O transporte público brasileiro vive um momento de paradoxos: enquanto a mobilidade urbana se consolida como o direito social que garante todos os outros, como o acesso ao trabalho, à saúde e à educação; o modelo que sustenta esse serviço no Brasil está em uma encruzilhada.
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Como diretor executivo da Busvale, entidade que reúne as principais concessionárias do transporte público municipal do Vale do Paraíba, acompanho diariamente o esforço das empresas operadoras para manter os ônibus circulando e oferecer um serviço de qualidade. Mas, é preciso ser franco com a sociedade e expor uma questão que as empresas e o poder público conhecem de cor: o atual modelo de transporte coletivo não para mais em pé apenas com a receita da roleta.
Dados do Anuário NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos) 2024-2025 revelam que, embora o setor tenha apresentado leve recuperação de 9,8% na demanda total após o impacto da pandemia, o número de passageiros pagantes cresceu apenas 4,7% no período. A realidade é que perdemos 44% dos passageiros pagantes na última década.
No Brasil, cerca de 365 cidades enfrentam hoje um dilema fiscal severo: atualmente, os subsídios governamentais cobrem, em média, apenas 30% dos custos operacionais.
Para efeito de comparação, em cidades europeias como Praga, esse aporte chega a 74%. No Brasil, se fôssemos depender exclusivamente da tarifa para cobrir custos de combustível (que variou 0,9% em 2024, mas segue em patamares altos) e mão de obra (que representa 42,7% do custo total), a passagem em capitais como São Paulo deveria custar R$ 13,49 e não os R$ 5,30 atuais cobrados dos usuários.
Essa diferença entre a "tarifa técnica" (o custo real do serviço) e a "tarifa pública" (o que o usuário paga) precisa ser coberta pelo poder público. É uma escolha política, mas, ao mesmo tempo, técnica. No entanto, em muitas cidades temos enfrentado uma barreira adicional: a falta de pontualidade nos repasses.
Diferente de grandes capitais, que já entenderam que o subsídio é um investimento na economia local, em muitas cidades do interior a cultura do pagamento em dia ainda não é a regra. Quando algumas prefeituras atrasam o repasse dos subsídios ou falham em honrar as planilhas de reequilíbrio econômico-financeiro, elas afetam a operação de um sistema essencial para milhões de pessoas.
Afinal, os ônibus precisam de diesel todos os dias, assim como mecânicos e motoristas precisam de seus salários pagos dentro da data. Não existe "crédito" no posto de combustível ou na mesa do trabalhador.
Em São José dos Campos, por exemplo, vimos o subsídio ir para R$ 144,7 milhões em 2025, 66% a mais em relação ao ano anterior. Trata-se de um fato positivo. Importante salientar que esse aumento não significou lucro para as empresas, mas, sim, foi reflexo da tentativa de recuperar anos de tarifas congeladas e do aumento vertiginoso dos insumos que afetam diretamente o setor. Essa é a verdade: sem o subsídio, o sistema simplesmente colapsaria.
A modernização da frota, que cresceu 4,2% em 2025 no Brasil, e a migração para tecnologias menos poluentes, como os ônibus elétricos, exigem segurança jurídica e financeira. O setor aguarda com urgência o novo Marco Legal do Transporte Público para trazer transparência e um modelo de financiamento que não dependa do "humor político” de cada gestão municipal.
O transporte público é um motor da economia. Quando ele falha, a cidade para. É imperativo que o poder público encare o subsídio ao passageiro não como um "favor" ao sistema, mas, sim, como o pagamento por um serviço essencial já prestado. Honrar os contratos é o primeiro passo para que possamos falar, de fato, em um transporte de qualidade para o cidadão brasileiro. Sem sustentabilidade financeira, o futuro da mobilidade urbana continuará estacionado no ponto.