Por décadas, o TEA (Transtorno do Espectro Autista) foi confinado às salas de espera das pediatrias. No entanto, com a ampliação de acesso à informação, o Brasil presencia o aumento de diagnósticos entre adultos e idosos que, após uma vida inteira de sentimentos de inadequação, descobrem-se no espectro.
Dados do Censo 2022 do IBGE apontam 2,4 milhões de diagnosticados, mas a projeção real, baseada na genética, sugere que 3,1 milhões de brasileiros, em grande parte pessoas já na maturidade, ainda vivem sem diagnóstico.
Clique aqui para fazer parte da comunidade de OVALE no WhatsApp e receber notícias em primeira mão. E clique aqui para participar também do canal de OVALE no WhatsApp
Um hiato de um século entre o surgimento do termo, em 1908, e a primeira lei sobre o assunto, em 2012, deixou uma geração à margem, sem acesso a terapias ou adaptações escolares, muitas vezes estigmatizada por comportamentos que ninguém sabia explicar.
A história da jornalista Kaísa Romagnoli, 38 anos, ilustra esse abismo. Ela descobriu ser autista em março de 2025, durante o processo de investigação diagnóstica do filho. Ao responder questionários sobre o menino, percebeu que falava de si mesma. Um alívio e compreensão de uma vida inteira de exaustão social.
"Foi um misto de alívio e surpresa. Alívio porque eu comecei a me entender... eu consegui entender que todas as dificuldades que eu tive na minha vida, todos os problemas que eu tive que enfrentar, todas as questões sociais, algumas manias que eu tenho, que as pessoas julgavam, falavam: 'nossa, é chata, insuportável, as coisas têm que ser sempre do seu jeito', e na realidade são do meu autismo", conta.
Ela recorda que o sono excessivo era sua única ferramenta de sobrevivência sensorial em um mundo barulhento, algo que a acompanhou desde a infância sem que ninguém compreendesse a causa.
"Quando eu socializava, eu passava muito tempo depois dormindo, trancada dentro do quarto, e hoje eu sei que isso é uma forma que eu encontrei no decorrer da minha vida para me regular. Eu lembro que minha mãe falava muito: 'Nossa, você dorme demais, como uma pessoa dorme 18 horas por dia?'", relembra.
Essa dificuldade de identificação em adultos é ampliada pelo "mascaramento", a estratégia de imitar comportamentos sociais para se integrar.
O médico psiquiatra Alexandre Bassoli explica que esse esforço confunde o sistema de saúde, pois o que chega ao consultório são os reflexos da exaustão acumulada ao longo dos anos.
Segundo Bassoli, muitos passaram décadas sem diagnóstico e desenvolveram ansiedade ou depressão por dificuldades sociais e sensoriais. Quando procuram ajuda, o tratamento foca apenas nos sintomas emocionais visíveis, e o autismo de base permanece oculto.
Estima-se que 306 mil brasileiros com mais de 60 anos vivam com TEA, uma fase em que sinais de rigidez e isolamento social são frequentemente confundidos com sintomas de demência.
Apesar dos desafios, o reconhecimento na maturidade é transformador. O Dr. Bassoli reforça que entender a própria condição ajuda a reduzir a pressão social de tentar parecer "neurotípico" o tempo todo, algo que gera cansaço intenso e sensação de não pertencimento.
"Mesmo tardio, o diagnóstico pode trazer grande alívio e compreensão pessoal. Muitas pessoas passam a entender por que tiveram certas dificuldades ao longo da vida. Isso pode ajudar a reduzir sentimentos de culpa ou inadequação. Em resumo, o diagnóstico não muda o passado, mas pode melhorar muito a qualidade de vida no presente", afirma o especialista.
Para Kaísa, a descoberta tardia não serviu apenas para entender seu passado, mas também para ressignificar seu papel como mãe. Ela acredita que agora pode oferecer ao filho um caminho mais leve e garantir que ele cresça com o amparo que ela não teve, com diagnóstico e terapias corretas.