17 de abril de 2026
OPINIÃO

Ressonâncias e dissonâncias


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Ressonância é um fenômeno relacionado com vibração e a transmissão de energia de forma “oscilatória”, que ocorre entre estruturas complexas sem contato físico entre elas. Um exemplo clássico dela é vibrar uma taça de cristal usando uma fonte sonora a uma certa distância, que emite energia vibracional em uma frequência específica capaz de “entrar” na estrutura do cristal (cuidado, este experimento costuma “acabar mal” para a taça).

Ainda que possa ser reproduzida neste experimento simples, a ressonância ficou famosa em redes sociais e entre os coaches “de plantão” por outros motivos um tanto impalpáveis: é aclamada como sendo uma base científica de um mecanismo capaz de influenciar a matéria de uma maneira sutil, mudando a sua estrutura subatômica. Claro, é difícil mensurar esse tipo de influência nos fatos do nosso cotidiano “macroscópico” e bem por isso essa ideia é também questionada pelos mais céticos.

No entanto, é interessante pensar em ressonância de uma forma diferente, de um modo que não deixa de ter relação com o fenômeno físico, mas parece ser de um tom mais metafórico.

Para que um assunto (ou evento) desperte o interesse de uma pessoa, é necessário que exista “dentro dela” uma estrutura sutil que é ressoante com este assunto. Dessa forma, se gostamos de jogos e competições, acompanhamos campeonatos, resenhas e comentários esportivos é porque, dentro de nós, existe uma estrutura que comporta esse tipo de emoção que a competição desperta. Algumas pessoas chamam isso de “espírito competitivo” e acredito que estejam certas.

Dei este exemplo envolvendo esporte, mas vale para tudo mais, de eventos agradáveis à desagradáveis. Conhece aquela pessoa que parece se animar quando fica diante de uma notícia que envolve uma tragédia e o drama que a envolve? Parece que ela fica “estimulada” ao ver várias versões do fato, compartilha imagens e discursos de indignação nos canais que participa.

Claro que é importante trazer para os holofotes assuntos que são polêmicos e problemáticos, convidar às reflexões e mudanças, mas para alguns isso parece promover uma satisfação para além da utilidade. Muitos canais destas mesmas redes exploram a “desgraça alheia”, acredito que todos aqui já tiveram contato com experiências deste tipo.

Esse tipo de atitude funciona baseado em uma estrutura ressonante que existe “dentro” das pessoas que se sentem atraídas por esse tipo de divulgação de uma maneira visceral, gerando um certo grau de satisfação diante da indignação e do conflito.

Isso não significa que essas pessoas têm algo de mal ou desagradável dentro de si, mas que talvez tenham feridas e envolvimentos dos quais não têm consciência e que precisam ser vistos e aliviados. Nestes casos, vivenciar processos de exposição de problemas, debates acalorados de ideias possui um efeito “catártico” que produz satisfação e alívio, por ressonância, em assuntos delicados que não podem ser tratados abertamente.

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina tradicional chinesa e osteopatia