07 de março de 2026
OPINIÃO

A democracia sob ataque, dos bandidos

Por Zarcillo Barbosa | O autor é jornalista
| Tempo de leitura: 3 min

O banqueiro Daniel Vorcaro não era só um trambiqueiro que deu o velho golpe da pirâmide financeira e deixou uma conta de mais de R$ 50 bilhões a ser paga pelo sistema. Ele tinha infiltrações nos altos escalões da República e uma milícia privada para intimidar desafetos, corromper fiscais do Banco Central e até para invadir sistemas de órgãos de investigação.

O homem era o capo de uma organização criminosa capaz de pôr em perigo a República, tais as suas ramificações nos três poderes. Em "Porque as Nações Fracassam", Acemoglu&Robinson asseguram que o Estado deve ser forte o suficiente para se proteger da captura privada. O que vemos é o patrimonialismo cada vez maior neste país.

Deve explicações à sociedade o ministro Dias Toffoli, que teria se beneficiado financeiramente com a venda de cotas do Resort Tayayá por R$ 35 milhões. O colega do STF Alexandre de Moraes complicou-se com a revelação do contrato de R$ 130 milhões assinado por Vorcaro com o escritório de advocacia da esposa e seus filhos. Qual seria a expectativa do banqueiro hoje falido com essa contratação? Troca de telefonemas e encontros ocorreram entre Moraes e Vorcaro, gravados em um dos cem celulares apreendidos. Pergunta o contratante: "Alguma novidade? Conseguiu ter notícias ou bloquear?" A reposta de Moraes não se sabe porque o WhatsApp do ministro tem um programa para apagar o texto após a leitura. O ministro relator do processo do Banco Master, André Mendonça, fez muito bem em não esperar o despacho do Procurador-geral da República, para decretar a prisão preventiva de Daniel Vorcaro e de outros implicados na "Cosa Nostra", por ele chamado de "Turma". O Procurador estaria até hoje procurando justificativa jurídica para a prisão do criminoso, pela segunda vez, não fosse a providência de Mendonça.

O PGR não viu "perigo iminente" para agir dentro de "prazo exíguo". A Polícia Federal descobriu ordens de Vorcaro para "dar um pau no jornalista" Lauro Jardim, de O Globo e "Quebrar os dentes. Num Assalto." Ou de mandar "moer essa vagabunda", a empregada de casa, e "dar um susto" no cozinheiro.

O operador da Turma era chamado de Sicário. A mesma denominação que os narcotraficantes mexicanos dão aos seus matadores de aluguel. Em BH, onde ele circulava de Ferrari, ele é conhecido como Mexerica, com longa ficha criminal. Sicário tentou suicídio na prisão e está internado com morte encefálica provável. Uma pena, porque teria muito a contar.

"Amigo de vida toda" de Vorcaro, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional dos Progressistas, conseguiu um jabuti para socorrer o banqueiro. Inseriu em projeto de Emenda Constitucional, dispositivo elevando de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite do Fundo Garantidor de Crédito. A emenda nada tem a ver com o objetivo da PEC que é de elevar a autonomia do BC. Daniel Vorcaro exultou. Poderia aumentar as vendas de CDBs sem lastro, pagando 140% do CDI. Se a emenda vingasse o estouro teria sido ainda maior. Antonio Rueda, presidente nacional do União Brasil era outro que se aproveitava do helicóptero, dos jatinhos, das festas de arromba em Trancoso com garotas bonitas e os charutos de Vorcaro.

Lula também se reuniu com o dono do Master, junto com três ministros. Diz o presidente que não se comprometeu com nada e cumpriu seu dever de receber empresários. Agora vai ter que cuidar do Lulinha que, de digitador do Zoo Paulistano detém movimentações bancarias milionárias. Viajou para Portugal com o Careca do INSS e recebeu R$ 300 mil. Objetivo declarado: estudar a introdução da cannabis sativa no Brasil, como remédio.

Agora o ex-banqueiro não tem mais juízes, senadores, deputados ou ministros a quem possa recorrer. O caminho é abrir o bico. Romper com a ormetà. As máfias, na Itália, acabaram graças à delação premiada. O naturalista Saint-Hilaire já advertia no século XIX: "Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil".