Em entrevista ao OVALE, o juiz Thiago Elias Massad, presidente da Apamagis (Associação Paulista de Magistrados) falou sobre os desafios da magistratura em tempos de inteligência artificial, críticas ao Judiciário e ataques à democracia.
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Para ele, ao lado da imprensa livre e do voto seguro, a magistratura é um dos pilares da democracia. “Tanto o Poder Judiciário quanto a imprensa livre são fundamentais para a manutenção do Estado Democrático de Direito”, afirmou.
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Massad também falou sobre a nova parceria institucional firmada entre OVALE e a Apamagis, que aproxima a sociedade do Poder Judiciário e reafirma valores considerados essenciais para a democracia brasileira: a liberdade de imprensa, a independência da magistratura e o fortalecimento do Estado Democrático de Direito.
Por meio da parceria, a Apamagis terá uma coluna especial em OVALE, com conteúdos do universo jurídico sendo compartilhados no site e nas demais plataformas do jornal. A primeira publicação está prevista para a segunda quinzena de agosto.
A iniciativa marca um avanço, com uma nova etapa da colaboração iniciada em outubro de 2022, quando a Apamagis passou a publicar uma coluna em OVALE com o objetivo de ampliar o diálogo com a população sobre temas relacionados à Justiça, aos direitos dos cidadãos e ao funcionamento do Judiciário.
Leia na íntegra a entrevista com Thiago Elias Massad, presidente da Apamagis.
A Apamagis e OVALE estão retomando a parceria institucional. Qual é a importância dessa aproximação entre a magistratura e imprensa e como é que ela contribui para fortalecer o diálogo com a sociedade?
Não está sendo retomada, está sendo aprofundada, aproximada um pouco mais, mas essa parceria sempre existiu com OVALE, porque OVALE sempre foi um veículo que olhou para a magistratura, olhou para a Apamagis e sempre reconheceu o trabalho feito pela magistratura.
Também apontou eventuais equívocos que aconteceram no exercício da prestação jurisdicional, mas sempre procurou ouvir e levar para o cidadão aquilo que é feito de bom pela magistratura, o cuidado que se tem com o cidadão. Então, essa parceria é fundamental. Uma imprensa séria, olhando para o Judiciário, é muito importante nos dias atuais.
Há quem diga que o juiz fala apenas nos autos. Em um cenário de intensa circulação de informações e desinformação, como é que o Judiciário deve se comunicar com a sociedade sem comprometer sua imparcialidade?
As boas práticas da magistratura têm que ser divulgadas para a sociedade. No panorama atual, com uma sociedade polarizada, que é um terreno fértil para a desinformação e para discursos vazios e, até certo ponto, demagógicos, é muito importante que a magistratura saiba mostrar para o cidadão a importância que ela desempenha no dia a dia dele. Então, por isso a nossa parceria é fundamental.
Para mostrar para o cidadão que a magistratura existe em cada momento da existência dele. Quer na área de família, quer na área do consumidor, quer na área de trânsito, no contrato bancário, a magistratura está lá. Está presente em relação aos seus filhos, aos atos criminosos, à violência doméstica. Então, a magistratura faz parte do dia a dia do cidadão. E demonstrar essas boas práticas é fundamental.
O juiz tem que continuar falando nos autos. Uma coisa é falar nos autos, outra coisa é não dar opinião sobre processos dos outros, porque a gente não pode fazer isso. Outra é mostrar a importância da magistratura. E, por isso, OVALE do nosso lado é fundamental nesse sentido.
Aquela imagem do juiz encastelado, que não fala com ninguém, não atende ninguém, não é só parcialmente falsa como é prejudicial para a magistratura e para a sociedade?
São dois pontos distintos. Eu, Thiago, juiz, não posso dar opinião sobre um processo que a Laura [de Mattos Almeida, segunda vice-presidente da Apamagis] está julgando ou que o Paulo [Rogério Bonini, diretor de Comunicação da Apamagis] está julgando. A gente não pode fazer isso. A nossa Lei Orgânica não permite.
Outra coisa é a magistratura dialogar com a sociedade, mostrar a importância tanto dos direitos do cidadão quanto da magistratura como instituição. O árbitro é fundamental para evitar abusos em qualquer área da nossa vida.
Se não houver essa consciência da importância da magistratura enquanto instituição democrática fundamental, cuja função é julgar de forma independente, corremos sério risco de ter uma deterioração das nossas instituições e da nossa democracia. Então, esse diálogo com o cidadão é fundamental.
O senhor foi reeleito presidente da Apamagis com a maior votação da história da entidade. Quais considera serem as principais conquistas do primeiro mandato e quais serão as prioridades dessa nova gestão?
A nossa chapa, desde a primeira eleição, se chama Nossa Associação. Porque não é minha, não é da Laura, não é do Paulo. É de todos nós. Então, todo o trabalho que foi feito desde o primeiro dia em que assumimos foi um trabalho coletivo. Uma das primeiras visitas que recebemos foi justamente de OVALE.
A gente acredita que não existe sucesso associativo se você faz uma carreira solo, uma carreira individual. É assim que pensamos. Então, todas as metas que atingimos desde o primeiro dia de gestão até hoje são fruto dessa divisão de trabalho, dessa tomada de decisão coletiva, da busca dos objetivos da magistratura de forma conjunta, dialogando.
Essa é a nossa visão em relação ao associativismo.
O que fizemos de fundamental foi um modelo de gestão interna, com uma reanálise e uma readequação de toda a nossa estrutura: contratos, forma de trabalho, atuação legislativa em São Paulo, atuação legislativa em Brasília.
Administrativamente, procuramos padronizar tanto a comunicação quanto a parte tributária, dando uma uniformidade para toda a associação.
E, mais importante, como eu falei, numa época em que a desinformação, em uma sociedade polarizada, é uma realidade, procuramos defender a magistratura, defendendo sempre que ela tem que ser independente, imparcial e capaz de coibir abusos. Mas isso só se faz com uma magistratura forte e com a defesa das suas prerrogativas.
Essas foram as nossas principais linhas de atuação: a parte administrativa, a defesa institucional e a defesa das prerrogativas da magistratura, para valorizar a independência e a força do nosso Poder Judiciário.
Quais são hoje as principais demandas e preocupações da magistratura paulista?
Quem está acompanhando as manchetes está vendo que vivemos um momento em que os ventos estão de difícil leitura em relação à forma como a sociedade enxerga a magistratura e como a magistratura está sendo posicionada e se posicionando enquanto instituição. Nesses momentos, a força associativa tem que estar presente.
Atualmente, vivemos uma crise de reacomodação de vários assuntos inerentes à magistratura. São ataques que vêm de várias frentes, muitas vezes por pouca compreensão da nossa função.
Repito: sabemos que temos defeitos, erramos, mas os ataques têm que ser direcionados àquilo que realmente merece ser criticado, e não baseados em desinformação.
Hoje, o mais importante para nós é essa nova definição do que está sendo feito pelo Supremo Tribunal Federal e pelo CNJ [Conselho Nacional de Justiça] sobre os nossos padrões remuneratórios. O teto constitucional existe e tem que ser cumprido.
Mas existem direitos que, como todo trabalhador, o juiz também tem. Esses direitos têm que ser assegurados. E a associação não abre mão disso. Mostrar para a sociedade que, assim como um trabalhador celetista tem direito a horas extras, por exemplo, previstas no artigo 7º da Constituição, o juiz também possui direitos constitucionais.
Esse é um trabalho de convencimento da sociedade, dentro de uma reestruturação interna que está sendo feita pelo próprio STF, levando em consideração o teto constitucional, que, no Estado de São Paulo, sempre foi cumprido.
Mas, repito, tivemos direitos que não foram oportunamente reconhecidos e que hoje geram reflexos. E esses reflexos, de forma alguma, significam furar o teto. Pelo contrário, representam direitos que não foram reconhecidos no momento oportuno, assim como acontece com trabalhadores celetistas e com outros servidores públicos.
Esse é o principal panorama atualmente, além dos projetos de lei que esbarram em questões jurisdicionais importantes ou que procuram violar a independência da magistratura, que, repito, é fundamental para a democracia.
Esse é o nosso panorama. E eu costumo brincar, conversando com os dois, que a vida do associativismo nunca é monótona. Todo dia a gente acorda com uma luta nova. Sempre existe a agonia do dia.
O Brasil vive um cenário de crescimento da judicialização das relações sociais, econômicas e políticas. Quais fatores explicam esse movimento e quais desafios ele impõe ao Poder Judiciário?
Muito se discute o custo do Poder Judiciário e são feitas comparações com outros países que não usam a mesma régua, não usam a mesma medida. E por que eu estou falando isso? Porque litigar no Brasil é barato. Outra coisa: nós temos uma cultura de acesso ao Poder Judiciário que está na nossa Constituição e tem que ser preservada. Toda violação de direito tem que ser levada ao Judiciário.
Só que, por ser facilitado o acesso ao litígio, muitas demandas que têm a gratuidade reconhecida chegam ao Poder Judiciário. Isso leva a uma sobrecarga. Então, esse acesso facilitado à Justiça resulta em um número elevado de demandas.
Também estamos enfrentando atualmente um processo de litigiosidade, até certo ponto, abusivo. Como o acesso é facilitado, algumas demandas acabam sendo, vou usar uma expressão para ser claro, "forçadas" para chegar ao Judiciário. Às vezes, nem se sabe direito quem é o autor daquela demanda, mas ela é ajuizada.
Isso também estamos vendo com a chegada das novas ferramentas de inteligência artificial, que facilitam ainda mais esse acesso já facilitado à Justiça.
Então, está havendo, de fato, uma sobrecarga no Poder Judiciário. E o Judiciário está respondendo. Como? O nosso Judiciário é praticamente 100% digital e está se adaptando às novas ferramentas de tecnologia.
Recentemente, o nosso Poder Judiciário mudou o sistema de processamento digital para um modelo compartilhado entre vários tribunais. Cada tribunal desenvolve uma nova ferramenta para melhorar o processamento dos feitos e compartilha com os demais. Isso facilita para que o processo ande mais rápido.
Ao mesmo tempo em que aumentou o número de processos, o Tribunal respondeu com o novo programa chamado EPROC, e os juízes estão se adaptando às novas ferramentas de inteligência artificial.
A demanda aumentou? Aumentou. Mas o Tribunal está respondendo à altura.
O senhor reconheceu esse cenário crescente de polarização política no Brasil e também institucional. Qual é o papel da magistratura na defesa do Estado Democrático de Direito e na segurança jurídica principalmente?
O Poder Judiciário é o que a gente chama de um poder contramajoritário. A nossa legitimidade não vem do voto.
Nossa legitimidade vem da nossa independência e da nossa função constitucional de evitar abusos e preservar as instituições. Então, um Poder Judiciário independente, numa conversa rápida, sem aprofundar muito, é fundamental para a existência da democracia.
Porque a democracia pode ser subvertida de várias formas, mas a mais perigosa é quando as instituições democráticas são utilizadas para corromper a própria democracia. Então, o que é atacado? O Poder Judiciário, a imprensa livre e o voto.
A partir do momento em que temos um Poder Judiciário enfraquecido, ele não terá força para combater abusos de vários segmentos. Não estou falando apenas de política, mas também de interesses econômicos, da própria sociedade ou de discursos vazios, quase demagógicos, destinados ao convencimento por meio da desinformação.
Se não houver um Poder Judiciário forte, um árbitro livre e independente, não há como coibir esses abusos.
Então, tanto o Poder Judiciário quanto a imprensa livre são fundamentais para a manutenção do Estado Democrático de Direito.
Pesquisas mostram que parte da população ainda vê o Judiciário como distante, lento e pouco transparente. O que precisa mudar para fortalecer a confiança da sociedade na Justiça?
Essa questão é interessante, porque existem pesquisas que mostram que uma coisa é a percepção que você tem do Poder Judiciário e outra é a percepção depois que você utilizou o Poder Judiciário. Então, essa resposta muda bastante conforme o ângulo de quem está respondendo, de quem apenas observa ou de quem efetivamente já utilizou a Justiça.
A gente vê muitos casos, por exemplo, na Justiça Eleitoral, no Juizado Especial Cível ou em ações de violência doméstica, em que a percepção muda.
Existe a percepção de demora do Poder Judiciário, e ela existe, sim. Há processos que demoram, há muitos recursos, às vezes um colega está sobrecarregado e demora para conceder uma liminar, que hoje é algo muito sensível.
Mas, atualmente, com o EPROC, o processo praticamente volta para você imediatamente. Você dá uma decisão, todo o processamento é automático e, se houver necessidade, no dia seguinte o processo já está novamente com você.
Então, essa percepção também decorre de a pessoa conhecer ou não o funcionamento do Judiciário.
Vou repetir: nós sabemos quando erramos e temos que corrigir os nossos erros. Mas emitir uma opinião sem conhecer a realidade do funcionamento do Judiciário — e não estou falando especificamente dessa pesquisa — pode transmitir uma impressão equivocada de como ele realmente funciona.
Eu acho que, atualmente, falando por São Paulo, a resposta do nosso Judiciário tem sido razoavelmente rápida e adequada, o que é muito positivo.
O senhor acha que o Judiciário brasileiro precisa passar por uma reforma? Quais mudanças estruturais o senhor acha que seriam mais fundamentais?
Essa pergunta daria umas dez entrevistas.
O que eu posso dizer é que a magistratura está aberta à ideia de que precisa melhorar, como toda instituição deve estar sempre se atualizando.
Acho que um dos pontos fundamentais é que o Poder Judiciário está se voltando para as novas ferramentas de tecnologia e inteligência artificial.
O próprio sistema de Justiça também precisa fazer uma reflexão sobre a forma como ele é acessado. Eu acho que quem necessita da Justiça deve continuar tendo acesso, mas nós precisamos limitar os abusos e a litigiosidade excessiva.
Então, há vários pontos que envolvem um estudo e um debate bastante aprofundados, mas que tem que ser feito.
O senhor citou a inteligência artificial. A Justiça já vem usando essa tecnologia e, na avaliação do senhor, quais são os principais benefícios da inteligência artificial para o Judiciário e quais os limites éticos e jurídicos que devem ser observados?
Não existe mais o nosso mundo sem inteligência artificial.
Eu estava vindo para cá hoje e vi uma matéria sobre um teste de segurança com dois modelos de IA, em um ambiente seguro, sem acesso à internet.
Os dois modelos perceberam que não eram capazes de resolver a questão sozinhos, se aliaram, conseguiram romper a barreira que impedia o acesso à internet, hackearam outra empresa de segurança e encontraram o modelo necessário para resolver o problema que lhes havia sido apresentado pelos próprios criadores.
Pensando no Poder Judiciário, não adianta fechar as portas para a inteligência artificial. O que importa é que o CNJ regulamentou o tema, o nosso Tribunal também regulamentou.
A Apamagis disponibiliza mais de uma opção de inteligência artificial para os associados, como o MinutaIA, entre outras ferramentas.
O mais importante é capacitar. O juiz que fez capacitação e o juiz que não fez, basta olhar para perceber que um terá facilidade e o outro terá dificuldade.
Isso já aconteceu em vários momentos da nossa carreira. Tivemos a máquina de escrever, depois a máquina elétrica, depois o computador e agora chegou a inteligência artificial.
Se o Judiciário não se adaptar, não conseguirá prestar a jurisdição.
Um especialista em tecnologia chegou a dizer tempos atrás que várias profissões seriam extintas por causa da IA, incluindo na Justiça. Ele disse que a máquina seria muito mais rápida para dar uma decisão. O senhor acredita num mundo sem humanos no Judiciário?
Na minha opinião, é totalmente inconcebível, porque, a partir do momento em que você desconsidera o aspecto da humanidade, você não entrega Justiça.
O ministro [Luís Roberto] Barroso [ex-presidente do STF] sempre conta uma história. No casamento da filha dele, a ministra Rosa Weber e o marido iriam embora mais cedo, mas os doces só poderiam ser servidos a partir das 22h.
Ela foi pegar um doce e a moça respondeu: "Não, só a partir das 22h". Depois, ela foi se despedir do ministro Barroso. Essa é uma história que ele conta em palestras, então não estou quebrando nenhum protocolo ao mencioná-la.
Ela comentou: "Barroso, estou indo embora, mas só faltou um docinho". Ele respondeu: "Vou lá resolver". Ela disse: "A moça falou que não pode, só depois das 22h".
Então ele foi até a funcionária e disse: "Você sabe quem é essa senhora? É a ministra Rosa Weber, presidente do STF. Será que você não pode abrir uma exceção?". E a funcionária respondeu: "Não, senhor. As regras são regras. Só vai servir a partir das 22h".
Essa inflexibilidade, esse olhar não humano diante da regra, é inaceitável. No dia em que perdermos isso, perderemos a noção de Justiça.
E mais: no dia em que acreditarmos que o legislativo ou normativo é suficiente para abranger todas as situações da vida em sociedade, estaremos errando. A legislação não consegue acompanhar, na mesma velocidade, as mudanças sociais.
Se não tivermos o olhar humano para compreender, adaptar e interpretar a legislação, não faremos Justiça. Então, esse é o meu modo de pensar. Eu não vejo Justiça sem humanidade.
O crescimento dos crimes cibernéticos, das fraudes digitais, dos ataques virtuais e da desinformação tem exigido respostas mais rápidas da Justiça. O Judiciário está preparado para enfrentar essa nova realidade?
Como eu disse, a velocidade das mudanças sociais é maior do que a velocidade das respostas institucionais. E isso não acontece apenas no Judiciário. Acontece também nas agências reguladoras, na polícia, no Executivo, no Legislativo, em todos os poderes.
Se a gente não estiver atento às mudanças sociais e à necessidade de atuação institucional, vai sucumbir.
Recentemente, por exemplo, o Tribunal de Justiça criou três varas especializadas no combate ao crime organizado e à lavagem de dinheiro, com competência estadual. Isso é uma mudança institucional para tentar acompanhar a velocidade com que essas práticas criminosas evoluem.
Não se trata apenas das práticas delitivas, mas também da necessidade de regulamentação de diversas áreas.
Também não podemos dizer que toda regulamentação da atividade social representa perda de liberdade. Basta observar que até as relações mais íntimas são reguladas pelo Estado. Você casa ou não casa, convive ou não convive com uma pessoa, adota ou não adota uma criança. Tudo isso possui regras estabelecidas pelo Estado. Esse tipo de regulamentação sempre vai existir. O importante é atualizá-la.
São Paulo tem feito isso. Não apenas nessa área. Também tivemos a especialização de varas empresariais, de falências e de outras matérias.
Se não estivermos atentos e não adaptarmos as instituições às novas necessidades, especialmente às tecnológicas e às de regulamentação, inclusive entre países e diferentes comunidades, não conseguiremos acompanhar a velocidade das mudanças sociais.
Por isso, é fundamental estarmos sempre atentos para atualizar as instituições para tentar prestar uma jurisdição cada vez melhor.
O debate da remuneração da magistratura voltou ao centro das discussões públicas, especialmente em relação às verbas indenizatórias e ao teto constitucional. Qual é o posicionamento da Apamagis sobre esse tema? Existe desinformação no debate?
Repito que o teto existe e deve ser cumprido. Mas não se confunde teto constitucional com os outros direitos que todo trabalhador possui. O juiz também tem direitos sociais. Não é uma categoria sem direitos.
O que não pode é toda essa gama de direitos que qualquer trabalhador possui ser qualificada de forma pejorativa por meio de um apelido que nem quero repetir.
Aqui em São Paulo, sempre se pagou dentro do teto. Eventualmente, quando um direito que existia não foi reconhecido no momento oportuno, ele gera uma verba posterior. Isso não significa furar o teto. Significa apenas o reconhecimento de um direito que não foi assegurado quando deveria, exatamente como acontece com trabalhadores celetistas e outros servidores públicos.
Se houver algum equívoco em pagamentos da magistratura, temos que apontá-lo e corrigi-lo. Mas é preciso separar o joio do trigo, entender o que está acontecendo e não colocar tudo na mesma vala comum, dizendo que está tudo errado. Esse tipo de desinformação não acrescenta.
Sem um Judiciário independente e sem uma imprensa livre, não há uma sociedade justa, democrática e livre. Essas são duas pilastras fundamentais.
Precisamos preservar essas instituições, combater aquilo que estiver errado, mas não aceitar generalizações nem desinformação, que muitas vezes acabam sendo um discurso fácil de vender. Isso é muito complicado e precisa ser combatido.
Também há críticas sobre o chamado ativismo judicial, especialmente em relação às decisões do Supremo Tribunal Federal. Como é que o senhor analisa esse debate e quais são os limites da atuação do Poder Judiciário?
Só relembrando que eu não posso comentar processos concretos. Mas gostaria de deixar claro que uma coisa é ativismo e outra coisa é protagonismo.
Salvo engano, a minoria política na Câmara é quem mais aciona o STF quando entende que determinada decisão do Parlamento não foi a que ele queria ou a mais adequada. Então, isso tem relação com outra resposta que demos anteriormente.
No Brasil, e eu concordo com isso, o acesso à Justiça deve ser sempre garantido. Mas esse acesso leva a quem? Ao Poder Judiciário, que é quem vai decidir. Isso não é, necessariamente, ativismo. É protagonismo.
E esse protagonismo, como acontece em qualquer Poder ou instituição — na imprensa, no Executivo, no Legislativo —, pode gerar decisões com as quais não concordamos, decisões que não agradam ou que eventualmente extrapolem um pouco. Mas isso acontece em qualquer área. Essas decisões podem até ser adjetivada como ativismo.
Mas esse fenômeno decorre, antes de tudo, do protagonismo judicial, do amplo acesso à Justiça e da necessidade de um Judiciário forte para coibir abusos e impedir que as nossas instituições sejam corroídas, subvertidas ou enfraquecidas.
Então, eu vejo muito mais esse cenário como resultado do protagonismo judicial. E, se houver algum caso pontual de ativismo, ele também deve ser coibido. Eu encaro mais como consequência desse fenômeno do protagonismo judicial.
Recentemente, ao lado do Tribunal Superior Eleitoral e da Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro, a Apamagis celebrou acordos de cooperação técnica para ações conjuntas em prol do fortalecimento da Justiça Eleitoral, especialmente durante esse período de eleições. Como é que o senhor avalia críticas feitas à lisura do sistema eleitoral e das urnas eletrônicas?
Essa nossa parceria, que o ministro Kassio [Nunes Marques, presidente do TSE] gentilmente nos viabilizou, tem por objetivo inicial fazer da Apamagis uma porta de entrada para os observadores internacionais, cuja função o Bonini já exerceu no Brasil e fora, inclusive no Timor-Leste.
A gente sempre acaba voltando ao mesmo assunto, mas é porque ele é fundamental. A eleição segura é essencial para a democracia, e a primeira coisa que costuma ser atacada por discursos vazios e fáceis é justamente a ideia de que a eleição será fraudada.
Então, a Apamagis podendo participar dessa ação institucional do TSE, recebendo observadores e mostrando que o nosso processo eleitoral é limpo, seguro e sério, foi mais do que uma honra ou o cumprimento de uma missão institucional, foi um prazer.
O nosso sistema eleitoral é seguro, precisa ser valorizado e mostrado ao mundo inteiro.
Além de ser uma missão institucional para a associação, pessoalmente, para mim, foi muito prazeroso ter essa oportunidade de colaborar para que outros países conheçam e vejam como é seguro o nosso sistema eleitoral.
Como é que o senhor imagina o Judiciário brasileiro daqui a 10 anos? Que perfil deverá ter o magistrado do futuro, diante das transformações tecnológicas e das novas demandas da sociedade?
Eu tenho duas facetas que gostaria de comentar sobre isso. A primeira é uma preocupação.
Qual é o Poder Judiciário que a sociedade quer daqui a 10 anos? Que tipo de juiz nós colocaremos no Tribunal daqui a 10, 15 ou 20 anos? Essa é uma pergunta que ninguém faz. A gente lê editoriais, acompanha debates, mas ninguém discute isso.
Que tipo de profissional nós queremos? Que tipo de segurança queremos ter? Quem vai julgar? A OAB também precisa discutir isso. Que tipo de segurança eu vou ter no Tribunal? Porque a gente sabe o que existe atualmente. A gente sabe que há seriedade no Tribunal de Justiça de São Paulo, e isso precisa ser mantido.
Aí a conversa volta para as prerrogativas, volta para a remuneração, porque a responsabilidade é diretamente proporcional. Essa é a primeira ideia para pensarmos o futuro.
A segunda é que eu vejo o nosso Tribunal caminhando a passos largos, na medida em que a sociedade exige de atualização. Isso já está acontecendo.
Eu não vejo o nosso Tribunal, daqui a 10 anos, com dificuldade para lidar com o volume crescente de demandas. Quem vai ter problema somos nós, porque quanto mais ferramentas tecnológicas houver, mais processos teremos para julgar. Quanto mais acesso à Justiça existir, mais processos teremos para julgar. Mas isso a gente resolve com o tempo.
O que eu vejo é um Tribunal de Justiça muito forte, cumprindo o seu papel, honrando a sua história e honrando a magistratura nacional.