São José dos Campos guarda uma história pouco conhecida, mas fundamental para compreender sua transformação em um dos maiores polos tecnológicos do Brasil. Muito antes da televisão, da internet e até mesmo da popularização do rádio, uma simples estrutura de alto-falantes instalada no centro da cidade se tornou o principal veículo de informação, entretenimento e mobilização da população.
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Essa trajetória é apresentada no livro "A Primeira Voz da Cidade", do jornalista e escritor joseense Ricardo Santos, que será lançado no dia 26 de junho, às 19h, no Restaurante Amicci, em São José dos Campos. Publicada pela Somos Editora, a obra reúne anos de pesquisa histórica e revela como a emissora P.L.1 acompanhou e influenciou um dos períodos mais importantes do desenvolvimento do município.
Mais do que contar a história de um sistema de comunicação, o livro reconstrói o cenário político, econômico e cultural das décadas de 1930 e 1940, quando a cidade deixava de ser conhecida apenas como estância para tratamento da tuberculose e começava a receber investimentos que moldariam seu futuro tecnológico.
Criada em 1937, a P.L.1 funcionava a partir de um sistema de alto-falantes instalado em um sobrado na esquina das ruas XV de Novembro e Sebastião Hummel. Em uma época em que poucas famílias possuíam aparelhos de rádio e grande parte da população brasileira era analfabeta, aquele sistema se tornou a principal fonte de informação da cidade.
“Na década de 30, havia menos de 100 rádios no Brasil como um todo. Então, eram poucas as emissoras e também eram poucos os aparelhos de recepção do rádio. O alto-falante tinha essa função”, diz o autor.
Diariamente, moradores ouviam notícias locais, comunicados oficiais, anúncios comerciais, programas de humor, músicas, radionovelas e até apresentações culturais transmitidas pelas cornetas espalhadas pela região central.
Segundo Ricardo Santos, a iniciativa surgiu em um momento em que São José dos Campos vivia profundas mudanças impulsionadas pelo governo de Getúlio Vargas e pela política de modernização do país.
Enquanto a cidade recebia investimentos públicos e estruturava sua expansão urbana, a emissora desempenhava uma função social essencial: informar e integrar a comunidade.
Na primeira metade do século 20, os sistemas de alto-falantes eram comuns em diversas cidades brasileiras e funcionavam como uma espécie de rádio comunitária antes da consolidação das emissoras AM.
Instalados em postes, praças, igrejas e estabelecimentos comerciais, esses equipamentos permitiam que informações chegassem rapidamente à população.
Em São José dos Campos, a programação ia muito além dos comunicados oficiais. As transmissões incluíam música, entretenimento e prestação de serviços, tornando-se parte da rotina dos moradores.
À noite, o sistema sonoro também era responsável por embalar o tradicional "footing", passeio realizado na Rua XV de Novembro, onde famílias e jovens caminhavam enquanto ouviam músicas transmitidas pelos alto-falantes.
O livro revela que importantes personalidades passaram pelos microfones da P.L.1.
Entre elas estão o poeta Cassiano Ricardo, a cantora Isaura Garcia, o maestro Fego Camargo — pai da apresentadora Hebe Camargo —, além da dupla sertaneja Alvarenga e Ranchinho.
Outro personagem de destaque é Paulo Lebrão, criador da emissora e um dos pioneiros da comunicação joseense.
Após sua passagem pela P.L.1, ele foi contratado por importantes emissoras do país e, em 1950, trabalhou ao lado de Assis Chateaubriand na inauguração da TV Tupi, a primeira emissora de televisão do Brasil e da América do Sul.
Para o autor, esse fato demonstra que profissionais formados na experiência pioneira de São José dos Campos participaram diretamente da construção da história da comunicação brasileira.
Em setembro 1946, a maior parte da equipe do alto-falante foi transferida para a recém-inaugurada ZYE-5 Rádio Clube, que recebeu a primeira outorga de concessão de rádio de São José dos Campos, também funcionando na rua XV de Novembro.
A obra também estabelece uma relação entre o desenvolvimento urbano da cidade e sua evolução econômica.
Na década de 1930, São José dos Campos foi transformada em estância climática e hidromineral por decreto estadual, recebendo recursos destinados à reorganização urbana, saneamento e infraestrutura.
Esse processo permitiu investimentos em educação, indústria, aviação e serviços públicos, criando as bases que décadas depois consolidariam o município como referência nacional em ciência, tecnologia e inovação.
Segundo Ricardo Santos, a comunicação acompanhou essa transformação. Se antes o alto-falante era a principal ferramenta para aproximar governo, comércio e população, hoje esse papel é desempenhado pelas plataformas digitais.
Para ele, embora as tecnologias tenham mudado profundamente, a essência permanece a mesma: informar, conectar pessoas e fortalecer a vida em comunidade.
“Hoje, as tecnologias mudaram e saímos do alto-falante para a era digital, mas a essência de se fazer comunicação com criatividade e credibilidade permanece a mesma.”
A investigação que deu origem ao livro começou em 2003, durante o Trabalho de Conclusão de Curso do autor na graduação em Jornalismo pela Univap (Universidade do Vale do Paraíba).
Anos depois, parte desse material inspirou o romance "P.L.1 – Nas Ondas da Imaginação". Durante a pandemia, com a digitalização de jornais e documentos históricos, Ricardo ampliou significativamente sua pesquisa, reunindo novos registros que deram origem ao atual livro-reportagem.
A publicação apresenta documentos, personagens e episódios pouco conhecidos da história joseense, oferecendo uma nova perspectiva sobre a evolução da cidade e da imprensa regional.
O lançamento acontece no dia 26 de junho, às 19h, no Restaurante Amicci, localizado na Avenida Anchieta, em São José dos Campos, reunindo leitores, pesquisadores e interessados na preservação da memória do Vale do Paraíba.