27 de março de 2026
CORONEL ESTÁ PRESO

Antes da morte, Gisele recusou mudança para SJC e pediu divórcio

Por Da redação | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 4 min
Reprodução
O tenente-coronel ao lado da esposa

"Acha que tenho coragem de ir para SJC com vc?"

Dias antes de ser morta, a soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos, recusou a proposta do marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, para se mudar para São José dos Campos.

É o que aponta uma das mensagens recuperadas pela perícia após terem sido apagadas do celular da vítima, morta com um tiro na cabeça em 18 de fevereiro, em São Paulo. Um mês depois, o oficial, nascido em Taubaté e com carreira construída no Vale do Paraíba, foi preso em seu apartamento, em São José.

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Mensagens obtidas pela Polícia Civil revelam que a relação entre Gisele e o tenente-coronel já estava em ruptura dias antes da morte da policia.

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Nos diálogos, recuperados por meio de perícia técnica mesmo após terem sido apagados, logo após o tiro que matou a policial, Gisele rejeita a ideia de se mudar para São José ao lado do marido e demonstra indignação com a forma como era tratada.

"Ainda acha que tenho coragem de ir pra SJ com vc? Ou pedir baixa um dia? Pra ser tratada dessa forma? Jamais”, escreveu a vítima em 2 de fevereiro.

A investigação aponta ainda que Gisele mencionou uma possível traição como um dos fatores para a separação, além de episódios de desrespeito e desgaste emocional. As mensagens fazem parte do relatório que embasa a investigação, atualmente conduzida como feminicídio.

Mensagens mostram pedido de separação

Gisele também expressa o desejo de encerrar o casamento. Em um dos trechos mais relevantes, ela afirma: “Você confundiu carinho com autoridade, amor com obediência, provisão com submissão […] Tenho minha dignidade. Pode entrar com o pedido de divórcio.”

Em outra mensagem, a vítima critica diretamente o comportamento do marido: “Se você quer separar, vamos separar, mas se continuar, vai ter que mudar seu comportamento estúpido, ignorante, intolerante e sem escrúpulos.”

Segundo a perícia, era Gisele quem insistia no fim da relação, versão que contradiz o depoimento do tenente-coronel, que afirma que a esposa tirou a própria vida porque não queria aceitar o divórcio.

O relatório aponta ainda que o celular da vítima foi manuseado minutos após o disparo, o que levanta a suspeita de que as mensagens tenham sido apagadas para sustentar a versão apresentada pelo tenente-coronel.

Outro ponto destacado é a demora de cerca de 30 minutos para acionar o socorro. Gisele chegou a ser levada com vida ao hospital, mas não resistiu.

Falas do coronel expõem controle e misoginia

O conteúdo das conversas revela uma série de declarações do oficial com teor ofensivo e de controle sobre a companheira.

O tenente-coronel se dizia um "rei", um "macho alfa" e "soberano" que exigia uma esposa "obediente" e "submissa", como "toda mulher deve ser". Ele fazia cobranças por sexo.

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Em um dos trechos, ele afirma: “Lugar de mulher é onde o marido quiser. Em casa, cuidando da casa, do marido e dos filhos. Mulher casada na rua tá à procura de assunto (...) Mulher no trabalho encontra caralho”, diz mensagem.

Em outra mensagem, o tenente-coronel faz comentários depreciativos sobre outros homens: “Não se iluda com os da rua. Eles só querem te comer. Comem e metem o pé”.

Também há falas com conotação sexual e tom de ameaça: “A mulher se expõe no meio de outros machos, que ficam xavecando e agradando até conseguir comer”, escreveu. “Você vai ser carne nova no pedaço e os mikes [PMs] vão cair matando em cima de você. Iguais cães sedentos por sexo”.

Para investigadores, o teor das mensagens reforça um padrão de controle, ciúmes e tentativa de imposição de comportamento, além de uma visão hierárquica do relacionamento.

Caso é tratado como feminicídio

Inicialmente registrado como suicídio, o caso passou a ser investigado como morte suspeita e, posteriormente, como feminicídio.

O tenente-coronel foi preso e segue detido no Presídio Militar Romão Gomes. A defesa nega o crime e sustenta que a policial teria tirado a própria vida.

A Polícia Civil também apura possível manipulação da cena e outras inconsistências no depoimento do oficial.

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