O futebol é um sujeito sem caráter.
Não respeita currículos.
Não consulta o PIB.
Não verifica o tamanho do território.
Não pede autorização à História.
Por isso, de todas as tragédias que poderiam acontecer ao Brasil, nenhuma parecia tão improvável quanto esta.
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Não foi a Alemanha.
Não foi a Argentina.
Não foi a França.
Não foi a Espanha.
Nem mesmo o velho Uruguai.
O novo carrasco do futebol brasileiro chama-se Haiti.
Sim, Haiti. assim pequenininho; Haiti.
O mesmo Haiti para onde o Brasil enviou generais, soldados, médicos, engenheiros, ajuda humanitária e milhares de homens fardados sob a bandeira azul das Nações Unidas.
Durante treze anos, entre 2004 e 2017, o Brasil liderou a MINUSTAH.
Mais de 37 mil militares brasileiros passaram pela ilha.
Uma geração inteira de soldados desembarcou em Porto Príncipe levando segurança, esperança e, naturalmente, futebol.
Porque o brasileiro tem um defeito: onde chega, leva uma bola.
Pode faltar energia.
Pode faltar água.
Pode faltar estrada.
Mas sempre aparece alguém com uma bola debaixo do braço.
E foi assim que começou nossa própria tragédia.
Enquanto os generais discutiam estratégias, algum sargento ensinava um drible.
Enquanto a ONU organizava operações, algum cabo improvisava um campinho.
Enquanto o mundo falava de estabilidade institucional, algum soldado brasileiro explicava a diferença entre um chute colocado e uma bomba no ângulo.
Plantamos futebol.
E colhemos nossa desgraça.
O Haiti aprendeu.
Aprendeu muito bem.
Talvez até melhor do que o professor.
Porque o aluno costuma carregar uma vantagem mortal: ele conhece os segredos do mestre.
Na noite da derrota, enquanto o placar exibia aquele impossível Haiti 1 x 0 Brasil, a História inteira pareceu fazer sentido.
Era como se a ilha inteira estivesse cobrando uma conta atrasada.
A vingança da MINUSTAH.
Não uma vingança política.
Nem militar.
Mas futebolística.
A pior de todas.
E então começaram a surgir as histórias.
Sempre surgem.
Um comentarista jurava ter identificado um sobrenome suspeito.
Outro descobria um atacante parecido com um cabo brasileiro que servira em Porto Príncipe vinte anos antes.
Um jornalista afirmava que determinado volante tinha olhos idênticos aos de um paraquedista de Goiás.
Em poucas horas, metade do Brasil já acreditava que o time haitiano era formado por filhos secretos da missão de paz.
Nenhuma prova.
Nenhuma evidência.
Apenas aquela necessidade nacional de encontrar uma explicação minimamente aceitável para o inaceitável.
Porque admitir a verdade era muito mais doloroso.
O Haiti não venceu por acaso.
O Haiti venceu porque jogou futebol.
E jogou melhor.
A frase parecia uma heresia.
Mas estava escrita no placar.
E placares não mentem.
Na manhã seguinte, os jornais tentaram encontrar paralelos históricos.
Inútil.
O Maracanaço não servia.
O 7 a 1 não servia.
Aquilo pertencia a outra categoria.
O Uruguai era campeão olímpico.
A Alemanha era uma potência mundial.
Mas o Haiti?
O Haiti não estava autorizado pela lógica a produzir esse sofrimento.
Justamente por isso produziu.
Foi então que a Pátria de Chuteiras compreendeu sua nova realidade.
Durante décadas tememos os alemães.
Respeitamos os argentinos.
Desconfiamos dos franceses.
Observamos os espanhóis.
Mas o destino tinha outro plano.
O novo fantasma do futebol brasileiro falava crioulo haitiano.
E talvez estivesse apenas devolvendo, em noventa minutos, uma história construída ao longo de treze anos.
Dizem que, após o apito final, um velho soldado brasileiro aposentado desligou a televisão e murmurou:
— Meu Deus... nós ensinamos esses meninos a jogar bola.
Talvez tenha sido a frase mais precisa daquela noite.
Porque os mestres raramente imaginam que um dia serão derrotados pelos próprios alunos.
E o futebol, esse canalha magnífico, adora esse tipo de ironia.
Por isso, quando os livros forem escritos e as futuras gerações perguntarem quem sucedeu Alemanha, Argentina, França, Espanha e Uruguai na galeria dos grandes algozes da Seleção Brasileira, a resposta será recebida com incredulidade.
Mas será verdadeira.
O novo carrasco do Brasil nasceu no Caribe.
Chamava-se Haiti.
E bastou um gol.
Um único gol.
Para transformar Porto Príncipe na nova capital do nosso sofrimento esportivo.
— Nelson Rodrigues, em espírito.
Psicografado por Eduardo Pandeló.
Houve um tempo em que o brasileiro acreditava que certas coisas eram impossíveis.
Impossível o Titanic afundar.
Impossível o homem pisar na Lua.
Impossível o Brasil perder para o Haiti numa Copa do Mundo.
Pois aconteceu.
E quando aconteceu, o velho Maracanã de 1950 levantou-se do túmulo para pedir respeito.
O 7 a 1, aquele que parecia destinado à eternidade como a maior humilhação nacional, encolheu-se num canto da História como um parente distante que ninguém mais menciona.
Porque sete gols da Alemanha ainda podiam ser explicados pela lógica.
Mas um único gol do Haiti não admitia explicação alguma.
Era a derrota do impossível.
Era a derrota da própria ideia de Brasil.
Naquela noite, os cronistas procuraram culpados.
Os comentaristas buscaram esquemas táticos.
Os analistas desenharam setinhas luminosas.
Os influenciadores gravaram vídeos indignados.
Mas nada disso servia.
Porque o que morreu não foi uma seleção.
Foi um mito.
A camisa amarela entrou em campo cercada de estrelas, milhões, contratos, expectativas e certezas.
O Haiti entrou apenas com seus homens.
E às vezes homens bastam.
O relógio caminhava para a eternidade quando aconteceu o impensável.
Uma bola.
Um lance.
Um desvio.
Um silêncio.
O gol.
Não um gol comum.
Mas o gol que atravessou gerações.
O gol que fez avôs recordarem o rádio de 1950.
Pais relembrarem a televisão de 2014.
Filhos descobrirem que a dor futebolística não tem fundo.
O estádio inteiro congelou.
Nenhum grito.
Nenhum palavrão.
Nenhuma revolta.
Apenas aquele silêncio que antecede os funerais.
Os jogadores brasileiros olhavam para o placar como quem observa uma sentença escrita por Deus.
Brasil 0.
Haiti 1.
A combinação parecia erro de digitação.
Bug eletrônico.
Falha tecnológica.
Alucinação coletiva.
Mas permanecia ali.
Implacável.
Cruel.
E verdadeira.
Dizem que naquele instante a Pátria de Chuteiras tirou as chuteiras.
Não as arremessou.
Não as quebrou.
Apenas as retirou lentamente.
Como um velho guerreiro que compreende ter chegado ao fim de uma era.
O apito final veio como uma certidão de óbito.
As crianças choravam.
Os adultos também.
Os especialistas procuravam estatísticas.
Mas não havia estatística capaz de explicar o sobrenatural.
Porque não era o Haiti que havia vencido.
Era o impossível.
E quando o impossível vence, não há comentarista, treinador, dirigente ou presidente de federação que possa oferecer consolo.
Na manhã seguinte, o Brasil acordou diferente.
O café tinha outro gosto.
Os jornais pareciam impressos em preto e branco.
Os programas esportivos falavam baixo.
Até os rivais tiveram pena.
E foi então que a História decretou:
1950 deixou de ser a maior tragédia.
2014 deixou de ser a maior vergonha.
O novo nome do desastre tinha apenas cinco letras : HAITI .
E aquele único gol passou a valer mais do que sete.
Porque sete gols podem derrotar um time.
Mas um único gol pode derrotar uma crença.
E naquele dia, meus amigos, a Pátria de Chuteiras descobriu que também era mortal.
— Nelson Rodrigues, em espírito.
> Psicografado por Eduardo Pandeló.
Acordei aliviado. Durante toda a noite fui assombrado por uma visão terrível.
O Haiti derrotava o Brasil na Copa do Mundo.
Um único gol.
Não sete.
Apenas um.
Mas um gol tão devastador que transformava o 7 a 1 numa simples nota de rodapé da História.
Vi Nelson Rodrigues caminhando pelos corredores da eternidade com aquele sorriso maroto de quem acabara de aprontar alguma.
Vi a Pátria de Chuteiras de luto.
Vi comentaristas em estado de choque.
Vi exércitos de analistas tentando explicar o inexplicável.
Vi até a tal vingança da MINUSTAH.
Os haitianos, supostamente ensinados por soldados brasileiros a jogar futebol, devolvendo décadas depois a lição recebida.
Tudo parecia real.
Assustadoramente real.
Mas então me lembrei de uma das maiores filósofas que conheci na vida.
Minha mãe.
Dona Margarida.
Mulher simples.
Sabedoria infinita.
Especialista em desmontar tragédias imaginárias com uma única frase.
Quantas vezes eu a ouvi dizer:
— Filho, sonho é sempre ao contrário.
E pronto.
Acabou a crônica.
Acabou o drama.
Acabou o pesadelo.
Porque se sonho é sempre ao contrário, então o Haiti continua sendo um povo amigo, digno e admirável.
E o Brasil continua seguindo seu caminho na Copa.
Com suas virtudes.
Com seus defeitos.
Com suas limitações.
Porque convenhamos: o futebol brasileiro já não é o mesmo.
Talvez nem volte a ser.
O mundo aprendeu a jogar bola.
As distâncias diminuíram.
Os uniformes ficaram mais modernos.
Os gramados mais perfeitos.
Os atletas mais preparados.
Mas ainda existe algo naquela camisa amarela que desafia a lógica.
Ela pode até perder partidas.
Mas continua carregando cinco estrelas.
Continua carregando histórias.
Continua carregando gerações inteiras de lembranças.
E quanto ao Haiti?
Que bom que a realidade é bem diferente daquela brincadeira macabra inventada pelo espírito traquinas de Nelson Rodrigues.
Aliás, se existe uma verdadeira vitória nessa história, ela não está num placar de futebol.
Está na amizade construída entre povos.
Está nas missões humanitárias.
Está nos milhares de militares brasileiros que serviram sob a bandeira azul das Nações Unidas.
Mais de 37 mil homens e mulheres que passaram pela ilha levando profissionalismo, solidariedade e esperança.
Como oficial da reserva do Exército Brasileiro, faço minha continência a todos eles.
Aos que serviram.
Aos que comandaram.
Aos que patrulharam ruas difíceis.
Aos que representaram o Brasil com honra longe de casa.
A paz nunca é obra do acaso.
Ela é construída por pessoas comuns que cumprem extraordinariamente bem o seu dever.
Por isso, toda a insensatez será perdoada.
Inclusive este pesadelo futebolístico que recebi durante a madrugada.
Nelson Rodrigues, certamente, deve estar rindo em algum lugar.
Minha mãe, lá do alto, também.
E eu fico com a sabedoria dela.
Porque Dona Margarida raramente errava.
> > Sonho é sempre ao contrário.
Ainda bem!.
— Eduardo Pandeló