27 de março de 2026
REFLORESTAMENTO

Cetesb avalia recuperação de áreas da tragédia em São Sebastião

Por Da redação | São Sebastião
| Tempo de leitura: 10 min
Instituto Conservação Costeira
Área em restauração na Vila Sahy, em São Sebastião

A Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) fez uma vistoria técnica nas áreas reflorestadas em São Sebastião após a tragédia de 2023, quando uma chuva torrencial provocou deslizamentos de terra que mataram 64 pessoas, 52 delas na Vila Sahy, um dos locais visitado nessa quinta-feira (26).

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A avaliação foi feita pelo diretor-presidente da Cetesb, Thomaz Miazaki de Toledo, acompanhado de representantes do  ICC (Instituto Conservação Costeira), responsável pela execução do projeto “Restaura Litoral Norte”.

Ao todo, a iniciativa atua na recuperação de 853 cicatrizes de deslizamentos formadas após o desastre climático que atingiu o município em 2023.

Para restaurar áreas de difícil acesso nas encostas da Serra do Mar, o projeto adotou a semeadura aérea com drones. Os equipamentos lançam sementes nativas da Mata Atlântica encapsuladas em biocápsulas sustentáveis, tecnologia desenvolvida pela Ambipar para favorecer a germinação e acelerar o processo de regeneração natural da vegetação.

Compensação ambiental da Tamoios

A visita serviu para acompanhar o cumprimento do TCRA (Termo de Compromisso de Recuperação Ambiental) que estabeleceu as diretrizes técnicas, metas e obrigações para a recuperação das áreas degradadas em São Sebastião.

O termo foi assinado entre a Cetesb e a Concessionária Tamoios, que investiu no reflorestamento das áreas de São Sebastião para cumprir a compensação florestal da construção da Nova Serra da Tamoios, cuja obra foi licenciada pela Cetesb.

“A gente pegou essa obrigação da Tamoios e aplicou justamente nessas áreas que tiveram o deslizamento”, disse Toledo, presidente da Cetesb.

O custo total do projeto foi de R$ 5,137 milhões. Além da Concessionária Tamoios, segundo o ICC, também houve aporte da entidade Gerando Falcões e de rede de doadores do ICC.

O desenvolvimento técnico da iniciativa conta com o apoio da Atlântica Consultoria Ambiental e apoio institucional do Ministério Público Federal, da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo e da Prefeitura de São Sebastião.

Projeto social

Além da restauração ecológica, a iniciativa inclui ações voltadas às comunidades locais. Por meio do projeto Escolas Seguras, estudantes e moradores participam de oficinas e atividades educativas relacionadas à redução de riscos e desastres.

As atividades são realizadas em parceria com o Cemaden Educação e com a Secretaria de Educação de São Sebastião, promovendo o diálogo com escolas e comunidades sobre prevenção de desastres, monitoramento ambiental e adaptação às mudanças climáticas.

“Depois da tragédia de 2023 em São Sebastião, no Litoral Norte onde atuamos, ficou evidente que não seria possível falar em restauração ambiental sem considerar o sofrimento das pessoas. Estamos lidando com territórios marcados por perda, por luto e por eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes — e ignorar essa dimensão compromete qualquer processo de reconstrução”, afirmou Fernanda Carbonelli, diretora Executiva e cofundadora do ICC.

“Estamos ensinando crianças e jovens que vivem em áreas de risco a reconhecer sinais de alerta, a interpretar o comportamento das chuvas — o que significa, por exemplo, um volume de 200 milímetros — e a saber como agir diante de situações extremas”, disse ela.

“Esse pilar social não é acessório. Ele redefine o próprio conceito de restauração. Porque restaurar não é apenas recompor a paisagem, é reconstruir a relação entre as pessoas e o território”, completou.

Segundo ela, a expectativa é que o projeto sirva de referência para futuras compensações ambientais no país. “Não faz mais sentido tratar a compensação apenas sob a lógica ecológica, sem considerar as comunidades que são diretamente impactadas pelos empreendimentos submetidos ao licenciamento ambiental”, destacou.

Avaliação do projeto

Segundo o ICC, o monitoramento mais recente das áreas restauradas, realizado em dezembro, apontou taxa superior a 70% de recuperação da vegetação nativa, indicando avanço no processo de regeneração das encostas e na recomposição da biodiversidade da Mata Atlântica.

Após a visita técnica, o presidente da Cetesb avalizou o trabalho do projeto: “A gente está muito satisfeito com a evolução da mata”, disse ele.

“Conseguimos avaliar que, em dois anos, a gente já vê diversas áreas com uma cobertura florestal, não vê mais o solo exposto com o crescimento dos arbustos, das árvores, principalmente o que a gente chama na biologia de espécies pioneiras. Essas espécies já estão crescendo e cobrindo o solo, o que naturalmente traz uma proteção maior, quando a gente fala de risco de novos deslizamentos.”

Leia a seguir a entrevista que Thomaz Miazaki de Toledo (foto abaixo), diretor-presidente da Cetesb, concedeu a OVALE sobre o reflorestamento em São Sebastião.

Qual o objetivo da visita técnica?

A gente teve o escorregamento naquela chuva torrencial, os deslizamentos em fevereiro de 2023, e a partir do ocorrido, a gente fez uma discussão para mobilizar esse esforço de restauração ambiental, nas áreas que eles chamam de cicatrizes, aonde ocorreram os escorregamentos na encosta.

A gente levou alguns meses fazendo a discussão do projeto, elaboração do projeto, aprovação do projeto. A gente está chegando ao segundo ano quase de execução do projeto. Então, a gente esteve visitando as áreas para justamente ver o sucesso da restauração florestal.

As áreas que tiveram o investimento, o lançamento de sementes por drones, a gente pode acompanhar como é que está o estágio da floresta renascendo nessas áreas.

As áreas foram reflorestadas? Como é que está hoje o projeto?

Então, a gente ficou muito contente, está muito satisfeito com a evolução da mata. É importante a gente destacar que não é uma restauração florestal convencional, justamente por a gente estar numa área muito acidentada, num relevo muito acidentado.

São paredões que a gente tem muito íngremes, que tem dificuldade enorme para a gente poder acessar essas áreas. Geralmente esses plantios são feitos com pessoas, mas nem era seguro colocar pessoas nessas áreas. Também havia risco da gente movimentar o solo nas áreas de cicatrizes e ocasionar novos desabamentos.

Então, por isso que a gente optou por esse recurso tecnológico de lançamento de sementes por drones. Hoje a gente conseguiu avaliar que em dois anos a gente já vê diversas áreas com uma cobertura florestal, a gente não vê mais o solo exposto. Com o crescimento dos arbustos, das árvores, principalmente o que a gente chama na biologia de espécies pioneiras. Essas espécies já estão crescendo e cobrindo ali o solo, o que naturalmente a gente também traz uma proteção maior, quando a gente fala de risco de novos deslizamentos.

Esse projeto continua?

O projeto não é um simples esforço de jogar sementes e esperar que a floresta rebrote na área onde o solo ficou exposto. O projeto envolve também um trabalho social com a comunidade, então esse trabalho segue sendo feito nas escolas, é o projeto levado à frente aí pelo ICC, justamente para a gente ter um componente social também no projeto e tudo isso está em curso ainda, porque a ideia não é só fazer a restauração florestal, mas é a gente restaurar ambientes, mas também ganhar resiliência.

E como é que a gente ganha resiliência, justamente envolvendo a comunidade em saber avaliar os riscos e também fiscalizar, acompanhar as atividades que são feitas sobre a floresta. Porque quando a gente tem as áreas desmatadas, desmatamentos irregulares, é que a gente deixa o terreno mais frágil, mais suscetível aos deslizamentos.

E é claro, o reflorestamento é o contrário. Dá condições ao terreno de suportar eventuais cargas de água mais fortes. Por isso gente não pode abandonar as áreas, porque podem ocorrer novos desmatamentos aí e novamente o solo fica exposto e a gente perde esse investimento que foi feito. Então, o projeto ele não termina, não. É claro que o esforço inicial de lançamento de sementes já foi feito.

Quando você olha para a montanha, você pode ver que no topo das áreas, quem tem a memória para puxar dois, três anos para trás, vai lembrar que ficou tudo exposto. Do barranco você via o barro. Agora você vê que o barro está lá mais no topo da montanha, bem no paredão. Por quê? Porque ali o drone ele não conseguia lançar as sementes.

Então não tem como o projeto alcançar essas áreas mais íngremes e esses paredões. A vegetação está crescendo justamente nas áreas onde a gente conseguiu alcançar com as sementes e aí a gente já vê uma resposta da floresta, em relação às sementes que a gente lançou.

O Termo de Compromisso de Recuperação Ambiental dessas áreas foi assinado com quem? Quem é a parte que tem que cumprir?

Quando aconteceram os escorregamentos, várias áreas ficaram com o solo exposto, desmatadas. A gente precisava de um grande esforço de plantio, de lançamento de sementes numa área muito grande, aproximadamente 200 hectares. A gente precisava de alguém para custear justamente esse projeto, esse esforço, esse investimento de restauração florestal.

E aí que a Cetesb entrou na discussão, porque a Cetesb é responsável por fazer o licenciamento de atividades econômicas e principalmente das obras de infraestrutura. Aqui a gente tem as rodovias que cortam a região e a gente tem a Rodovia dos Tamoios, que faz a descida da Serra para o Litoral Norte. E recentemente, a Cetesb licenciou essa nova pista da Tamoios, a Nova Serra da Tamoios.

Então, associada às obras de implantação da rodovia, foi necessário fazer uma série de intervenções no meio ambiente, com o corte de vegetação. Todos esses cortes trazem a obrigação do responsável pela obra por fazer uma compensação florestal. Essa é uma exigência da legislação. Então, a gente tinha essa obrigação por parte da Tamoios, a concessionária Tamoios, que é a responsável pela obra.

E a gente pegou essa obrigação da Tamoios e aplicou justamente nessas áreas que tiveram o deslizamento. A Cetesb assinou esse termo de compromisso com a Tamoios. A gente teve aqui também a participação da Fundação Florestal, que é uma instituição irmã da Cetesb. São braços executivos, dois braços executivos da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística.

A Fundação Florestal cuida do Parque Estadual da Serra do Mar e então ela também atuou na validação desse trabalho que foi feito aqui de restauração florestal nas áreas que são dentro do parque.

Essa maneira de reflorestar por drones pode ser utilizada em outras áreas? Como é que o senhor vê essa tecnologia? A Cetesb ficou satisfeita com o resultado?

A Cetesb é uma instituição que tem a missão de cuidar do meio ambiente, e a gente gosta muito de inovação e tecnologia. Esse projeto foi inclusive idealizado em fazer o lançamento por drones num esforço feito pela Cetesb lá atrás para restauração da Serra do Mar, em que foi feito lançamentos de sementes por helicóptero. Foi um trabalho bastante conhecido também pela Cetesb, o esforço deu resultado positivo, a gente conseguiu reflorestar uma grande porção da Serra do Mar e isso é que acabou inspirando esse projeto.

Hoje a gente tem o recurso do drone. Que é um custo muito menor, tem condições de segurança muito maior pra gente poder fazer o lançamento da semente, a gente consegue também fazer um lançamento mais preciso, a gente consegue controlar onde a semente está caindo no solo, tem uma câmera, que faz a visualização da semente caindo no solo.

A gente sabe avaliar se aquela semente vai de fato pegar e a muda vai nascer ali no solo ou se é uma semente que ficou solta e na primeira chuva ela vai acabar escorregando e não vai conseguir fazer o reflorestamento naquele ponto. O drone é um recurso que a gente tem cada vez mais acessível, é uma excelente notícia, porque com esse recurso a gente se torna mais capaz para aumentar cada vez mais os nossos esforços de restauração florestal.

Quais as espécies que deram retorno melhor no reflorestamento em São Sebastião?

A gente tem esse componente de tecnologia, principalmente para o lançamento, para o drone, mas foi superimportante também esse componente científico. Uma base técnica para justamente selecionar quais as sementes eram mais indicadas para o trabalho e também quais as espécies. São espécies que na biologia a gente chama de espécies pioneiras, são as primeiras árvores quando você tem um desmatamento. Por exemplo, cai uma árvore no meio da floresta, você forma uma clareira. E naturalmente existem espécies que elas nascem primeiro do que as outras.

Tem espécies que são só de florestas maduras, vamos dizer assim. Essas florestas que nascem em áreas descampadas são chamadas de espécies pioneiras. Então, foram selecionadas justamente espécies mais pioneiras e hoje, acompanhando o trabalho, dois anos de trabalho realizado, a gente vê que algumas espécies se deram melhor do que as outras.

Então a gente pode ver a embaúba, que é uma espécie bastante conhecida, fica uma árvore bem alta no meio das faixas, a gente podia vê-las. Guapuruvu também bastante comum e a quaresmeira, que é aquela árvore que dá uma floração superbonita na época da Quaresma.