25 de fevereiro de 2026
NEGÓCIOS

Empresa de São José une IA e mira bilhões com pedágio Free Flow

Por Jesse Nascimento | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 5 min
Divulgação
Ailton Queiroga, da COMPSIS, de São José dos Campos

O pedágio Free Flow (sem cancela) virou a nova fronteira das concessões rodoviárias. Nesse contexto, uma empresa de São José dos Campos aposta em Inteligência Artificial para disputar um mercado bilionário, com tecnologia nacional e 100 empregos na cidade.

Clique aqui para fazer parte da comunidade de OVALE no WhatsApp e receber notícias em primeira mão. E clique aqui para participar também do canal de OVALE no WhatsApp

O Vale do Paraíba tem um endereço que, há décadas, funciona como usina de grandes ideias: São José dos Campos. É dali que saem projetos, sistemas e empresas que nasceram na cultura da alta engenharia, e que costumam crescer quando o país começa a demandar tecnologia. Agora, esse mesmo DNA se conecta diretamente a um tema que mexe com o bolso, a mobilidade e a rotina de milhões de motoristas: o pedágio Free Flow.

Nesse cenário, a trajetória de Ailton Queiroga parece roteirizada para um tempo em que “precisão” virou requisito também no asfalto. Formado no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e ex-engenheiro da Embraer, ele trocou o universo de sistemas críticos de aviação por um desafio que exige o mesmo rigor: fazer um pedágio Free Flow funcionar com confiabilidade no Brasil real, em meio à chuva, noite, caminhão com eixo suspenso, tráfego pesado e tolerância zero para erro.

É desse caldo que surge, em 1989, a COMPSIS, fundada por Queiroga em São José dos Campos. Segundo a empresa, hoje são 100 empregos diretos e um posicionamento claro: disputar protagonismo no avanço do pedágio Free Flow, com um pacote completo de soluções desenhadas para as estradas brasileiras.

Quando Queiroga deixou a Embraer, ainda nos anos 1980, a decisão foi vista por muitos como arriscada. Para ele, era estratégia. O raciocínio que sustentava sistemas de navegação e aviônicos — precisão, confiabilidade e operação em ambiente hostil — virou a base para encarar o mundo do transporte terrestre. “A engenharia é a mesma: o que muda é o cenário”, resume.

Sistemas inteligentes de transportes

Com o tempo, a COMPSIS ampliou o foco para sistemas inteligentes de transportes. E, antes mesmo de o pedágio Free Flow virar pauta no Brasil, a empresa afirma ter participado, em meados dos anos 2000, de uma implantação desse modelo em Sydney (Austrália), ao lado de grupos globais. A leitura ali era simples: quando o pedágio Free Flow chegasse de vez ao país, quem tivesse estrada percorrida teria vantagem.

O pedágio Free Flow (pedágio sem cancela) elimina cabine, fila e parada. Em vez da tradicional praça de cobrança, pórticos registram a passagem dos veículos por sensores, câmeras e antenas. É uma mudança estrutural no jeito de cobrar, e de fiscalizar. No Vale do Paraíba, o tema ganhou escala com projetos e operação em rodovias que entram na rotina de quem cruza o eixo São Paulo–Vale–Litoral.

Esse contexto é o que faz empresas de tecnologia olharem para o setor como uma corrida por contratos robustos. Na visão de mercado, o pedágio Free Flow deixa de ser “projeto piloto” e vira infraestrutura crítica — com arrecadação, governança e alta cobrança por desempenho.

Se o pedágio Free Flow fosse só “ler placa e cobrar”, não seria tão complexo. O problema é que a estrada brasileira é cheia de exceções. Placa suja, baixa iluminação, chuva forte, reflexo, velocidade alta, caminhões com rodagem dupla, eixo suspenso, combinação veicular, variação de carroceria. É o tipo de cenário em que o sistema precisa decidir certo em milissegundos, e repetir esse acerto milhões de vezes.

Integração

Segundo a COMPSIS, a estratégia é integrar sensores, câmeras LPR (leitura de placas) e RFID (tags), com Inteligência Artificial operando em tempo real para reduzir erros e aumentar a acurácia do pedágio Free Flow. A empresa afirma que a IA foi treinada a partir de milhões de transações reais em rodovias brasileiras de alta complexidade, justamente para lidar com situações em que veículos comerciais representam uma parcela relevante do fluxo.

“Nossa inteligência artificial foi treinada a partir de milhões de transações reais em rodovias brasileiras de alta complexidade operacional. Em alguns desses cenários específicos, especialmente onde a tecnologia da COMPSIS já está implantada, o tráfego de veículos comerciais pode representar até cerca de 40% do fluxo total, uma condição desafiadora que a maioria dos sistemas do mercado não consegue tratar com precisão. Esse histórico operacional é o que permite à nossa IA entregar desempenho elevado, mesmo em contextos pouco comuns ou altamente exigentes”, explica Queiroga.

Gestão de dados

Outro ponto que muda o jogo é que o pedágio Free Flow não termina na cobrança. Ele abre uma camada de gestão por dados: detecção de incidentes, filas, tráfego, segurança e automação operacional.

A COMPSIS diz atuar também com sistemas de gestão por imagem e módulos de análise que ampliam a visão das concessionárias sobre a rodovia — e que reduzem custo operacional ao automatizar rotinas.

Em outras palavras: o pedágio Free Flow vira porta de entrada para uma “rodovia inteligente”, e é aí que Inteligência Artificial deixa de ser marketing e vira ferramenta de governança e eficiência.

Para quem dirige, o pedágio Free Flow promete menos fila e mais fluidez, mas também exige atenção a regras e prazos. Por isso a cobertura regional vem acompanhando o tema em diferentes estradas e conexões. Um exemplo é a discussão de novas rotas e impactos logísticos no estado, como os efeitos do Rodoanel Norte para motoristas do Vale do Paraíba, que ajuda a redesenhar deslocamentos e influência o ecossistema de mobilidade.

No fim do dia, quanto mais o pedágio Free Flow se espalha, mais a qualidade da tecnologia importa. Um sistema que erra pouco reduz atrito, diminui contestação e melhora a experiência. E é justamente essa “batalha invisível” que empresas de São José dos Campos querem disputar — unindo engenharia e Inteligência Artificial em escala.