Quatro crianças de Cunha relatam agressões, na zona rural do município, atribuídas à mãe e ao padrasto, segundo boletim de ocorrência registrado nessa terça-feira (21).
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Os irmãos de 4, 5, 8 e 10 anos citaram golpes com fio de trator, vara de espinhos, cadeira, chinelos, socos, pauladas e chutes, além de longos períodos sem alimentação adequada.
As crianças receberam atendimento médico e passaram por exames no IML (Instituto Médico Legal), enquanto a Polícia Civil apura o caso como suspeita de tortura.
O caso chegou à polícia depois que o pai recebeu os quatro filhos para um período de convivência familiar. Conforme o boletim de ocorrência, a mãe levou as crianças até ele em 17 de julho, antes do fim de semana.
Durante os cuidados de higiene, a companheira do pai percebeu hematomas, escoriações e marcas pelo corpo dos menores. O documento afirma que as lesões causaram preocupação imediata devido à quantidade e ao aspecto apresentado.
A mulher também percebeu que os irmãos permaneciam retraídos, assustados e isolados nos cômodos da casa. O comportamento chamou a atenção dos adultos, que iniciaram uma conversa cuidadosa com as crianças.
Após a criação de um ambiente que elas consideraram seguro, os menores relataram episódios de violência física e psicológica. Os atos teriam ocorrido na casa onde viviam com a mãe e o padrasto, em uma área rural de Cunha.
A menina de 4 anos declarou que sofreu golpes na região dos olhos e pancadas na cabeça, atribuídas à mãe. Ela também relatou que o padrasto teria atingido sua testa com uma cadeira.
Segundo a versão registrada no boletim, os responsáveis levavam as crianças a unidades de saúde após alguns dos episódios. A menina afirmou que eles apresentavam justificativas diferentes para os ferimentos, numa suposta tentativa de ocultar a origem das lesões.
O menino de 5 anos afirmou que sofreu agressões com fio de trator e vara de espinhos. Ele também citou chineladas e socos na cabeça.
A criança declarou ainda que enfrentava intenso sofrimento físico e psicológico durante a noite. O boletim não detalha todos os episódios noturnos, a frequência dos atos ou o período exato em que teriam ocorrido.
O menino de 8 anos disse que recebia castigos frequentes com uma vara de espinhos. Segundo o depoimento, o padrasto também teria usado um objeto contundente para atingir seus braços e ombros.
A criança afirmou que a mãe presenciava os atos e, em determinadas ocasiões, incentivava a continuidade das agressões. Essa versão integra o conjunto de informações que a Polícia Civil deverá confrontar com depoimentos, perícias e outros elementos.
O menino de 10 anos afirmou que sofreu golpes com vara de espinhos no rosto, pauladas nas pernas e nas costelas e chutes na região genital. Ele atribuiu os atos ao padrasto.
A criança também declarou que era obrigada a dormir diretamente no chão, sem colchão ou outra proteção adequada, mesmo durante períodos de frio intenso.
Os quatro irmãos relataram que permaneciam por longos períodos sem alimentação adequada. Segundo o boletim, em algumas ocasiões, eles recebiam apenas uma refeição depois das 15h.
As crianças também disseram que a mãe e o padrasto saíam durante a noite para frequentar bares e outros estabelecimentos. Os menores ficavam desacompanhados, sem a supervisão de um adulto e em situação de vulnerabilidade.
O pai levou as crianças à Santa Casa de Guaratinguetá. De acordo com o boletim, um médico pediatra constatou cicatrizes, lesões corto-contusas e escoriações distribuídas pelo tronco, braços e pernas.
O profissional solicitou uma conversa reservada com os investigadores devido à quantidade de lesões. O médico teria classificado o quadro como grave e manifestado preocupação com o estado físico dos menores.
As crianças também seguiram para o IML, onde passaram pelos exames necessários à produção dos laudos periciais. Os resultados devem apontar a natureza, a extensão e a possível antiguidade das lesões.
Até a emissão do boletim de ocorrência, os laudos ainda não constavam no procedimento. O documento também informa que não houve prisão em flagrante.
A ocorrência foi registrada como tortura. O enquadramento inicial considera relatos de violência, privação de necessidades básicas, ameaças e possível submissão das crianças a intenso sofrimento físico e psicológico.
A Polícia Civil deverá analisar os relatos, os prontuários médicos, os laudos do IML, as fotografias das lesões e as declarações de testemunhas. A autoridade policial também poderá solicitar novas diligências.