10 de agosto de 2026
OPINIÃO

O Vale precisa voltar a pensar grande

Por José Dirceu |
| Tempo de leitura: 3 min
Ex-ministro-chefe da Casa Civil e ex-presidente nacional do PT; Candidato a deputado federal por São Paulo

O Vale do Paraíba ocupa posição singular no desenvolvimento brasileiro. Sua base industrial diversificada, seus centros de pesquisa de excelência e seu patrimônio ambiental e cultural de enorme valor são ativos indispensáveis a qualquer projeto de desenvolvimento. Entretanto, a mesma região que reúne algumas das maiores capacidades industriais, científicas e tecnológicas do país é aquela que convive com a ausência de um projeto político capaz de transformar essa força em desenvolvimento equilibrado. 

Enquanto São José dos Campos e Jacareí concentram empresas estratégicas, centros de pesquisa, infraestrutura logística e trabalhadores altamente qualificados, outros municípios enfrentam perda de dinamismo econômico, falta de empregos de qualidade, serviços públicos insuficientes e crescente dependência de atividades sazonais e de baixa produtividade.

Essa contradição decorre da falta de planejamento e coordenação. O Vale possui as condições necessárias para liderar uma nova etapa de industrialização brasileira, articulando o complexo aeroespacial e de defesa, as cadeias automotiva, metalmecânica, química e energética, as universidades públicas, o ITA, o INPE, o DCTA e os institutos federais. O que falta é uma política estadual que una essa capacidade, fortaleça os fornecedores locais, leve investimentos para além dos grandes polos e converta ciência, inovação e produção em emprego, renda e oportunidades para os seus 39 municípios.

Ao lado das ilhas de excelência, persistem desigualdades profundas. O Vale Histórico perdeu dinamismo e população jovem; o Litoral Norte depende do turismo sazonal e convive com infraestrutura insuficiente; municípios da Mantiqueira enfrentam limitações fiscais; e as periferias dos grandes centros sofrem com moradia cara, mobilidade precária e pressão sobre a saúde pública. Uma região metropolitana não pode funcionar como mera soma de cidades submetidas a convênios ocasionais e emendas dispersas. Exige planejamento, orçamento regional, participação social e coordenação entre Estado, União e municípios.

O governo de Tarcísio de Freitas mantém, no entanto, uma relação distante e centralizadora com o Vale. A privatização da Sabesp já produz reclamações sobre tarifas, interrupções no abastecimento e deterioração dos serviços, enquanto a saúde regional continua marcada por filas, falta de leitos e vazios de atendimento especializado. Na segurança, a retórica do confronto não impediu a escalada dos homicídios em diversos municípios. Na educação, faltam investimentos em infraestrutura, ensino integral, formação técnica e valorização dos professores. É significativo que prefeitos e lideranças reconheçam hoje uma presença mais concreta do governo federal do que do estadual, seja nas obras da Via Dutra, nos investimentos do Novo PAC, na saúde, na habitação ou no apoio às cidades atingidas por eventos climáticos extremos.

O Vale precisa de um novo projeto regional de desenvolvimento. Isso significa integrar suas cadeias industriais e tecnológicas, fortalecer o complexo aeroespacial e de defesa, apoiar a economia do mar e o turismo sustentável, ampliar Etecs, Fatecs e Institutos Federais, criar uma rede metropolitana de saúde, garantir transporte público integrado, acelerar a construção de moradias e proteger a bacia do Rio Paraíba do Sul, a Mata Atlântica e os mananciais.

O Vale avançou quando o país teve projeto nacional, investimento público, política industrial e confiança na ciência. Voltará a avançar quando suas lideranças políticas, sociais, empresariais e acadêmicas se unirem em torno de uma estratégia comum. O futuro da região não pode ser apenas administrar urgências. Antes disso, precisa novamente pensar grande, produzir conhecimento, gerar riqueza e distribuir oportunidades.