03 de maio de 2026
GASTRONOMIA & LETRAS

De SJC a Paraty: chef Ana Bueno põe sabor em livro de histórias

Por Xandu Alves | Paraty (RJ)
| Tempo de leitura: 13 min
Divulgação
Chef Ana Bueno

O sabor das palavras.

Acostumada a criar pratos misturando as culinárias caiçara e caipira, ligando Paraty ao Vale do Paraíba, a chef Ana Bueno se aventurou pelo mundo das letras e lança o livro ‘ParatyAnas, crônicas escritas ao pé do fogão’.

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Deliciosa em suas histórias, fotos e receitas, a obra conta a trajetória empreendedora e aventureira de Ana Bueno, que trocou São José dos Campos por Paraty há mais de 30 anos e hoje administra três restaurantes, além de outros negócios ao lado do marido e dos filhos.

O livro foi lançado na Casa da Cultura de Paraty, em 4 de abril, juntamente com a abertura da exposição “Do mar ao sertão – matrizes da gastronomia paratiense”, mostra produzida pela equipe da Casa da Cultura.

Baseada e inspirada no livro de Ana Bueno, a exposição traz diversos estímulos aos visitantes, como cheiros, sons e visuais. A mostra segue aberta ao público até 30 de maio.

A chef e escritora também vai lançar o livro em duas unidades da Livraria da Travessa: no Rio de Janeiro, em 8 de maio, e na de Pinheiros, em São Paulo, em 14 de maio. Ana Bueno está em conversas finais para lançar a obra em São José dos Campos.

O livro

‘ParatyAnas, crônicas escritas ao pé do fogão’ nasceu da vontade de Ana Bueno em registrar, primeiro, seus fornecedores, os lugares de onde vêm os ingredientes que ela usa em suas receitas nos restaurantes Banana da Terra, Café Paraty e Casa Paratiana.

“Eu sempre tive uma conexão muito forte com os fornecedores, que são os meus amigos, são as pessoas que eu convivo. O livro mostra isso, ele revela assim de uma forma muito simples, essa amizade, essa relação que eu tenho com o território. Eu queria mostrar isso”, explica Ana Bueno.

No entanto, a proposta de revelar as raízes, as matrizes gastronômicas e de onde vem a origem do produto acabou ganhando outras ideias a partir das viagens que Ana Bueno fez para escrever o livro.

“Vi que não era só isso que eu tinha para falar. Eu sempre gostei muito de escrever, só que nunca pensei que ia consegui escrever um livro. Até porque eu faço coisa para caramba. Só que daí o projeto teve uma reviravolta, e eu falei: ‘Meu, tem que botar isso no papel’.”

Ana Bueno também fala de São José dos Campos, onde nasceu e viveu até os 17 anos, para depois se aventurar por Paraty, cidade com a qual ela se apaixonou, conheceu seu marido, se casou e teve três filhos. Aos 55 anos, a chef já tem um netinho. “Eu me encantei com o lugar e bati o pé, e vim. E fiquei”, diz.

Em entrevista a OVALE, Ana Bueno fala da ida para Paraty, os primeiros trabalhos em comunicação no litoral, como se tornou chef de cozinha, a mistura da gastronomia caiçara de Paraty com a caipira do Vale do Paraíba e de seus projetos.

Ela também conta detalhes da produção do livro, que traz o sabor da cozinha de Ana Bueno em cada palavra impressa. Confira a entrevista na íntegra.

 

Você é de São José dos Campos?

Eu nasci em São José, no dia de São José. Dia 19 de março, dia do Santo. E minha família é daí. Tenho parentes, tudo. E depois eu vim morar em Paraty, bati aqui com 17 anos. Eu me encantei com o lugar e bati o pé, e vim. E fiquei.

 

Você tem formação em gastronomia? Você é chef formada?

Eu sou chef e eu, na verdade, comecei autodidata com a minha sogra. Na verdade, eu estava trabalhando numa TV aqui [em Paraty], que estava fazendo jornalismo até. Aí a minha sogra, que ainda não era minha sogra, mas o meu namorado estava abrindo um restaurante e eu já gostava de cozinhar. Ela me chamou para ficar com ela na cozinha, a minha sogra. E aí a gente começou o Banana da Terra começou assim, há 32 anos.

Só que depois de um tempo eu senti falta, eu achava que precisa melhorar e, enfim, eu fui em busca de estudo na área de gastronomia, mas na época não tinha nem faculdade de gastronomia no Brasil. Então, eu fiz alguns cursos fora.

Eu fiz um curso na Itália, na França, depois eu fiz todos os módulos com o chef Laurent Suaudeau em São Paulo na escola dele, a Escola de Artes Culinárias Laurent Suaudeau. Bom, e também a prática, muita prática. Porque eu acho que a escola é importante, mas estar na cozinha e fazer é que ensina mesmo.

 

Quando você saiu de São José, com 17 anos, você pensava numa carreira?

Eu estudei no Instituto São José, lá no Centro. Estudei ali numa escola que era Instituto Auxiliadora, depois fui para o São José. Eu saí da escola e vim para Paraty. Fiquei assim, tinha acabado o segundo grau e vim meio na aventura. Não vim pensando em nenhuma carreira, não. Vim pensando o que eu vou fazer para viver para ter minha independência em Paraty. E comecei aqui a trabalhar como garçonete, fazia tudo que o que aparecia.

Até que apareceu essa oportunidade na TV. Teve um italiano que fez um baita de um investimento aqui em Paraty naquela época e montou uma TV, com tudo o que tinha de melhor, assim, de mais moderno. E aí teve uma seleção. Eles selecionaram moças e rapazes para fazer parte da equipe, jovens da cidade, e mandaram os caras para Cuba na escola de cinema, para cinegrafista, tal. E a maioria das repórteres eram mulheres, tinha até um apresentador e tal, mas a gente fez uma TV aqui. E foi assim que eu comecei a gostar. Eu não fiz faculdade de jornalismo e nem pensei que ia trabalhar com, mas é uma coisa que eu sempre gostei muito, de escrever e o jornalismo é uma coisa bacana.

 

Então você foi com a cara e coragem. Você foi para fazer sua independência e viver a sua vida, começar a sua vida.

É, e aí tive essa experiência na TV e aí, fazendo uma entrevista, durante uma entrevista, eu conheci o meu marido, entendeu? A família é daqui de Paraty. Eles tinham uma farmácia no Centro da cidade. Era a única farmácia que tinha no Centro. Só que nessa época foi quando começou a mudar um pouco a cidade de Paraty.

Nessa época começou a coisa do turismo, então os paratienses começaram a sair de dentro do centro histórico e fazer as suas casas ou vender ou fazer comércio. E aí a mãe dele queria fazer um restaurante. Eles decidiram fazer um restaurante. E aí eu fui trabalhar no restaurante junto com ela. Foi assim que começou o trabalho no Banana da Terra.

 

E por que Paraty? Alguma coisa específica?

Não, me encantei com o lugar. Essa era uma simplicidade, eu não sei, eu me encantei, não tenho explicação, não tem como falar isso, eu gostei demais daqui e eu quis ficar. É isso. E fui ficando. Estou aqui há 37 anos. Esse ano está fazendo 38 anos, na verdade, que eu estou aqui. Eu tenho três meninos, já tenho neto, já tenho um menino de 31, um de 28 e eu tive um temporão que tem 13 anos.

 

Como foi quando você voltou com a sua formação em gastronomia?

Na verdade, a minha sogra ela deixou o restaurante comigo e com o Casé, com meu marido, com o filho dela, depois de uns três anos. Ela saiu do restaurante e deixou o Banana com a gente. Foi aí que falei: "Meu, tem que me virar, tem que correr atrás de conhecer, ter mais independência, assim, autonomia para criar os pratos, para tocar isso aqui”. Então, fui estudar. E quando eu voltei, na verdade, eu já estava fazendo também alguns serviços de buffet. Então, eu fiquei com o Banana, fazendo buffet e eu também comecei a organizar uns eventos.

Então eu organizei durante 15 anos um evento de gastronomia aqui, trazia chefs, várias programações e tal. Bom, aí fiquei com o Banana, nisso o Casé também, meu marido, ele começou a fazer cachaça, aí a gente tem um alambique, que é a Paratiana.

E aí tem uns 6 anos, a gente abriu outro restaurante, chamado Café Paraty. E já vai fazer três anos que eu estou com um terceiro restaurante, que é a Casa Paratiana, inclusive eu sirvo aquela comida caipira, aquela comida daí de São José nesse restaurante, que é maravilhoso. Fica dentro do alambique. Tem bolinho caipira de São José. Tem porco na lata, tem feijão tropeiro, tem arroz caldoso de galinha caipira. Só coisa boa.

 

Como você descreve sua gastronomia? Você tem essa conexão com a tradição popular? E a conexão entre Paraty e o Vale do Paraíba?

Então, eu acho que já existe esse bem querer entre o Vale e o litoral aqui. Eu acho que tem uma conexão muito forte pelo caminho, porque Paraty foi caminho do café. Esse encanto que eu acho que todo vale-paraibano tem um pouco também. Então tem essa troca.

E existe essa amizade. Eu acho que tem uma conexão e também, porque eu acho que o caiçara é uma versão a beira mar do caipira. Eu ando muito por esses dois caminhos. Cada restaurante tem uma identidade. É que nem filho.

No Café Paraty, o cardápio é completamente diferente do Banana da Terra, que é totalmente diferente da Casa Paratiana. Mas todos têm um pouquinho de mim. Dentro das receitas, da escolha dos pratos e tal. Então, eu digo assim, o Banana, que é o mais velho, ele tem mais essa alma mais caiçara. Não é uma comida caiçara.

Eu digo que eu não faço comida caiçara, mas ele tem toda essa inspiração da cultura local. O Café Paraty é um restaurante um pouco mais popular, com uma comida simples, mas bem cuidada. Vamos dizer assim, aqueles pratos de casa que quando você está viajando de repente dá saudade de comer uma comida da minha casa. Tem lá.

E tem também a Casa Paratiana que eu acho que é bem a expressão da cozinha caipira que é essa cozinha. A cozinha da minha avó, é a comida que eu comi na minha infância em São José dos Campos, com todo aquele tempero, uma coisa maravilhosa. Eu tenho um xodó com a Casa Paratiana. Acho que é porque tem a ver com a minha origem também, sabe? E eu acho que eu faço muito bem, porque faz parte da minha formação. Então, eu adoro a Casa Paratiana, uma baita comida boa.

Tem uma historinha que eu conto, pequenininha, de que tinha um amolador de facas em São José dos Campos quando eu era pequena. Ele aparecia levando um carrinho e ele tocava uma gaita. No site tem o som eu assovio o som da gaita. É tão bonitinho e tem esse senhor, era um espanhol, meu pai falou que chamava Madeo Blanco e ele era afiador de facas em São José. Olha que legal. O site é paratianas.com.br.

Você é chef e seu marido é mais da administração? Como vocês fazem essa combinação?

Não, olha só, o caso é que somos sócios. Na verdade, eu que administro os restaurantes, todos são comigo. Eu tenho uma equipe. Hoje estou com bastante colaboradores, tem uma galera, tem 80 pessoas que trabalham comigo. Cozinha e administração e tal, aliás meu time de administrativo é só de mulher, viu? Tem uma mulherada, trabalha numa sala cheia de mulheres lá, superpoderosas.

Casé tem o alambique junto com o irmão, que também é sócio dele. Então, hoje a gente tem o Alambique Paratiana, que é lindão. Também é um lugar na beira da cachoeira. E a gente tem as lojas, porque dentro do alambique tem uma loja, mas na cidade nós temos três lojas que vendem cachaça, que a gente produz, mas também as cachaças de Paraty e cachaças do Brasil todo.

Então, o Casé fica mais nessa parte das lojas, na verdade. O Casé é da produção da cachaça. Ele que administra toda a compra da cana. Nosso filho já está alambicando, pega no pesado lá também.

 

Como surgiu a ideia de fazer o livro?

Então, na verdade, eu comecei pensando em registrar os meus fornecedores, os lugares de onde vinham os produtos, porque eu sempre tive uma conexão muito forte com esses que são os meus amigos, são as pessoas que eu convivo. O livro mostra isso, ele revela assim de uma forma muito simples, essa amizade, essa relação que eu tenho com o território. Eu queria mostrar isso.

A princípio ia ser um livro que ia revelar essa coisa, de raiz, de matrizes gastronômicas, da onde vem a origem do produto e tal. Só que quando a gente começou a fazer as viagens, eu vi que não era só isso que eu tinha para falar. E eu sempre gostei muito de escrever. Só que eu nunca pensei que ia consegui escrever um livro também. Até porque eu faço coisa para caramba. Não é só os restaurantes, estou sempre envolvida em projetos, em coisa social e tal. Só que daí o projeto teve uma reviravolta e eu falei: "Meu, tem que botar isso no papel".

E foi o primeiro livro que eu escrevi. Eu tive um baita editor bacana, uma pessoa muito legal que me acompanhou e também teve a Rose, que a princípio esse livro ia ser escrito por uma ghost writer para fazer a parte das matrizes. Só que daí, de repente, eu comecei a escrever e os textos foram fluindo, e eu vou te contar que é uma coisa que me fez muito feliz, sabe?

Mesmo que eu não tenha outros livros impressos, eu acho que eu preciso me dar de presente esse tempo e talvez escrever coisas novas, porque foi muito gostoso. Isso me trouxe muita alegria, ver que eu sou capaz de escrever coisas que emocionaram as pessoas, porque olha várias pessoas têm me dado um feedback: "Ana, nossa, que livro. Tão legal, tão gostoso, que bonito. Ah, me emocionei em tal parte".

Eu estava com medo danado, será que isso presta? E aí eu tenho um irmão que é professor de literatura brasileira há mais de 30 anos, é um cara super, assim, acadêmico. E aí eu, com muito receio, dei os manuscritos para ele ler. E ele, quando estava já para imprimir e tal, ele falou: “O livro está muito bem escrito”. Quando ele me falou isso, eu fiquei muito mais segura. Porque tinha também essa insegurança da parte técnica mesmo, de escrita. Eu acho que as pessoas estão gostando e eu fiquei muito feliz também de ter descoberto esse novo caminho. Mais um.

 

O livro já foi lançado?

Olha só que legal, no dia 8 de maio e no dia 14 de maio, eu vou lançar o livro na livraria Travessa do Rio de Janeiro (8/5) e de Pinheiros em São Paulo (14/5). Então, a gente vai ter os livros à venda. E olha, acho que eu vou lançar aí em São José dos Campos. Eu vou conversar com uma pessoa que do Shopping Vale Sul, tem uma livraria lá. Acho que a gente vai fazer o lançamento lá. Eu vou começar a conversar com ela.

 

E a exposição baseada em seu livro?

O livro inspirou uma exposição na Casa da Cultura de Paraty. A exposição se chama “Do mar ao sertão – matrizes da gastronomia paratiense”. É uma mostra que tem um monte de estímulos, de cheiros, de sons, visuais, E vai estar aberta ao público, gratuita, na Casa da Cultura, até o dia 30 de maio. Foi uma produção da Casa da Cultura de Paraty.