29 de maio de 2026
OPINIÃO

Entre origens e territórios: a presença italiana no Vale

Por Eduardo Morelli | Presidente do Circolo Italiano Emilia Romagna
| Tempo de leitura: 4 min
Imagem ilustrativa
Entre origens e territórios: a presença italiana no Vale

A presença italiana no Vale do Paraíba se manifesta de formas distintas, atravessando cultura, memória e trajetórias individuais. Em alguns pontos do território, essa influência aparece de maneira mais visível, como em Quiririm, onde festas, culinária e práticas comunitárias mantêm referências de origem italiana ao longo das gerações.

Clique aqui para fazer parte da comunidade de OVALE no WhatsApp e receber notícias em primeira mão. E clique aqui para participar também do canal de OVALE no WhatsApp

Ao mesmo tempo, essa herança não é uniforme. A Itália é um “mosaico”, formada por regiões com identidades próprias, e essa diversidade também chegou ao Brasil com os fluxos migratórios. Com o passar do tempo, porém, essa dimensão territorial muitas vezes se dilui. Muitos descendentes mantêm vínculos afetivos com a Itália, mas sem saber exatamente de qual cidade ou região vieram seus antepassados.

Esse movimento ajuda a entender por que iniciativas que buscam reconectar essa origem mais específica ganham relevância. O Circolo Italiano Emilia-Romagna di San Paolo atua nesse sentido ao reunir pessoas com vínculo direto ou afetivo com a região da Emilia-Romagna.

A proposta inclui promover encontros, fortalecer laços e difundir o patrimônio histórico, cultural, turístico e econômico da região, além de manter contato com instituições italianas e estimular intercâmbios. Trata-se de um trabalho que busca aproximar as pessoas de uma Itália mais concreta, conectada ao território e à atualidade.

Nesse contexto, há também um elemento que atravessa diferentes experiências: o interesse individual em compreender a própria origem. É a curiosidade sobre a história familiar, sobre a cidade de onde vieram os antepassados, que muitas vezes impulsiona esse movimento de reconexão.

Ao mesmo tempo, esse tipo de atuação nem sempre é amplamente notado. A existência de diferentes associações, com níveis variados de organização e visibilidade, pode levar a uma percepção mais homogênea por parte de instituições, o que acaba por não evidenciar iniciativas que desenvolvem um trabalho contínuo e estruturado.
Essa relação entre origem e território também aparece em trajetórias que se consolidaram no próprio Vale do Paraíba. Em Guaratinguetá, por exemplo, a atuação de Giampaolo Bonora se estendeu por mais de 60 anos na Companhia de Fiação e Tecidos local, vinculada à produção de cobertores e que continua ativa. Nascido em Bologna, na Emilia-Romagna, ele construiu sua vida profissional na região e faleceu no último 25 de março, aos 92 anos.

Paralelamente a esses desenvolvimentos, a presença italiana no Vale do Paraíba também se reflete em dinâmicas de internacionalização, como as operações de empresas de capital italiano estabelecidas na região. É o caso da OLI do Brasil, com sede em São José dos Campos, que atua na região há mais de 11 anos e faz parte do Grupo OLI SpA, líder mundial em tecnologia de vibração industrial. Suas soluções são aplicadas em diversos setores produtivos, contribuindo para a eficiência e a continuidade operacional das plantas de produção. Integrando uma rede global de filiais, a OLI representa um exemplo concreto da ligação entre o conhecimento técnico italiano e o desenvolvimento industrial local. Essa relação também se evidencia na presença direta de executivos internacionais, como o CEO Paolo Nibbi, demonstrando a conexão operacional entre a Itália e o Brasil. Nesse sentido, a presença italiana na região não se limita à dimensão cultural, mas também se traduz em contribuições concretas para o desenvolvimento econômico e industrial da região.

Outra dimensão relevante dessa presença aparece nos sobrenomes, no idioma falado ou buscado por tantos e também na gastronomia, que funciona como espaço de circulação cultural e atualização de referências italianas no território. Restaurantes da região revelam essa diversidade de caminhos. Em alguns casos, preservam tradições associadas ao contexto da imigração, com práticas e receitas transmitidas ao longo das gerações. Em outros, constroem uma relação mais direta com a Itália contemporânea, com o uso de produtos de origem italiana, técnicas específicas e propostas alinhadas às dinâmicas atuais da cultura alimentar do país.

Casos como esses ajudam a situar a presença italiana não apenas como herança cultural, mas como parte de experiências concretas, históricas e contemporâneas, vividas no território do Vale do Paraíba.

Nesse cenário, iniciativas como a do Circolo também cumprem um papel de mediação, ao criar pontes, organizar referências e abrir caminhos para que essa relação com a Itália deixe de ser apenas simbólica e passe a ser construída de forma mais informada, situada e contínua ao longo do tempo.