A trajetória da artista visual Pàulla Scàvazzini começou muito antes das galerias de Nova York (EUA), dos convites internacionais e da repercussão no The New York Times, o maior jornal do mundo.
Essa história começou em uma sala simples de pintura no Tênis Clube de São José dos Campos, entre tintas, telas e colegas décadas mais velhas do que ela.
Clique aqui para fazer parte da comunidade de OVALE no WhatsApp e receber notícias em primeira mão. E clique aqui para participar também do canal de OVALE no WhatsApp
Hoje, aos 35 anos, a joseense vive um dos momentos mais importantes da carreira. Em maio, ela abriu três exposições simultâneas: duas em Nova York — uma delas destacada nas páginas do The New York Times — e outra no Rio de Janeiro.
O reconhecimento internacional reforça o crescimento de uma artista que encontrou na pintura um caminho de transformação pessoal e que agora projeta o nome de São José dos Campos no cenário global da arte contemporânea.
“Tenho vontade de contar essa trajetória para São José dos Campos, porque foi nessa cidade que comecei a pintar. Tenho um carinho muito grande pela minha cidade natal”, afirmou Pàulla a OVALE.
A principal exposição internacional acontece na Kaliner Gallery, em solo nova-iorquino, com a mostra “Between Utopias and Abyss” (“Entre utopias e abismos”), dividida com a artista americana Austin Fields e curadoria de Maryana Kaliner.
Em cartaz até 31 de maio, a mostra reúne telas e intervenções de grandes dimensões que transformam flores, folhas e vasos em gestos abstratos carregados de intensidade.
“É uma pintura muito gestual, que nasce do caos que estamos vivendo em meio às crises sociais e ambientais e culmina em atmosferas vaporosas e luminosas, entregando um pouco de esperança, uma luz no fim do túnel”, resume Pàulla.
Além da mostra na galeria nova-iorquina, ela também esteve na residência artística, trabalhando em estúdio na Residency Unlimited, em parceria com a Art Inbrackets.
Paralelamente, inaugura no dia 27 de maio uma exposição individual no Centro Cultural Correios, batizada de “Língua de Fogo” e com curadoria de Shannon Botelho.
Pàulla Scàvazzini e suas obras / Érika Garrido
A relação de Pàulla com a arte começou cedo. Ainda criança, ela já demonstrava paixão por desenhos e pinturas. Mas foi aos 11 anos, em um momento delicado da vida, que a arte passou a ocupar um espaço decisivo.
Ela perdeu o pai quando tinha apenas um mês de vida e cresceu muito próxima da mãe. Na pré-adolescência, começou a enfrentar dificuldades emocionais e acabou sendo encaminhada para terapia. Foi ali que recebeu um conselho que mudaria sua vida.
“A terapeuta falou para minha mãe: ‘Coloca essa menina numa aula de pintura’. Em pouco tempo parece que ligou uma chave dentro de mim”, relembra.
As aulas aconteciam no Tênis Clube de São José dos Campos, com a professora Patrícia Bissoli. Enquanto os colegas da escola frequentavam esportes e outras atividades, Pàulla mergulhava nas tintas e pincéis.
Ela era a mais jovem da turma. As outras alunas tinham cerca de 70 anos.
“Eu era a mascote da sala. Adorava aquele ambiente, o café açucarado no intervalo, as conversas, o silêncio da pintura. A tinta, o gesto, a mistura das cores me davam muita paz”, conta.
As aulas seguiam uma linha acadêmica tradicional, com pinturas de flores, paisagens e reproduções clássicas. Mesmo distante do estilo abstrato que desenvolveria anos depois, foi ali que surgiu a base técnica e emocional da artista.
Aurora (2022), de Pàulla Scàvazzini / Guilherme Pucci
Ao terminar o ensino médio, Pàulla decidiu seguir inicialmente o caminho da arquitetura. Passou na primeira lista da Universidade Presbiteriana Mackenzie, uma das instituições mais tradicionais do país.
Mas a experiência não durou muito.
“Eu odiava a parte estrutural. Os professores achavam as minhas maquetes lindas, criativas, mas os carrinhos não passavam dentro delas”, brinca.
Depois de dois anos, ela trancou o curso e ingressou em Artes na FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). A mudança redefiniu completamente sua vida profissional.
“Eu amava acordar cedo para ir à faculdade. Aula de pintura, vídeo, fotografia, história da arte, filosofia... Finalmente eu estava no lugar certo.”
Formada em bacharelado e licenciatura, chegou a dar aulas em escolas públicas e particulares por um período. Também prestou concurso público para professora e foi aprovada. Mas, justamente naquele momento, surgiu uma oportunidade internacional que mudaria novamente o rumo da carreira.
Montanha que escorre (2022), de Pàulla Scàvazzini / Everson Verdião
Pàulla foi selecionada para a Cité Internationale des Arts, uma das residências artísticas mais concorridas da França.
O programa oferecia moradia, ajuda de custo e estrutura para artistas desenvolverem pesquisas durante seis meses em Paris. Lá, ela mergulhou em um estudo sobre pinturas rupestres e percorreu cavernas históricas no interior francês.
A experiência internacional ampliou não apenas sua produção artística, mas também seu olhar sobre o mundo. “Convivi com artistas do mundo inteiro. Foi transformador.”
Os trabalhos produzidos durante a residência foram apresentados tanto em Paris quanto no Museu de Arte Brasileira da FAAP, em São Paulo, onde os seus trabalhos encontram-se no acervo.
Depois vieram novas residências e exposições em Lisboa, Paris e Nova York. Aos poucos, a artista passou a integrar galerias, participar de feiras e consolidar sua presença no mercado de arte contemporânea.
O cavalgar do Sol (2025), de Pàulla Scàvazzini / Guilherme Pucci
O trabalho de Pàulla passou por uma transformação profunda nos últimos anos. Se antes a pintura era mais figurativa, hoje ela se aproxima da abstração total.
Tudo começou após a pandemia, quando a artista iniciou uma série obsessiva de vasos de flores. “Percebi que meu interesse não estava no vaso em si, mas na potência dos gestos que as folhas, pétalas, caules e cores podiam dar para a pintura.”
Ela chama o processo de “explosão floral”. As flores foram sendo desconstruídas, esgarçadas visualmente, até se transformarem em grandes gestos abstratos que ocupam paredes, telas e pisos.
Suas obras hoje dialogam diretamente com arquitetura e espaço. Em Nova York, por exemplo, ela criou intervenções pensadas especialmente para o ambiente da galeria, expandindo as pinturas para além da tela tradicional.
“Meu trabalho como artista começou nas telas e está cada vez mais atravessando essas superfícies e indo para as paredes e para o chão”, conta.
“Eu pinto com a tela deitada sobre o chão. Muitas vezes nem consigo ver completamente o que está surgindo. É quase como registrar uma dança através das pinceladas”, descreve.
A própria artista define o processo como uma espécie de “psicografia pictórica”, marcada por gestos impulsivos, movimentos corporais e intensa carga emocional.
Pàulla Scàvazzini / Érika Garrido
Mesmo vivendo em São Paulo e circulando pelo exterior, Pàulla mantém uma relação afetiva forte com São José dos Campos. A cidade continua sendo vista por ela como o lugar onde tudo começou. “Foi São José que me colocou nesse caminho.”
A artista acredita que o município ainda pode crescer muito na área cultural, especialmente em museus, galerias e espaços voltados à arte contemporânea. E garante que deseja realizar uma exposição na cidade natal assim que surgir a oportunidade ideal.
“Está no meu radar fazer uma exposição em São José dos Campos. Vontade não falta.”
Enquanto esse momento não chega, a joseense segue ocupando galerias internacionais, ampliando fronteiras e transformando pinceladas em paisagens abstratas que carregam, mesmo à distância, a explosão floral com cores e formas de uma primavera no Vale do Paraíba.
Enquanto esse momento não chega, a joseense segue ocupando galerias internacionais, ampliando fronteiras e transformando pinceladas em paisagens abstratas marcadas por sua ‘explosão floral’, inspirada nas cores e formas de uma primavera no Vale do Paraíba.
Pàulla Scàvazzini / Érika Garrido