29 de junho de 2026
COPA DO MUNDO

Arigatô Brasil

Por Eduardo Pandeló | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 3 min

O primeiro tempo parecia um seriado japonês.
Quem nasceu nos anos 70 ou 80 sabe exatamente do que estou falando.
O Brasil entrou em campo como um daqueles monstros gigantes que apareciam destruindo cidades em *Ultraman*.

Veio atropelando.
Pressionando.
Empurrando.
Parecia que a muralha japonesa iria desabar a qualquer momento.

Mas então...
...surgiu o Ultraman.
Seu nome era Sano.
Num erro na saída de bola brasileira, apareceu como aqueles heróis japoneses que sempre surgiam na hora certa para salvar o planeta.

De repente...
Japão na frente.
Confesso que senti um frio na espinha.

Na minha infância eu adorava os seriados japoneses.
Ultraman.
Ultra Seven.
National Kid.
Spectreman.
Jaspion.

Eles sempre salvavam o mundo no último minuto.
Mas, naquela hora, eu queria que todos eles tirassem folga.

Enquanto o intervalo chegava, viajei quarenta anos no tempo.
Lembrei do CPOR de São Paulo.

Ali conheci alguns dos homens mais disciplinados, leais e corretos que já passaram pela minha vida.

Todos descendentes de japoneses.
Todos oficiais R/2 do Exército Brasileiro.
Murakami.
Yamamoto.
Fugihara.
Sonoda.
Kamia.
Ikeda.
Machida.
Takeuchi.
Wakamoto.

Se dependesse da disciplina daquela turma, guerra nenhuma seria perdida.

Fugihara, aliás, era um craque.Jogava muita bola. Foi um dos destaques da seleção da Infantaria.

Nós brincávamos que aquela turma formava a verdadeira Patrulha Científica, igualzinha à do Ultraman.
Sempre juntos.
Sempre unidos.
Sempre prontos para enfrentar qualquer monstro.
Só que, naquela época, o maior monstro era mesmo o tenente instrutor.
Do outro lado do quartel havia outro grande amigo.

Corrêa.
Da Cavalaria.
Anos depois a vida faria outra de suas ironias.
Hoje ele é pai de Marquinhos, capitão da Seleção Brasileira.

Como eram bons os anos 80...

Mas voltemos ao jogo.

O Brasil voltava para o segundo tempo atrás no placar.
E o medo começava a ganhar nome. Vai que esse tal de Sano resolve virar um novo Paolo Rossi?

Todo brasileiro acima dos cinquenta anos entende imediatamente esse medo.

Paolo Rossi não foi apenas um atacante. Foi um trauma nacional.
O relógio corria.
O Japão era disciplinado como um relógio japonês.

O Brasil precisava de quarenta e cinco minutos de inspiração.
Nem National Kid.
Nem Spectreman.
Nem Jaspion.
Nem Power Rangers.
Nem Ultraman.
Nem Ultra Seven.
Nem toda a Patrulha Científica reunida conseguiria impedir o destino.

Aos onze minutos...

Casemiro. Sim.
Casemiro.
O menino revelado na Escolinha do Moreira, em São José dos Campos.
Naquele instante era São José dos Campos inteira entrando em campo. Era o Vale do Paraíba empatando uma Copa do Mundo.
Era a prova de que grandes histórias também começam em pequenos campos de terra.

O Brasil respirou.
E fez o que sempre faz quando está vivo.
Foi para cima.
Foi bonito.
Foi perigoso.
Também foi irresponsável.

Porque todo ataque brasileiro deixa um frio na barriga. A cada avanço, os japoneses respondiam como samurais pacientes esperando o golpe perfeito.
Até que chegou o minuto cinquenta.
Martinelli. Gol.

Não houve explosão.
Houve alívio.
O futebol brasileiro respirou novamente.

Sayonara, Japão.

Mas sem tristeza.
Porque amizade não conhece eliminação.
Tenho certeza de que meu tio Juca deve ter comandado a torcida.
Ao lado dos meus primos Elton, Léo e Izabela.
Os Yukio de Castro. Uma curiosa mistura de mineirice com tradição nipônica. Do jeitinho que só o Brasil consegue produzir.

E imagino também a colônia japonesa espalhada pelo país inteiro.

Uns felizes.
Outros decepcionados.
Todos orgulhosos.
Porque vencer ou perder faz parte do futebol.
Da amizade, não.
No fim das contas, eu continuo acreditando na crônica que escrevi antes da bola rolar.
A rivalidade termina quando o juiz apita.

Depois começa a festa.
Alguém pega o microfone.
Joe Hirata canta:
"Dômo arigatô..."
E nós respondemos:
"...a esta Pátria Mãe Gentil..."
Dômo arigatô, nosso Brasil!

Cinco minutos depois...
Alguém pede Roberto Carlos.
Outro escolhe uma canção japonesa.
Até que inevitavelmente surge um bêbado patriota.

Pega o microfone.
Olha para japoneses e brasileiros.
E anuncia:
— Agora é a nossa!

"...E nessa loucura de dizer que não te quero..."

Pronto.
Acabou a Copa.
Acabou a rivalidade.
Porque existe uma verdade que vale tanto para brasileiros quanto para japoneses:

No futebol alguém sempre perde.

No karaokê...
Todo mundo canta "Evidências" junto.
E essa, definitivamente, é a maior vitória de todas.