Dono de duas medalhas olímpicas de bronze, campeão mundial e um dos maiores nomes da história da vela brasileira, Lars Grael, de 64 anos, participou da 53ª Semana Internacional de Vela de Ilhabela. Durante o evento, considerado o maior da modalidade na América Latina, o velejador destacou a importância da competição para o esporte nacional, analisou o momento da vela olímpica e defendeu iniciativas para ampliar o acesso da população às atividades náuticas.
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Ao longo da carreira, Lars conquistou medalhas de bronze nos Jogos Olímpicos de Seul-1988 e Atlanta-1996, foi campeão mundial das classes Snipe e Star, além de acumular mais de 30 títulos brasileiros e diversas conquistas sul-americanas.
Em conversa exclusiva com OVALE no Yacht Club de Ilhabela, a Semana Internacional de Vela consolida Ilhabela como a principal referência da modalidade no país. "É um momento em que Ilhabela, considerada a capital da vela, recebe velejadores de todo o Brasil e também de países como Uruguai e Argentina. Já são 53 edições da Semana Internacional de Vela, reunindo atletas de várias gerações, consagrados na vela oceânica, olímpica e pan-americana. É muito bom vivenciar esse ambiente. A regata longa, por exemplo, permite que a população acompanhe os barcos desfilando em frente à Vila. Sem dúvida, é o evento mais importante da vela nacional."
Lars também avaliou o cenário da vela brasileira e lembrou dos 30 anos dos Jogos Olímpicos de Atlanta, quando o Brasil liderou o quadro de medalhas da modalidade. Para ele, a base da vela continua revelando talentos, mas ainda existe um desafio na transição para o alto rendimento olímpico.
"Encontrei o Robert Scheidt aqui no Yacht Club e lembramos que estamos celebrando os 30 anos das medalhas olímpicas de Atlanta. Naquela Olimpíada, o Brasil foi o país que mais conquistou medalhas na vela. Hoje o cenário é diferente. A vela de formação vai muito bem, com títulos mundiais nas classes Optimist e 420 nos últimos anos", disse.
"Mas ainda existe um hiato entre a base e a vela olímpica. Nossa equipe trabalha muito, mas neste momento não vejo nenhum atleta como favorito a uma medalha, como acontecia em outras gerações com Torben Grael, Marcelo Ferreira e Robert Scheidt. Essa renovação precisa acontecer."
Para Lars Grael, o esporte náutico também desempenha um papel importante na valorização dos mares e rios brasileiros. "O Brasil tira uma parte importante de suas riquezas do mar. Dele vêm alimentos, petróleo, gás e outras fontes de energia. Mesmo tendo mais de 8 mil quilômetros de litoral e mais de 40 mil quilômetros de águas navegáveis, ainda temos uma cultura náutica pouco desenvolvida. Promover essa mentalidade marítima é um dever de todos: da Marinha, da pesca, da vela, da canoagem, do remo, do surfe e de todas as modalidades que fazem parte desse ecossistema."
O velejador reconhece que o futebol continua sendo a principal paixão esportiva dos brasileiros, mas acredita que outras modalidades vêm conquistando mais espaço.
"O Brasil sempre foi um país de monocultura esportiva, voltado principalmente para o futebol masculino. Isso vem mudando aos poucos. Hoje existe mais espaço para modalidades olímpicas, paralímpicas e até esportes que não fazem parte dos Jogos. O esporte deveria ser um direito de todos, mas o Brasil ainda precisa avançar bastante nessa área."
Lars também comentou sobre a imagem da vela como um esporte elitizado e defendeu a ampliação de projetos sociais e escolas públicas da modalidade. Segundo ele, embora grande parte da prática aconteça em clubes, já existem iniciativas que permitem o acesso gratuito ao esporte.
"A vela é praticada principalmente em clubes, e nem todos têm acesso a eles. Mas isso pode mudar. Nós temos o Projeto Grael, em Niterói, há 28 anos, por onde já passaram cerca de 22 mil jovens de escolas públicas. Esse projeto inspirou outras iniciativas pelo país. Em Ilhabela, por exemplo, existe uma escola municipal de vela que é um sucesso e revelou o campeão mundial da classe Optimist, Alex Cool. Hoje há escolas de vela em várias regiões do Brasil. O importante é procurar esses projetos e participar."
Para o medalhista olímpico, ampliar o número de escolas de vela e incentivar a cultura náutica são passos fundamentais para que mais brasileiros descubram o esporte e aproveitem o potencial das águas do país.