16 de abril de 2026
TAUBATÉ

Obra sobre menina com duas mães passa por análise, diz Prefeitura

Por Julio Codazzi | Taubaté
| Tempo de leitura: 3 min
Reprodução
Livro foi retirado das escolas municipais de Taubaté após pedido de vereadora que é pastora; Prefeitura diz analisar ‘adequação ao nível de desenvolvimento cognitivo e emocional da faixa etária’

A Prefeitura de Taubaté afirmou que pretende concluir até o fim do segundo bimestre letivo a análise do livro "Pipoca e Picolé", que foi retirado das escolas municipais no fim do ano passado. A obra aborda a diversidade familiar - a protagonista da história tem um pai e duas mães - e foi recolhida após reclamação de uma vereadora, que é pastora evangélica.

Clique aqui para fazer parte da comunidade de OVALE no WhatsApp e receber notícias em primeira mão. E clique aqui para participar também do canal de OVALE no WhatsApp

Questionada pela reportagem sobre o exato motivo do recolhimento do livro, a Prefeitura afirmou que "a análise em andamento considera exclusivamente fatores pedagógicos, tais como adequação ao nível de desenvolvimento cognitivo e emocional da faixa etária, alinhamento com objetivos curriculares, qualidade da narrativa e potencial educativo do material, conforme diretrizes da Base Nacional Comum Curricular e do currículo municipal".

Ainda de acordo com a Prefeitura, "a análise está em andamento e inserida nas demandas da Diretoria de Articulação e Desenvolvimento Pedagógico. O livro em questão compõe material paradidático de modo que a momentânea indisponibilidade aos estudantes não gera qualquer prejuízo pedagógico. A conclusão da análise é esperada dentro do segundo bimestre letivo, quando a decisão será comunicada às unidades escolares".

A Prefeitura afirmou que, após a conclusão do parecer técnico-pedagógico sobre o livro, "as orientações e formação aos professores sobre a sua utilização serão repassadas aos professores coordenadores, tais como adequação ao nível de desenvolvimento infantil, alinhamento com a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) e no desenvolvimento do currículo".

Recolhimento.

A informação sobre o recolhimento do livro veio à tona no dia 3 de março, em discurso feito na tribuna da Câmara pela vereadora Zelinda Pastora (PRD), que é da base aliada ao governo do prefeito Sérgio Victor (Novo).

Na ocasião, Zelinda afirmou que, após receber reclamação de uma mãe de aluno, ainda no ano passado, pediu para o secretário de Educação, Hélcio Carvalho dos Santos, a retirada da obra das escolas. "Eu falei com o secretário de Educação, e imediatamente ele tomou uma atitude. Esse livro foi retirado, eu vi a mensagem que ele mandou pedindo para recolher esse livro das nossas escolas", narrou a vereadora.

Zelinda afirmou ainda que, embora o livro tenha sido recolhido das escolas no ano passado, a obra voltou a ser utilizada em algumas unidades em 2026. "Esse ano, talvez por algum estoque em alguma escola, esse livro chegou de novo na mão de alguma criança que a mãe me procurou. E eu novamente falei com o secretário, e ele já tomou uma atitude", disse. "Nós estamos aqui para proteger e defender a inocência das nossas crianças, a pureza das nossas crianças. Nós não vamos aceitar material como esse na nossa sala de aula", completou a vereadora.

Na semana seguinte, os vereadores Isaac do Carmo (PT) e Talita (PSB), que fazem oposição ao governo, apresentaram um requerimento para cobrar explicações da Prefeitura sobre a retirada do livro das escolas. No texto, os parlamentares afirmaram que "decisões administrativas que determinam o recolhimento de livros ou outros materiais pedagógicos de escolas públicas são medidas extremas" e que "devem ser pautadas por fundamentos legais e técnicos".

Ainda no requerimento, Isaac e Talita afirmaram que "a representação de diferentes arranjos familiares, incluindo famílias com duas mães, dois pais ou outras configurações, encontra respaldo em princípios constitucionais de igualdade, dignidade da pessoa humana e combate à discriminação, bem como em diretrizes nacionais de educação em direitos humanos, sendo necessário saber se a decisão observou tais princípios e normas".

Livro.

O livro, que tem como autora a escritora Adriana Lisboa, narra a história do encontro entre a menina Pipoca e o cachorro Picolé.

"Essa história pode ser um excelente ponto de partida para se discutir com as crianças os vários modelos de família que existem, como, por exemplo, as formadas por duas mães e um pai, como a de Pipoca", diz a apresentação da obra feita pela Editora Elo.

A obra foi comprada pelo município em 2024, que foi o último ano do governo do ex-prefeito José Saud (PP). O livro faz parte de um kit destinado à segunda etapa da educação infantil. Ao todo, foram comprados 3.280 kits para alunos e 116 para professores, totalizando R$ 1,216 milhão.