A defesa do motorista de aplicativo investigado por importunação sexual após uma adolescente pular do carro em movimento, em Jacareí, aposentou uma gravação da corrida para contestar a denúncia. O caso ocorreu na noite da última quarta-feira (20), no Jardim Maria Amélia.
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O áudio tem cerca de 25 minutos e pode ser um novo elemento para a Polícia Civil confrontar as versões no inquérito.
Por envolver adolescente em ocorrência inicialmente relacionada a possível crime sexual, a identidade da menor foi preservada. Nas transcrições abaixo, o nome da passageira foi substituído por adolescente.
A gravação começa com o motorista confirmando quem entrou no veículo e questionando a forma de pagamento cadastrada no aplicativo: “Olá, boa noite. É [adolescente]?”. A passageira responde: “Aham.”
Logo depois, o motorista diz: “[Adolescente], eu vi aqui a forma de pagamento de dinheiro. Qual vai ser a forma de pagamento? Dinheiro?”. A passageira responde, à 0h54: “Pix.”
Na sequência, ele questiona: “Tá em dinheiro?”. Por volta de 1m7s na gravação, o motorista pergunta: “Você é a [adolescente]? Ou é a sua mãe?”. A passageira responde: “Não, eu ponho ela (a mãe).”
Mais a frente no diálogo, a passageira questiona o motorista: “Você consegue jogar para a próxima”. O motorista responde: “Sem chance, já estou com quatro pendências já, eu tomei quatro calotes já. Não tem nem como. Por causa disso que eu perguntei, entendeu?”.
Na sequência, às 15m59s, o motorista complementa: “Se jogasse na realidade, eu teria cancelado lá e tudo certo. Porque eu teria cancelado sem problema nenhum”.
Na parte final da gravação, o motorista tenta confirmar o local de parada e pede que a passageira chame a mãe para resolver o pagamento. Às 17m48s, ele pergunta: “Qual o seu nome? Tá conversando com sua mãe”. Depois, às 17m59s, questiona: “Qual casa que é?”
Às 18m02s, o motorista pergunta sobre o destino: “O portãozinho de prata ali?”. A passageira responde: “Isso aqui?”.
Por volta de 20m08s, o motorista diz: “Faz o seguinte, deixa o celular aqui comigo aqui, entra lá, chama sua mãe pra fazer o pagamento da corrida.”
Às 20m20s, ele afirma: “A corrida é que você paga, porque, ó, aqui, ó, vou mostrar pra você que não é KO, ó. Tudo é passageiro que não paga. Tudo é pra saber que não paga. Aí, fica essa palhaçada aí.”
Logo depois, às 20m30s, o motorista reforça a cobrança: “É por isso que eu tô perguntando antes. Qual é a forma de pagamento? É dinheiro? É Pix? Eu vou pedir pra jogar pra próxima”.
Às 20m37s, ele diz: “Então, faz favor, desce do carro que eu não trabalho dessa forma.”
Aos 21m09s, o motorista menciona a delegacia: “Então, eu vou deixar você na delegacia lá.” A passageira questiona: “Pra quê, delegacia, não?”.
Na sequência, às 21m14s, o áudio registra tensão dentro do carro. O motorista diz: “Você vai machucar, você vai machucar.” A passageira responde: “Então, para”.
O motorista fala: “Corrida tá sendo gravada. Corrida tá sendo gravada. Corrida tá sendo gravada.”
Neste momento, a adolescente pula do carro em deslocamento
Depois, por volta de 21m47s, já em diálogo com terceiros, o motorista encontra um outro motorista de uma Van, que possivelmente estava atrás dele no trânsito e diz: “Ó, vem cá, vem cá. Baixa o vidro.”
Às 21m55s, ele afirma para o outro motorista: “Eu sou motorista de aplicativo, tá? Ela não pagou a corrida e saiu correndo do carro. Não é sequestro, não é nada”.
Por volta de 22m05s, o motorista volta a negar crime: “Entendeu? A mina é pilantra. Eu sou motorista de aplicativo, não sou sequestrador, não sou nada. Beleza?”.
Depois do diálogo, o motorista da Van segue o trajeto e vai embora.
A versão apresentada pela defesa sustenta que a conversa dentro do carro tratava de pagamento, pendência anterior, valores da corrida, supostos calotes e eventual ida à delegacia por falta de pagamento. Não há também outras adolescentes no carro como mencionado no boletim de ocorrência.
Nos trechos da gravação acessados pela reportagem, não aparece a fala de teor sexual atribuída ao motorista no boletim de ocorrência. A análise completa do áudio, sua integridade e o confronto com os depoimentos cabem à Polícia Civil e eventual perícia no material.
O novo material não encerra a investigação, mas cria uma divergência objetiva entre a versão registrada no BO e a versão apresentada pela defesa.
O BO registra que a representante da adolescente procurou a Polícia Civil depois que a filha chegou em casa chorando e abalada emocionalmente. Segundo o documento, a adolescente relatou ter solicitado um carro de aplicativo no Parque da Cidade, em Jacareí, para voltar para casa com duas amigas.
Ainda conforme o boletim, depois de deixar as amigas no bairro Bela Vista, o motorista seguiu para o Jardim Maria Amélia. A versão registrada afirma que, perto da casa da adolescente, houve discussão sobre pagamento e que o motorista teria feito uma fala de conotação sexual.
O BO informa que a adolescente pulou do carro em movimento, sofreu escoriações no joelho, nas costas e no braço e ficou escondida em um matagal até se sentir segura para retornar para casa.
Na segunda edição, o boletim passou a enquadrar a ocorrência como crime tentado de favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual de vulnerável.
O próprio registro afirma que a análise foi feita em cognição sumária, ou seja, de forma preliminar, com base nos elementos disponíveis naquele momento. O BO também registra que o entendimento pode ser reavaliado se surgirem novos elementos, como imagens, oitivas, diligências complementares ou outros dados durante a investigação.
O advogado Jorge Cespedes, que representa o motorista de aplicativo, afirmou que a defesa aguarda a conclusão da investigação e nega a acusação de assédio sexual durante a corrida.
Em nota, o advogado declarou: “A defesa do motorista aguarda confiante que a falsa acusação de assédio sexual durante corrida de aplicativo será rapidamente encerrada com a plena comprovação de sua inocência”.
Cespedes também afirmou: “Os responsáveis pela falsa acusação irão responder na Justiça pelo ato de covardia”.
A Polícia Civil deve confrontar a gravação da corrida com a versão do BO, os depoimentos da adolescente, da representante, do motorista e das amigas que estavam no veículo no início do trajeto.
Também podem ser analisados dados da plataforma, rota da corrida, histórico de pagamento, mensagens, localização, eventuais câmeras no trajeto e a íntegra do áudio apresentado pela defesa.
Até a conclusão da apuração, o motorista é tratado como investigado. O boletim informa que não houve flagrante.