Exploradores na época do Brasil Colônia procuravam um lugar lendário de ouro, sonho dos aventureiros: uma cidade dourada no que hoje conhecemos como o Vale do Paraíba. Esse mítico lugar era chamado de Sabarabuçu.
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Ele aparece na história do mais antigo caminho do ouro do Brasil, criado antes mesmo do surgimento da Estrada Real, e que corta a nossa região.
A partir de Paraty, no Rio de Janeiro, o caminho passava pelo Campo da Aparição, Encruzilhada, Abóboras e Itacuruçá (Região do Facão, hoje Cunha), Catioca (Lagoinha), Pedra Grande, Sete Voltas até o rio Una (Taubaté), seguindo para o rio Paraíba até atingir a Garganta do Piracuama, vencendo em seguida a Serra da Mantiqueira e chegando à lendária Sabarabuçu.
Essa reportagem integra o projeto especial Taubaté#400, desenvolvido por OVALE, com apoio institucional da Prefeitura de Taubaté. Veja a apresentação do projeto nesse link.
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Essa aventura envolve o inglês Antony Knivet, no século 16, além de um naufrágio e a descoberta de riquezas que mudaram a história brasileira.
Segundo o historiador Angelo Rubim, do Almanaque Urupês, em 1591 o aventureiro Antony Knivet embarcou na pior missão da sua vida, dar a volta ao mundo com o pirata Thomas Cavendish. A jornada partiu da Inglaterra e foi marcada por ataques, pilhagens, acidentes e fracasso.
Knivet, talvez o maior azarado do mundo, contou tudo. Viveu quase sempre à beira da morte, foi abandonado todo estropiado em Ilhabela, capturado, escravizado e condenado à morte, mas sobreviveu.
E em 1596, ele acabou participando de uma expedição que saiu de Paraty em busca da lendária Sabarabuçu. Apesar de parecer improvável, suas desventuras descrevem aquele caminho com riqueza de detalhes.
Quatrocentos anos depois, a paleógrafa e pesquisadora Lia Carolina Mariotto refez seus passos. Vasculhando documentos antigos, ela confirmou: o território de Taubaté abriga a mais antiga rota de transportes de ouro do Brasil.
“Ela já tinha detectado na literatura, na historiografia, citações a um antigo caminho do ouro, mais antigo que a estrada real. E ela falou: ‘Poxa vida, será que eu estou olhando esse caminho’”, disse Angelo.
“O que fortaleceu essa desconfiança foi o relato do aventureiro inglês que veio para o Brasil. Nesse percurso que ele fez, foi tão detalhista que vai descrevendo esse percurso que vai bater exatamente com a documentação que a Lia localizou há 20 anos.”
Pesquisas realizadas nas últimas décadas revelaram que o Vale do Paraíba abrigava um caminho mais antigo que a rota oficial da Coroa Portuguesa — uma trilha aberta ainda no século 16 e usada para transportar ouro de Minas Gerais até Paraty, no litoral fluminense, de onde seguia em navios rumo a Portugal.
A descoberta do chamado Antigo Caminho do Ouro Paulista colocou Taubaté novamente no centro da História do Brasil e reacendeu debates sobre o protagonismo da cidade no ciclo do ouro, um dos períodos mais importantes da formação econômica do país.
A pesquisa ganhou força a partir de 2008, quando a paleógrafa Lia Mariotto, após três décadas de trabalho no Arquivo Histórico de Taubaté, encontrou referências ao antigo caminho em documentos do século 17.
Ao analisar inventários, testamentos e registros de sesmarias, Lia percebeu que existiam menções constantes a uma rota usada antes mesmo da consolidação da Estrada Real.
“Nunca tinha estudado sobre uma estrada anterior ao caminho velho. Imaginei que teria alguém passando por lá, pois não teria razão uma estrada sem trânsito”, afirmou a pesquisadora em seus estudos.
A partir dos documentos, Lia reconstruiu no mapa moderno a antiga ligação entre Paraty e Taubaté. Segundo ela, o caminho começou a ser utilizado em 1596, décadas antes da fundação oficial da Vila de São Francisco das Chagas de Taubaté, em 1645.
O trajeto aproveitava antigas trilhas indígenas e cortava áreas rurais de Cunha, Lagoinha, Taubaté e Pindamonhangaba. Era por ali que o ouro vindo das minas seguia até o litoral.
O pesquisador Pedro Rubim, do Almanaque Urupês, afirma que o caminho representa um dos capítulos mais importantes da história colonial brasileira.
“Portugal procurou ouro por cerca de 200 anos. A notícia que a Coroa queria ouvir veio a partir de Taubaté. Foram os taubateanos que informaram ao governador do Rio de Janeiro que as minas haviam sido encontradas”, explicou.
Segundo Pedro, o papel estratégico da cidade transformou Taubaté em uma espécie de posto avançado português no interior do Brasil.
“O ouro saía das Minas de Taubaté, como era chamado na época, passava pela Casa de Fundição instalada na cidade e descia até Paraty. Dali seguia para o Rio de Janeiro e depois para Portugal”, disse.
A Casa de Fundição funcionava próxima da atual Praça do Convento Santa Clara. No local, o ouro era registrado e tributado antes de seguir viagem.
O pesquisador lembra ainda que a descoberta das minas alterou completamente os rumos da colônia portuguesa.
“Esse foi o primeiro momento em que Taubaté mudou efetivamente a história do país. O ciclo do ouro transformou a economia brasileira e a cidade esteve no centro desse processo”, afirmou.
A confirmação prática veio em fevereiro de 2006, quando a paleógrafa Lia Mariotto fez o percurso pela primeira vez, com apoio da Polícia Ambiental. Com cerca de 120 quilômetros, o antigo trajeto entre Paraty e Taubaté já estava confirmado, mapeado e pontuado.
Depois houve uma expedição patrocinada pela Polícia Ambiental, Unitau, Olavo Bilac, Câmara Municipal e Almanaque Urupês, que mais uma vez fez registros. A professora Lia também participou dessa jornada.
Outra expedição trilhou o caminho antigo com pesquisadores, guias e produtores culturais. A viagem foi liderada pelo guia Silésio Francisco Tomé e pela produtora cultural Cláudia Perroni. Durante três dias, o grupo atravessou estradas rurais, serras, fazendas históricas e antigas trilhas coloniais.
Hoje, mais de quatro séculos depois das primeiras expedições, a antiga trilha do ouro segue viva entre montanhas, bairros rurais e estradas de terra do Vale do Paraíba.
E, aos poucos, Taubaté volta a reivindicar um lugar que, segundo historiadores e pesquisadores, jamais deveria ter sido esquecido: o de cidade que ajudou a mudar os rumos da história do Brasil.