deslizamentos também são importantes para reduzir riscos no médio e longo prazo.

Períodos de seca e calor também preocupam

A preparação não deve considerar apenas o excesso de chuva.

Períodos prolongados de tempo seco podem afetar a disponibilidade de água, a agricultura e a vegetação, além de aumentar o risco de incêndios.

Os municípios podem acompanhar a situação de mananciais e reservatórios, planejar estratégias para abastecimento emergencial, reforçar campanhas contra queimadas e orientar a população sobre o consumo racional de água.

No Vale do Paraíba, o comportamento dos reservatórios também merece atenção. A bacia do Rio Paraíba do Sul atende cidades, atividades industriais, agricultura e outros setores econômicos.

O El Niño, entretanto, não determina sozinho se haverá seca ou cheia. Outros fatores meteorológicos e hidrológicos precisam ser considerados nas análises.

O que o morador deve fazer

A informação é uma das principais ferramentas de proteção. Para Dolif, cada pessoa precisa conhecer as condições da área onde vive.

“A população tem que se informar sobre áreas de risco na cidade, se mora ou não numa área de risco”, afirmou.

Moradores próximos a encostas, rios, córregos ou locais com histórico de alagamentos devem saber como receber avisos oficiais e conhecer as rotas seguras para deixar a área em caso de emergência.

Também é importante identificar os pontos de apoio definidos pelo município e não esperar que uma situação de risco se torne crítica para deixar um imóvel.

A população também contribui para a prevenção ao evitar o descarte de lixo em ruas, córregos e bocas de lobo. Resíduos podem bloquear sistemas de drenagem e agravar alagamentos durante tempestades.

El Niño não significa que haverá um desastre

A previsão climática trabalha com probabilidades e tendências, e não consegue determinar com meses de antecedência qual rua será inundada ou qual encosta sofrerá um deslizamento.

O El Niño modifica padrões atmosféricos e pode aumentar a probabilidade de determinados extremos. A transformação desse risco climático em desastre depende de fatores locais, como ocupação de áreas vulneráveis, condições da drenagem, situação das encostas, intensidade da chuva e capacidade de resposta.

É justamente por isso que o alerta antecipado precisa estar associado a políticas públicas de prevenção. Quanto maior a preparação, menor tende a ser a exposição da população e das estruturas aos impactos.

Vale do Paraíba, Litoral Norte e Serra da Mantiqueira possuem características geográficas diferentes. Assim, um mesmo sistema meteorológico pode provocar consequências distintas em municípios próximos.

O acompanhamento das previsões e dos alertas oficiais, portanto, será fundamental nos próximos meses, especialmente diante da possibilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte entre setembro e outubro.