Caro leitor, a história da humanidade é, em grande medida, a história de homens em salas luxuosas traçando linhas em mapas que serão manchadas pelo sangue de quem nunca os conheceu. Quando um governante decreta uma guerra, ele raramente o faz por uma necessidade existencial do seu povo; faz, quase invariavelmente, por uma patologia do ego. A guerra é o sintoma máximo de um poder que se tornou tão absoluto que esqueceu a fragilidade da carne humana.
O egoísmo dos governantes na guerra manifesta-se na incapacidade de distinguir o "Estado" de si mesmos. Para o autocrata ou o líder messiânico, uma afronta diplomática não é um problema burocrático, mas uma ferida pessoal que exige o sacrifício de milhares para ser cicatrizada. Existe uma perversidade inerente no ato de mobilizar a juventude de uma nação para satisfazer o desejo de imortalidade histórica de um único indivíduo. Enquanto o líder busca um parágrafo nos livros de história, o soldado encontra uma cova sem nome.
Caro leitor, o que permite a manutenção do egoísmo belicista é o distanciamento físico e emocional. Quem assina o decreto de mobilização não sente o cheiro da pólvora nem o frio do metal na trincheira. O governante opera no reino da abstração:
*Vidas tornam-se "recursos humanos". *Cidades tornam-se "objetivos estratégicos". *Famílias destroçadas tornam-se "danos colaterais".
Bem, essa desumanização estatística é a ferramenta que protege o ego do governante da culpa. É fácil ser corajoso com o peito alheio. É simples ser um estrategista implacável quando o único risco que se corre é o de um revés político, enquanto para o cidadão comum, o risco é o fim absoluto de sua existência.
Mas, para sustentar esse egoísmo, os governantes recorrem ao verniz do nacionalismo e do dever. Convencem o pai de família de que a proteção da pátria exige a invasão da pátria alheia. No entanto, se analisarmos friamente, a maioria dos conflitos modernos nasce de disputas por heranças territoriais mal resolvidas, controle de fluxos financeiros ou, mais comumente, pela necessidade de desviar a atenção de fracassos internos. A guerra é o maior "fato consumado" que um governante pode criar para silenciar a oposição e inflar seu próprio prestígio.
Enquanto a política for vista como um jogo de soma zero entre egos inflados, a paz será apenas um intervalo para o rearmamento. O verdadeiro heroísmo não está em enviar exércitos ao horizonte, mas em ter a humildade de ceder em nome da vida. O egoísmo de quem governa é a maior arma de destruição em massa já inventada; ela precede o míssil e sobrevive ao tratado de paz, aguardando a próxima oportunidade de sacrificar o futuro em nome de um passado glorioso que só existe na cabeça de quem detém o poder. Pense nisso.
Micéia Lima Izidoro, Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional, Neuropsicopedagoga Clínica, pós-graduada em ABA e estudante de Neuropsicanálise