04 de maio de 2026
PROTESTO EM SÃO JOSÉ

Unesp SJC: já são 10 denúncias de assédio e abuso sexual

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 5 min
Xandu Alves/OVALE
Ato contra assédio na Unesp em São José dos Campos

Após OVALE revelar na última semana denúncia de aluna da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de São José dos Campos, que afirma ter sido estuprada por um professor da instituição em 2023, cerca de 10 casos de abuso sexual envolvendo docentes da instituição foram relatados em São José. Os casos estão ligados ao curso de Odontologia e vêm ocorrendo nos últimos anos.

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Na tarde desta segunda-feira (4), cerca de 200 estudantes da Unesp de São José realizaram uma manifestação no campus da Odontologia, na região central da cidade, cobrando da universidade investigação e punição rigorosa aos casos de abuso. Os alunos vestiram-se de preto em protesto.

Segundo organizadores do ato, cerca de 10 casos foram relatados após vir à tona a denúncia da estudante Carolina Ferreira, de 21 anos, que relatou ter sido vítima de estupro por um professor em 2023, quando tinha 18 anos.

Segundo ela, o crime teria ocorrido após aceitar uma carona oferecida pelo docente. Ela ainda disse que passou a sofrer ameaças após o episódio.

“Chegou a mostrar fotos da minha família no celular dele, dizendo que sabia quem eram e que, se eu falasse alguma coisa, teria consequências”, relatou.

Denúncias de abuso na universidade

Após a denúncia de Carolina, alunas relataram episódios de professores que teriam tocado nelas de forma não consentida, incluindo apalpadas e toques em áreas íntimas, por dentro de roupas. Também denunciaram casos de assédio moral.

“Não é um professor, tem mais de um professor nessa faculdade que faz esse tipo de coisa”, afirmou uma aluna vítima de abuso.

“Sempre começa com uma brincadeira de mau gosto. Às vezes, a pessoa vai caminhando devagar, comendo pelas beiradas, até chegar e agir da forma que agiu [como no caso da Carolina]”, disse outra estudante.

“A gente percebe que é um comportamento comum, infelizmente, nas universidades. Porque as pessoas são concursadas, tem toda essa questão de elas estarem respaldadas por um concurso, não podem ser desligadas rapidamente. E a Unesp também acaba encobrindo esses casos, ela não fornece ajuda necessária e por isso nós estamos aqui nesse ato para que realmente esse professor seja não só afastado, mas que ele seja desligado da Unesp”, disse um aluno da organização do ato em São José.

Alunas criticam impunidade

Estudantes da universidade disseram que os casos de abuso estão ocorrendo em São José em razão da impunidade.

“Tive uma situação em que fui questionar o professor sobre o que estava acontecendo, e ele me disse que a corda iria arrebentar para o lado mais fraco, que era o meu. Então, é quando a pessoa tem essa sensação de impunidade. Isso a leva para frente em outras situações [de abuso]”, afirmou uma estudante da Unesp de São José.

“Isso vem acontecendo nesses últimos tempos, a partir de um caminho que a pessoa vai trilhando por ter aquela certeza de que poderia fazer porque ninguém vai punir, porque nada vai acontecer com ela [abusador], e foi assim.”

“Acho que esse é o grande problema. A sensação que a pessoa tem de estar impune, de que ela sabe que pode fazer o que ela quiser, é isso que que dá essa liberdade. Quantas pessoas aqui não passaram por coisas parecidas?”, disse outra aluna.

Durante a manifestação, alunos cobraram que os casos sejam criminalizados e os abusadores, punidos.

“Tem que ter alguma atitude que criminalize de fato esses casos, porque são crimes. Não vejo ninguém da direção [aqui no ato]. Apoiar não é só escrever uma carta falando que apoia, que solidariza, chamar o DA para conversar, ter uma reunião particular.”

O que diz a Unesp

Procurada por OVALE, a direção do ICT (Instituto de Ciência e Tecnologia, Campus de São José dos Campos da Unesp, informou que tem acompanhado, “com atenção e responsabilidade”, as manifestações organizadas por estudantes, motivadas por relatos de situações de assédio.

“Reiteramos, de forma enfática, nosso firme repúdio a qualquer forma de assédio e reafirmamos o compromisso permanente com a promoção de um espaço acadêmico seguro, respeitoso e acolhedor para toda a comunidade”, diz a nota da Unesp.

“Solidarizamo-nos com todas as pessoas que possam ter vivenciado situações de desrespeito e abuso. Informamos que a Universidade dispõe de canais institucionais adequados para acolhimento, orientação e encaminhamento dessas ocorrências, garantindo tratamento com sigilo, imparcialidade e possibilidade de anonimato.”

A universidade informou que as denúncias podem ser formalizadas por meio da Ouvidoria Geral da Unesp, Ouvidoria Local e Direção da Unidade.

“Desde o último dia 30 de abril, a Direção do ICT já providenciou a abertura de dois Processos de Apuração Preliminar (PAD) para averiguação dos episódios que tiveram registro na Ouvidoria”, informou a instituição.

“Ressaltamos que todos os casos devidamente registrados são apurados, em conformidade com as normas institucionais e a legislação vigente, com a adoção das providências cabíveis. No âmbito do acolhimento, a Universidade disponibiliza suporte por meio de seus programas institucionais e conta com equipes técnicas capacitadas para atendimento presencial. No entanto, se não houver a formalização da denúncia, a Universidade não dispõe de meios para apurar institucionalmente os episódios narrados”, completou.

Sobre as manifestações dos estudantes em São José, a Unesp reconheceu “o direito legítimo de expressão e mobilização”.

“Destacamos, contudo, a importância de que esse momento seja conduzido com serenidade e respeito. A Universidade é, acima de tudo, um espaço de diálogo e formação cidadã. A Direção do ICT permanece à disposição para informações adicionais, reiterando seu compromisso com a integridade, o respeito mútuo e a convivência ética”, concluiu a universidade.