07 de março de 2026
CRÔNICA

A velha, as velas e o amor

Por Baltazar Gonçalves | especial para o GCN/Sampi
| Tempo de leitura: 3 min

Ela tinha escondido duas velas para queimar, mas vivia no escuro e toda gente pensava que nem havia mais pavio. Era "coitada, está velha" pra cá; era "tenha paciência, ela não dura", pra lá. Uns levavam azeite para candeias, outros levavam fósforos para a lenha. A velha, no escuro, esperava cada visita lustrando o sebo de suas duas velas velhas.

Para os mais jovens reclamava das juntas, das dores nas cadeiras, dos pés inchados. Reclamava que os mais velhos além de não ajudar, atrapalhavam sujando as entradas da casa. Então, rapidinho, até os menos dispostos faziam coisas, limpavam coisas, concertavam coisas. Para os mais velhos, reclamava da solidão porque os jovens tinham-na abandonado sem apetite, sem empatia, sem opinião. Então, rapidinho, a prosa quente acendia o forno e a mesa logo posta derramava modesto banquete.

Até o dia em que se fez tão escuro, tão solitário e tão faminto, que a velha se lembrou de gastar suas duas velas para reclamar à Santo Antônio. Acendeu a primeira e rezou dois terços, nada do santo se manifestar. Quando foi acender a segunda vela, a parafina estava tão ressacada pelo tempo guardado que esfarinhou como que por milagre às avessas.

Essa é a história e a moral dela é uma vergonha: ninguém muda até o último suspiro: sozinho, no escuro e com fome. Quem me contou essa essa anedota foi o padre da capela numa noite de chuva e vinho, ele tinha outras e em todas o sarcasmo dele era fruto da impaciência, da sua experiência acumulada de ouvir tanta gente triste e má.

O que nos leva à pergunta de sempre: essa gente tosca que vive de falar da vida alheia não tem mais o que fazer de suas vidas. Amar torna a nossa vidinha medíocre algo menos mesquinha. Falar do amor é urgente, sempre. Amar não tem pressa, a gente aprende colher afeto feito abelha de flor em flor. Há plantas sem flor, elas clorofilam silenciosamente as condições necessárias de polinização. Também o tapete mundial de musgo: o que parece ocorrer apenas onde ponho sentido é na verdade a constância universal.

Embora seja real e forte e com certeza transformador, é preciso aceitar que o amor é uma ilusão. Fosse possível comprar e vender amor, nada mais haveria e a bomba seria de fato alívio imediato. 
Das coisas que pudemos inventar ou perceber ou intuir ao longo dos milênios, o amor é a construção de uma escada invisível que leva ao céu que também não sendo real existe. Deus não tem nada com isso, o criador das galáxias concebeu fora da luz um ponto iluminado onde descansa, alheio aos escombros que soterram a esperança em tempos de guerra.

O amor é o entulho de tudo que sobra quando escolhemos suportar, e ser suporte, em nome do mesmo amor. Sendo leve e emergente, o amor não viceja apenas onde as condições são favoráveis ao plantio. Inesperadamente brota na lama, do breu profundo, da aridez inadequada de uma planície marciana do Saara, ou na fissura degelo onde a água entra em fendas inexploradas, congela e expande estruturas patagônicas, abre frestas como aquela inexistente Divina Indiferença de onde Deus nos guarda e ama.

A prática não leva à perfeição, mas nos coloca dispostos a seguir um qualquer propósito. Querer seguir em frente é mais importante que saber para onde seguir, o horizonte se abre depois do próximo passo, mover-se justifica sair e chegar: o motor íntimo invisível não será outro se não o amor que aprendemos cultivar.

Baltazar Gonçalves é professor de História formado pela Unesp-Franca e membro da Academia Francana de Letras