Muito além de uma tradição católica, a Quaresma é um dos períodos espiritualmente mais intensos do ano. E não apenas para os cristãos.
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Embora esteja diretamente ligada à trajetória de Jesus Cristo, que passou 40 dias no deserto enfrentando tentações, a prática do jejum, do recolhimento e da vigilância interior atravessa diversas tradições religiosas e espirituais ao redor do mundo.
No budismo, o isolamento é uma ferramenta para silenciar o ego. No sufismo, vertente mística do islamismo, o jejum é caminho para clareza mental. No judaísmo, há períodos dedicados à purificação dos pensamentos e das intenções. Cada tradição nomeia de forma diferente, mas o princípio é o mesmo: diminuir o ruído externo para fortalecer o interior.
A narrativa bíblica lembra que, se até Jesus foi tentado, qualquer ser humano também está sujeito às próprias fragilidades. Mas quando falamos em “mal”, não se trata necessariamente de forças externas ou entidades. O conflito é interno.
Durante a Quaresma, muitas pessoas relatam maior sensibilidade emocional, conflitos intensificados e impulsos mais difíceis de controlar. A proposta do período é justamente a vigilância: observar pensamentos, atitudes e reações.
O filósofo Jean-Paul Sartre escreveu em Entre Quatro Paredes que “o inferno são os outros”. A frase provoca reflexão sobre como projetamos no outro aquilo que muitas vezes não elaboramos em nós mesmos: algo que pode se tornar ainda mais evidente em fases de maior introspecção coletiva.
A resposta pode estar no conceito de inconsciente coletivo, desenvolvido por Jung. Segundo ele, quando um grande grupo vibra numa mesma frequência emocional ou simbólica, essa energia reverbera socialmente.
É o mesmo fenômeno que ocorre no Carnaval: mesmo quem não participa diretamente sente a movimentação, a euforia ou a mudança no clima social. Com a Quaresma, o movimento é inverso: menos expansão, mais recolhimento.
Abrir mão de algo durante 40 dias, como álcool, excessos ou hábitos prejudiciais, não é “castigo”. É ter uma consciência. O número 40, recorrente na Bíblia, simboliza transformação e preparação.
Ao reduzir estímulos externos, muitas pessoas relatam mais lucidez, equilíbrio emocional e até mudanças definitivas de hábito.
A Quaresma, portanto, não é um período sombrio. É um convite à reflexão. Um tempo de ajuste interno, de cuidado com os pensamentos e de responsabilidade sobre as próprias escolhas.
Mais do que uma prática religiosa, é um exercício de evolução.