Existe um endereço em São José dos Campos onde o tempo passa diferente. Ele tem uma escada conhecida e uma sala aconchegante e cheia de memórias afetivas. Ali atende um médico que aprendeu que ouvir o paciente pode ser mais poderoso do que qualquer exame.
Aos 68 anos, o médico homeopata João Manuel Faria Simões de Carvalho Maio comemora um marco raro: 34 anos de consultório na cidade — exatamente metade da própria vida. A data é celebrada nesta terça-feira (12).
“Eu tinha 34 anos quando comecei aqui. A cidade cresceu, eu cresci junto”, resume ele, com a tranquilidade de quem viu São José dos Campos saltar de 455 mil para mais de 700 mil habitantes nestas três décadas.
Hoje, ele olha para trás e percebe que sua trajetória se entrelaça com a própria evolução da cidade, atendendo gerações inteiras de pacientes que passaram pela mesma cadeira de consulta.
Mas a história de João não começou com jaleco. Antes de se tornar médico, ele navegou — literalmente. Foi oficial da Marinha Mercante e percorreu rotas entre África, Oriente Médio e Europa.
Em uma dessas viagens, um episódio marcante ajudou a mudar seu rumo: uma tentativa frustrada de salvar um colega durante uma emergência médica a bordo, uma parada cardiorrespiratória. “Ali percebi que precisava seguir outro caminho”, lembra. “Aquilo me abalou profundamente. Percebi que queria estar mais preparado para cuidar das pessoas.”
Veio então a aviação, como comissário de bordo da Varig, e, finalmente, a medicina — um sonho antigo que ganhou força. “Desde pequeno eu queria ser médico, mesmo sem referências na família”, disse João Manuel.
Os trabalhos na Marinha Mercante e na aviação ajudaram o médico a consolidar o seu aprendizado em línguas estrangeiras. Poliglota, João Manuel fala inglês, francês, espanhol e italiano, entende o alemão e também fala esperanto.
O sonho da medicina se realizou em 1987, quando ele se formou médico pela Escola de Medicina e Cirurgia, no Rio de Janeiro, se especializando em clínica médica e homeopatia.
A chegada ao Vale do Paraíba, em 1991, foi quase um acaso — ou, como ele prefere dizer, uma “pescaria bem feita”. Um amigo fez o convite, um diretor de hospital completou o convencimento, e João Manuel passou a viver entre ônibus, plantões e a rodovia Presidente Dutra. “Teve uma época em que eu dizia que morava na Dutra”, brinca.
Um ano depois, em 1992, abriu o consultório na Vila Ema, na região central de São José dos Campos, onde permanece até hoje. Um dos cômodos do consultório chegou a servir como quarto improvisado. Com o tempo, o espaço cresceu, assim como a clientela e a reputação.
Mais do que números, o que João Manuel coleciona são histórias. E algumas atravessam gerações. “Hoje atendo avô, filho e neto. O consultório deixou de ser meu. Ele virou parte da história das famílias”, conta.
Entre os casos mais marcantes está o de um paciente que sobreviveu à bomba atômica de Hiroshima. “Isso mostra que a clínica também é um pedaço da história do mundo”, diz o médico.
Ele acompanhou mudanças profundas na medicina: prontuários deixaram o papel, exames migraram para telas de celular e diagnósticos ficaram mais rápidos.
Apesar das mudanças tecnológicas — dos tempos em que conseguir um raio-X era um desafio até a era dos exames no celular —, ele acredita que o essencial permanece intacto. “A cidade ficou mais rápida, mais ansiosa. Mas o que cura ainda é o olho no olho.”
No consultório, o silêncio também é ferramenta. “É quando o paciente para de responder perguntas que ele começa a revelar o que realmente importa.”
Essa visão mais ampla da medicina o levou a explorar diferentes áreas ao longo da carreira. Ao perceber a relação entre doenças, passou a integrar conhecimentos de cardiologia, endocrinologia e tratamento da obesidade, muito antes de o tema ganhar destaque. “Sempre achei que não dá para tratar só a doença. É preciso entender o todo.”
A trajetória de João Manuel vai além da medicina. Ele já foi candidato a deputado federal pelo Partido Verde -- “quando o partido cabia numa Kombi” --, como gosta de lembrar.
Também presidiu a sigla na cidade, foi diretor cultural da FCCR (Fundação Cultural Cassiano Ricardo) e mantém atuação ativa em conselhos e entidades médicas.
Rotariano há quase três décadas, já presidiu clubes por três vezes. E, fora da rotina médica, cultiva paixões que vão de história a carros antigos, sendo sócio de clubes de colecionadores de automóveis. “Gosto de entender como as coisas funcionam. Seja um motor de carro ou um fato histórico.”
Atualmente, João Manuel é representante da APM (Associação Paulista de Medicina) São José dos Campos junto ao COMUS (Conselho Municipal de Saúde) da cidade. Também foi diretor social da APM São José dos Campos.
O médico ainda é membro da SOBRAMEX (Sociedade Brasileira de Médicos Executivos) e de outras entidades e sociedades, como APH (Associação Paulista de Homeopatia), SBCM (Sociedade Brasileira de Clínica Médica), SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes), SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), ABEMSS (Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Sexual) e SOCESP (Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo).
E faz parte dos Amigos do Fusca de Jacareí, do AMICAR, ex-sócio do Jeep Club e do Comando da Mantiqueira.
Casado com a médica Rogéria Eliane Araújo Maio desde 1995, ele é pai de duas filhas e avô de três netas. Foi justamente a família que o fez reduzir os plantões e se dedicar mais ao consultório.
“Uma vez minha filha disse que eu nunca tinha passado um Dia dos Pais com ela. Aquilo pesou”, relembra. A partir dali, decidiu reorganizar a vida.
Parar de trabalhar, por enquanto, não está nos planos. “Enquanto eu tiver perna pra subir essa escada e cabeça pra estudar o caso do dia anterior, eu continuo.”
Depois de três décadas e meia, ele resume a própria filosofia em uma frase simples: “Tecnologia é ferramenta. Cuidado é relação.”
E assim, entre histórias, escutas e gerações, João Manuel Maio segue — não apenas como médico, mas como um capítulo vivo da história de São José dos Campos. E, pelo visto, essa relação ainda tem muitos capítulos pela frente.