16 de junho de 2026
OFF CAMPUS

Por que séries juvenis conquistaram mulheres acima dos 30?

Por Giulianna Mazzali |
| Tempo de leitura: 5 min
Divulgação
Fenômeno nas redes sociais, Off Campus atraiu também mulheres e homens adulto

Adaptação dos livros best-sellers de Elle Kennedy, a série “Off Campus: Amores Improváveis” foi lançada pela Amazon Prime no início de maio e, em menos de duas semanas, registrou mais de 36 milhões de espectadores, tornando-se a terceira maior estreia da plataforma.

A primeira temporada da série foi inspirada no livro “O Acordo”, lançado em 2015, que traz a história do capitão do time de hóquei da universidade e da estudante de música exemplar. Apesar de diferentes, eles se juntam com um objetivo: ela o ajuda a estudar para a prova, enquanto ele a ajuda a conquistar o rapaz dos seus sonhos.

Apesar da narrativa simples e juvenil, a série se tornou um fenômeno na internet e atraiu um público diverso, inclusive mulheres e homens adultos. Quase um mês após o lançamento, a série continua despertando o interesse e levanta o questionamento do que causou a popularidade da produção, principalmente entre o público feminino acima dos 30 anos.

IDENTIFICAÇÃO

Taíssa Itaboraí, analista de marketing e produtora de conteúdo literário de 32 anos, admite que, apesar de não ser o tipo de conteúdo que está acostumada a consumir, a mobilização em torno da série atraiu sua curiosidade. “Queria entender o que essa história estava propondo de diferente e me deparei com uma abordagem interessante de gênero, conflitos e aspirações.”

Taíssa Itaboraí acredita que a identificação com dilemas emocionais explica o sucesso

Para ela, uma das razões para o sucesso da obra é a nostalgia, que resgata a estética de comédias dos anos 90 e 2000, mas também relembra sentimentos de busca pela própria identidade, talentos, medos relacionados ao futuro, primeiras experiências românticas, inseguranças e descoberta da sexualidade.

Mas não para por aí. Segundo Taíssa, a série traz “discussão de temas que se perpetuam na vida adulta, mas as pessoas têm vergonha de abordar nessa fase da vida, como inseguranças com o próprio corpo, tabus sexuais, sensação de solidão, necessidade de ser vista e amada, desejo de reconhecimento no trabalho. São os mesmos anseios, apenas em um contexto diferente”, explica a analista.

De acordo com Isabel Unikowsky, psicanalista e mestranda em Psicologia Social, a representação de tabus sexuais traz conforto para as mulheres. “Na série, Hannah pede ao Garrett que lhe dê um orgasmo, assunto delicado para muitas mulheres. Por que o homem pode ter liberdade para expor seus desejos para a mulher, mas a mulher não se sente à vontade para fazer o mesmo? Achei ótimo a série tocar nesse ponto, porque a vida sexual e o prazer da mulher são importantes, mas muitas vezes são negligenciados em relacionamentos.”

Além disso, a profissional entende que os programas de televisão podem funcionar como uma forma de escapismo da rotina, ajudando a pausar pensamentos obsessivos e preocupações com trabalho ou família.

O AMOR E OS HOMENS

Outro fator que despertou o interesse do público é a inteligência emocional dos personagens masculinos. Taíssa diz que os homens da obra são a representação do que as mulheres mais velhas sonham, mas raramente encontram na vida real. “São homens jovens, em um contexto universitário e atlético, que falam sobre sentimentos, sabem ser vulneráveis e afetuosos com os amigos homens, não ignoram os problemas, têm discussões profundas entre si, falam de mulheres de maneira respeitosa, dialogam sobre prazer feminino, confiança na relação e a importância do consentimento.”

Luís Fonseca, pseudônimo de um jovem de 23 anos, assistiu a série por pressão das amigas, mas afirma que achou curiosa a forma como as relações entre os personagens são desenvolvidas. “Apesar de irreal, é interessante como as conversas sobre sexualidade, relacionamentos e conselhos são abertas e bem pensadas.”

Segundo Luís, a ficção costuma trazer apenas duas representações masculinas: ou os homens são perfeitos ou são vilões que causam traumas na figura feminina. “Quando o homem é bom, ele é um deus; quando ele é ruim, é um Satanás. Como na vida real os homens não se aconselham, isso não é retratado nas séries, então é legal ver um exemplo de como deveria ser, de como deveríamos agir.”

Para o rapaz, representar o que os homens fazem de errado não é necessariamente um incentivo para mudança de comportamento, por isso, é importante que obras ficcionais deem esse exemplo, instigar essa transformação nos homens.

A representação masculina foi um dos motivos para o sucesso

Luís explica que as relações masculinas são muito diretas, quase superficiais. “A gente desabafa, pede conselho, mas sem profundidade. Perguntamos o que aconteceu, mas não como os outros se sentem. Sempre me senti acanhado de falar abertamente com outros homens, porque tudo vira competição ou piada. No geral, preciso performar um homem muito mais macho do que realmente sou.”

A construção social do que um homem deveria ser — másculo, recluso, insensível e durão — resultou em homens sentimentalmente reprimidos e inaptos para lidar de forma madura com relações amorosas, e mulheres frustradas com a falta de compreensão masculina. A série “Off Campus”, como outras séries adolescentes produzidas na última década, é um respiro que demonstram mais responsabilidade em representações de gênero, raça e sexualidade.

A psicanalista Isabel reforça o papel que essas obras desempenham, principalmente nos mais jovens. “Essa série é uma ótima série para rapazes adolescentes que estão iniciando a vida amorosa e sexual. Os homens, principalmente, têm um longo caminho pela frente na escolha da vulnerabilidade, mas eu acredito que são capazes de chegar lá pela via do amor.”

Taíssa complementa: “Fico muito feliz que as meninas mais jovens possam crescer com uma representatividade maior e que tenham uma referência melhor do que podem e devem esperar de um homem.”

No fim, as séries chamadas de “bobinhas”, além de terem muito o que ensinar, são um espelho do que se pode ter na vida real. “Vivemos um contexto intenso de polarização, extremismos e necessidade contínua de formar opiniões. Por isso, séries mais leves trazem a sensação de que, em algum lugar, a vida pode ser leve (mesmo que dentro da tela). É preciso entender o que falta na vida pessoal dos indivíduos, que existem nessas séries, para que seja possível trazer da tela para a vida real”, ressalta Isabel.

Produções juvenis têm conquistado cada vez mais espectadores ao abordar temas como saúde emocional, relacionamentos e pertencimento