27 de junho de 2026
FRAN GALVÃO

IA pode montar looks. Mas será que ela entende você?

Por Fran Galvão | Consultora de imagem e estilo
| Tempo de leitura: 3 min
Divulgação
IA pode montar looks. Mas será que ela entende você?

Outro dia me peguei pensando numa pergunta que talvez muitas de vocês também já tenham feito: se hoje a inteligência artificial consegue montar looks, indicar tendências, sugerir combinações e até analisar cartelas de cores, será que ainda faz sentido investir em consultoria de imagem?

Clique aqui para fazer parte da comunidade de OVALE no WhatsApp e receber notícias em primeira mão. E clique aqui para participar também do canal de OVALE no WhatsApp

A pergunta é válida. E mais do que isso: é atual.

Vivemos um momento em que a tecnologia atravessa praticamente tudo. Ela organiza nossas agendas, responde nossas mensagens, cria textos, sugere destinos de viagem, monta playlists, filtra referências e, agora, também entra no universo da moda e do estilo.Basta alguns comandos e pronto: um algoritmo pode te dizer quais peças combinam, quais tendências estão em alta ou até o que usar em determinada ocasião.

Prático? Muito. Suficiente? Nem tanto.

E é aqui que mora um ponto importante que talvez ainda esteja sendo pouco discutido: imagem pessoal não é apenas combinação de roupa, acessórios, cores e sapatos. Imagem Pessoal é narrativa. E narrativa envolve história, contexto, emoção, personalidade, humor e identidade.

A inteligência artificial trabalha com dados. E isso é brilhante. Mas consultoria de imagem trabalha com pessoas. E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

Uma Inteligência Artificial pode sugerir um blazer para uma reunião importante. Faz sentido, é lógico e até o esperado. Mas ela não sabe que talvez você evite blazers porque passou anos tentando endurecer sua imagem para ser levada a sério em ambientes predominantemente masculinos.

Ela pode sugerir preto como uma escolha elegante. Mas não entende que, em muitos casos, o preto virou esconderijo emocional. Um lugar seguro para quem ainda está construindo confiança.

Ela pode montar um look impecável para um evento social. Mas não conhece sua relação com seu corpo, suas inseguranças, suas fases ou aquilo que você ainda está aprendendo a sustentar em si.

Moda não é apenas sobre vestir, é linguagem, é comunicação. É um jeito de dizer ao mundo quem você é - ou quem deseja ser - antes mesmo de abrir a boca.

Outra verdade importante é que estilo não se constrói apenas com informação. Se constrói com intenção. E intenção exige presença, exige se olhar, entender o que faz sentido para sua vida hoje.

E isso faz ainda mais sentido especialmente depois dos 30 anos, quando justamente nessa fase que muitas mulheres começam a viver transformações importantes. O corpo muda. A rotina muda. A carreira cresce. A maternidade chega ou se reorganiza. Relacionamentos terminam, recomeçam ou amadurecem. A autoestima oscila. E, no meio disso tudo, o guarda-roupa muitas vezes deixa de acompanhar.

E ai que normalmente surge aquela sensação clássica: “Tenho roupa, mas parece que nada me representa.”E sinceramente, nenhuma inteligência artificial consegue traduzir isso sozinha.Porque não é sobre falta de peça.

A Inteligência Artificial pode ser uma ferramenta maravilhosa para ampliar repertório, testar ideias, acelerar escolhas, fazer pesquisas e até provocar novas combinações. Eu mesma acredito profundamente no uso da tecnologia como aliada. Mas ela não substitui profundidade. Ela não faz perguntas desconfortáveis.Ela não percebe aquilo que está nas entrelinhas.Ela não enxerga aquilo que você ainda não consegue nomear.

E talvez esse seja o maior luxo da consultoria de imagem hoje: não entregar somente roupa, mas direção, olhar, leitura e tradução.

Em tempos de inteligência artificial, talvez o diferencial não seja mais ter acesso à informação - porque isso todo mundo tem - o diferencial é saber filtrar, traduzir. Saber transformar informação em identidade.

Porque no fim das contas, estilo nunca foi sobre vestir o que faz sentido para o algoritmo e sim o que faz sentido para você. E isso, pelo menos por enquanto, ainda não existe tecnologia capaz de fazer sozinha.