15 de fevereiro de 2026
A ÁGUA

Divagações sobre a água

Por José Lourenço | especial para o GCN/Sampi
| Tempo de leitura: 5 min

“E foi no brilho das brasas que as primeiras histórias foram contadas e recontadas até que chegassem ao nível dos mitos.” Sônia Machiavelli, em Divagações sobre o fogo.

Mitos remetem aos gregos. Narrativas baseadas na autoridade e confiabilidade do narrador que testemunhou ou recebeu as narrativas de quem as testemunhou ou criou. Isso nos termos do Convite à Filosofia, de Marilena Chauí, que me leva a levar meu barco para bem antes dos gregos, ao Egito, onde mitos descrevem que a colina sagrada e os deuses criadores emergiram das águas do Nun, o oceano primordial. Mitos que na Grécia Antiga têm Hidros como o deus primordial das águas, precursor dos deuses do Olimpo como Poseidon, o rei antropomórfico dos mares e terremotos. Na Roma antiga, Netuno equivale a Poseidon, e reinava sobre os mares. Nos rios, fontes e aquedutos, a água romana tinha um significado cotidiano. As ninfas e as divindades fluviais, como Tibre, personificavam a fertilidade e a prosperidade. Rituais públicos e privados, desde banhos até oferendas em fontes, atestam a importância da água como elo com o sagrado, tal como entre egípcios e gregos na purificação e nos juramentos divinos, sendo a ninfa Estige responsável pelas águas do submundo que selavam acordos invioláveis entre humanos e deuses.

Para os iorubás, a água é o ventre, o princípio purificador e o caminho de conexão com o orun (o céu, o mundo espiritual). Iemanjá é a guardiã das águas salgadas; Oxum, a das águas doces correntes; Nanã, a das águas paradas. As chuvas são celebradas com rituais, cânticos e preces. Mitos retratam a força das águas na fertilidade, cura, prosperidade ou punição, de acordo com o equilíbrio no pacto entre humanos e divindades. E no universo originariamente brasileiro, para os caiapós a água transcende a materialidade e se apresenta como espírito ancestral e força vital. Os rios e igarapés são moradas de entidades protetoras, celebradas em rituais e cantos. A água representa não apenas o sustento, mas a própria continuidade da existência: seu ciclo é respeitado e celebrado. Mitos apresentam as origens no céu e a vinda para esta terra em busca da água que jorrava abundante.

No Gênesis, a água precede o criador e a criação. Aliás, “a terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas”. E mais adiante a água se torna instrumento de uma limpeza étnica radical: o Dilúvio, o transbordamento que cobriu a terra na tentativa de apagar erros e vaidades. A arca de Noé, navegando entre céu e abismos, guardava sementes de renovação — gente, animais e esperança. Quando a água recua, um mundo novo se descortina: um arco-íris selou a promessa de continuidade, a vida reencontrou seu curso.

Navegar entre mitos é oportunidade para observar a trajetória humana e sankofar, aprender com o passado para construir um futuro melhor. Seja nos relatos egípcios, nas epopeias gregas, nos rituais romanos, nas celebrações africanas ou nos cantos indígenas, a água permanece símbolo de origem e transformação. É vapor, gelo, lágrima, suor, mar, rio, chuva, fonte; é gota e é oceano. Metamorfoseia-se em múltiplas faces, sempre a mesma, sempre outra. Mais que elemento químico ou recurso natural, é condição primeira de tudo aquilo que respira, cresce, floresce.

Mas eis que meu barco dá em águas turbulentas onde extremos climáticos encontram negacionismo. O que deveria despertar espanto, fomenta a indiferença. O desperdício torna-se prática coletiva; a poluição, sombra inevitável de um desenvolvimento insustentável. Rios transformados em valas, mares saturados de resíduos, fontes cristalinas agora turvas e esquecidas. O mesmo líquido que inaugurou a humanidade torna-se vítima do descuido e da desumanidade. A água, sagrada, converte-se em mercadoria consumida sem reverência, sem contemplação, sem gratidão. Em busca de progresso e corrompidos pela ganância, estamos perdendo fundamentos: estamos perdendo o vínculo essencial, o afeto, a própria humanidade. A água resta relegada à invisibilidade, a não ser quando a seca ameaça ou o excesso devasta e aí ela recebe a culpa que é do egoísmo e da imprudência humana que se expressa não apenas no uso irresponsável, mas na recusa de reconhecer que nossa existência depende dela, da água. Parece não haver o desejo de reencontrar o sagrado que nela habita, menos ainda encarar a nossa dependente fragilidade.

Talvez, como humanidade, estamos entrando no modo salve-se quem puder. E quem puder mergulhar em correntes de pensamento que levem a reencontrar a memória líquida da existência, que o faça. No mergulho, o tempo parece desacelerar ao compasso da própria respiração. O mundo exterior se dilui, os ruídos cessam e todo o corpo é absorvido por uma espécie de eternidade provisória. Cada bolha que sobe é um instante que navega sem pressa, cada raio de luz que atravessa a água cria paisagens oníricas onde o tempo se dobra sobre si mesmo. O mergulhador torna-se peixe e ave ao mesmo tempo; torna-se parte do mistério que a água guarda — a eternidade de um instante suspenso, onde minutos se alongam e se tornam contemplação pura. É como se, ao dissolver a gravidade, a água dissolvesse também a pressa, levando a um raro estado de presença. Até que é preciso voltar à superfície, sair do ventre outra vez em busca de ar, oxalá reconectado com a água, de comportas abertas para fluir o melhor que já fomos e o melhor que podemos ser quando encharcados de afeto ou ao menos respingados de amor, amor pela continuidade dos ciclos, amor por quem ainda não nasceu e que herdará o que deixarmos.