A Seleção Brasileira desembarcou nos Estados Unidos e, em poucas horas, as redes sociais estavam tomadas por comentários. Mas, desta vez, não era sobre escalação, tática ou desempenho em campo. Era sobre a roupa, ou como particularmente prefiro, a imagem.
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O uniforme de viagem da delegação brasileira, assinado por Ricardo Almeida, rapidamente se tornou assunto. Houve quem comparasse o visual a uniforme hospitalar, de mecânico, de dedetizador e até de repartições públicas.
Os memes surgiram em velocidade recorde e, independentemente da opinião individual sobre a beleza ou não da produção, existe algo extremamente interessante por trás desse episódio - ele revela uma verdade que eu repito há anos no universo da imagem pessoal: Todo mundo entende de imagem quando a imagem erra.
Talvez as pessoas não saibam explicar conceitos de branding, identidade visual, linguagem não verbal ou construção de percepção. Mas sabem, instantaneamente, quando algo parece deslocado, incoerente, fraco ou desconectado daquilo que esperavam receber.
E foi exatamente isso que aconteceu.
Enquanto a França desembarcou vestindo uma criação assinada por Jacquemus, onde misturou o universo esportivo com a sofisticação característica da moda francesa, a Alemanha apostou em uma proposta minimalista, contemporânea e conectada à sua própria herança esportiva, o Brasil apresentou uma imagem que gerou ruído.
Não porque a roupa fosse tecnicamente mal confeccionada – afinal estamos falando de Ricardo Almeira. Não porque a alfaiataria fosse inadequada – muito pelo contrário, a ocasião pede uma formalidade a mais. Mas porque a percepção coletiva não encontrou ali elementos suficientes para conectar aquele visual à identidade brasileira - e quando falamos de imagem, essa falta de identificação é um problema enorme.
Ouvi muita gente falando e me questionando nas redes sociais sobre a beleza do uniforme – mas quer saber? Comunicação visual não é sobre beleza, é significado. E ali não tinha.
Uma roupa pode ser linda e comunicar errado, pode ser sofisticada e comunicar pouco, pode ser moderna e não representar quem a veste. Trazendo o ponto principal desta sua colunista: o grande desafio da imagem é ser coerente.
No caso da Seleção, o tom de azul acinzentado, a ausência de elementos que remetessem de forma clara à energia brasileira e a proposta excessivamente neutra acabaram criando um conflito entre conceito de moda e identidade nacional.
Porque vamos combinar, em um país tão dividido como o nosso, a Copa do Mundo será um momento de união e, na minha opinião não apenas unidos por futebol. Mas pela cultura, pela narrativa que traz, por todos virarmos nessa época técnicos, por colecionar e trocar figurinhas, por decorar a rua, por combinar com os amigos para assistir ao jogo junto (e claro pensarmos nos looks) ...
Sem contar que esse momento é uma das maiores vitrines globais do planeta - cada delegação que desembarca está fazendo muito mais do que chegar a um campeonato. Está apresentando ao mundo uma versão visual do seu país.
E isso não acontece por acaso. Os uniformes deixaram há muito tempo de ser apenas uma escolha de vestuário. Hoje ele é um ativo estratégico de branding. As grandes marcas sabem disso, as federações esportivas sabem disso, os estilistas sabem disso. A roupa se transforma em discurso.
Quando a França escolhe um designer como Jacquemus para vestir seus atletas, ela não está apenas escolhendo roupas ou marca. Está assinando uma percepção. Está reforçando atributos como elegância, criatividade, moda e identidade cultural.
E é exatamente aqui que essa conversa deixa de ser sobre futebol e passa a ser sobre todos nós, porque, guardadas as devidas proporções, cada vez que você entra em uma reunião, participa de um evento, grava um vídeo, faz uma apresentação ou encontra alguém pela primeira vez, você também está desembarcando, comunicando, sendo lida. Antes da primeira palavra, da primeira apresentação ou explicação, sua imagem já chegou.
E a pergunta mais importante talvez não seja se as pessoas percebem sua imagem (porque elas percebem), a pergunta é: essa percepção está alinhada com aquilo que você gostaria de comunicar?
A Seleção Brasileira nos lembrou de algo muito valioso: quando a imagem está alinhada, ela fortalece a mensagem. Quando não está, ela se torna o assunto. Ou como disse Coco Chabel,” vista-se mal e notarão o vestido. Vista-se bem e notarão a mulher.”