A rede municipal de ensino de São José dos Campos concentra o maior número de afastamentos de servidores públicos por licença médica e tem na saúde mental o principal motivo das ausências.
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Um estudo epidemiológico da Prefeitura mostra que a Educação respondeu por 56% de todos os afastamentos superiores a 15 dias registrados em 2024, evidenciando o impacto do adoecimento emocional entre os profissionais e reforçando a preocupação com a escalada da violência nas escolas.
Entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2024, foram registrados 347 afastamentos entre os 4.356 servidores da Educação, de um total de 618 licenças concedidas em toda a administração municipal. Na prática, mais da metade de todos os afastamentos da Prefeitura ocorreu justamente na área responsável pelo ensino.
Os professores aparecem como os profissionais mais atingidos. O cargo de Professor 1 respondeu por 199 afastamentos, seguido por Professor 2, com 66, e Agente Educador, com 54.
O levantamento também revela que a saúde mental é a principal causa de adoecimento. Dos 347 afastamentos registrados na Educação, 169 tiveram diagnóstico psiquiátrico, o equivalente a 49% do total. As doenças ortopédicas aparecem em segundo lugar, com 69 ocorrências, correspondendo a 20% das licenças.
A faixa etária mais afetada foi a de servidores entre 40 e 49 anos, com 119 afastamentos, seguida pelos profissionais entre 50 e 59 anos, que registraram 113 licenças médicas.
Os números ganham ainda mais relevância diante dos episódios de violência registrados recentemente na rede municipal.
Na última terça-feira (30), a professora Michele Ramos passou por momentos de tensão durante uma aula de Ciências na EMEFI Ildete Mendonça Barbosa, no Parque Residencial União. Segundo a docente, dois alunos do 8º ano colocaram uma lâmina de vidro, utilizada em microscópio, dentro do copo de água que seria consumido por ela.
A professora percebeu o comportamento incomum dos estudantes, verificou o copo antes de beber e encontrou a lâmina, evitando um acidente que poderia provocar graves ferimentos.
As imagens das câmeras de segurança permitiram identificar os adolescentes. Eles foram suspensos até o fim do semestre, e dois deles serão transferidos para outra escola da rede municipal.
Em nota enviada ao OVALE, a Prefeitura informou que a professora recebeu atendimento imediato, acolhimento e encaminhamento médico, ressaltando que casos dessa natureza são tratados com rigor para preservar a integridade física e emocional dos profissionais.
O episódio ocorreu menos de três meses após outro caso de violência.
Em 7 de abril, uma professora de 62 anos foi atingida por uma porta durante uma confusão envolvendo um estudante de 14 anos na Escola Municipal Professora Maria Ophélia Veneziani Pedrosa, no Jardim Pôr do Sol.
Segundo a Polícia, o adolescente havia sido flagrado colando durante uma prova. Após ter a avaliação recolhida, deixou a sala e outros alunos passaram a entrar e sair da classe para provocar a professora. Quando ela fechou a porta, o estudante a chutou. O impacto derrubou a docente, que sofreu uma convulsão.
O adolescente foi apreendido e a Prefeitura informou que prestou assistência à professora e à comunidade escolar.
Para o diretor do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de São José dos Campos, professor Lucas Monteiro, os casos recentes refletem um problema estrutural vivido diariamente pelos profissionais da educação.
Segundo ele, o fato de quase metade dos afastamentos estar relacionada a transtornos psiquiátricos evidencia a influência do ambiente de trabalho sobre a saúde dos educadores.
"O que vemos é que metade dos afastamentos dos profissionais da educação está ligada justamente às questões de saúde mental, psicológica e psiquiátrica. Isso está diretamente relacionado ao ambiente de trabalho e aos casos de violência vividos nas escolas", afirma.
Monteiro diz que o relato da professora Michele Ramos repercutiu porque representa o sentimento de muitos docentes.
"Ela verbalizou uma pergunta que muitos professores fazem diariamente: até quando será possível suportar essa situação? O problema vai muito além de um caso isolado. Falta uma política efetiva de acolhimento psicológico e psicossocial aos profissionais da educação."
Segundo o sindicalista, o cenário pode ser ainda mais grave, já que muitos episódios de violência e adoecimento emocional não chegam a ser oficialmente registrados.
O sentimento também foi compartilhado por uma professora da rede municipal que publicou um vídeo nas redes sociais após o caso envolvendo Michele Ramos.
Ela afirma que o episódio causou indignação, mas não surpresa entre os educadores. Segundo a docente, situações de desrespeito fazem parte da rotina escolar e incluem ofensas, ameaças, humilhações, gravações sem autorização e comportamentos agressivos de alunos e familiares.
Além disso, a professora critica a sobrecarga de trabalho enfrentada pelos profissionais da rede municipal. Segundo ela, além de ensinar, os educadores assumem funções de psicólogos, mediadores de conflitos, assistentes sociais e responsáveis pelo atendimento às famílias, enquanto convivem com excesso de burocracia, pressão por resultados, falta de estrutura, insegurança e baixos salários.
Para a docente, a combinação entre violência, sobrecarga e desgaste emocional ajuda a explicar por que a saúde mental se tornou a principal causa de afastamento entre os profissionais da Educação em São José dos Campos, setor que lidera as licenças médicas entre todos os servidores municipais.
A Secretaria de Educação e Cidadania de São José dos Campos foi procurada sobre o assunto, mas ainda não se manifestou. O espaço segue aberto e será atualizado após a manifestação.