Kevin Sims é gerente nacional de fisioterapia da Tennis Australia, a federação australiana de tênis. Tem mais de 30 anos de experiência com atletas de alto nível de vários esportes, como críquete, rúgbi e futebol. Sua especialidade são os problemas músculo-esqueléticos. À reportagem, ele falou sobre a frequência do tipo de lesão sofrido por João Fonseca e sobre a necessidade de um programa de treinamento equilibrado. Após ter desistido dos torneios de Brisbane e Adelaide para se recuperar de dores nas costas, o brasileiro de 19 anos foi eliminado nesta terça-feira (20) na primeira rodada do Australian Open. Perdeu por 3 sets a 1 para o norte-americano americano Eliot Spizzirri.
"Eu diria que precisava de mais tempo. [...] Dei o meu melhor. Acho ruim não ter jogado a 100%, mas, ao mesmo tempo, isso me dá maturidade para continuar, para entender meu corpo, para entender meus limites", afirmou Fonseca. "Não era o dia. Mas acho que ainda estou confiante, ainda estou jogando bem. Estou tendo bons treinos. Só preciso de ritmo. Acho que esta temporada vai ser ótima para mim", acrescentou.
PERGUNTA - João Fonseca teve uma fratura por estresse quando tinha 13 ou 14 anos. Com que frequência tenistas, especialmente os de elite, sofrem esse tipo de lesão?
KEVIN SIMS - É comum, particularmente durante os anos de crescimento. Não acho que existam dados mundiais muito bons sobre a frequência, mas eu diria que talvez um terço, digamos, 30% dos jovens tenistas, seria uma boa estimativa. Durante a fase de crescimento, digamos, dos 13 aos 16 anos, é mais comum sofrer uma fratura por estresse. Se a fratura realmente cicatrizar, ou seja, se o osso for totalmente reparado, não haverá problemas mais tarde. Mas o que geralmente acontece é que as pessoas não têm uma cura completa e adequada da fratura, e então ela pode progredir, geralmente apenas de um lado [das costas], mas pode progredir para os dois, e então você poderá ter problemas contínuos, mesmo quando for adulto. A maneira ideal de tratar uma fratura por estresse em um jovem é dedicar tempo para permitir que ela realmente cicatrize. Assim você não terá alguns dos problemas que se desenvolvem mais tarde na carreira, como fraturas bilaterais e fraturas que não cicatrizam.
P. - Em um artigo acadêmico, o senhor descreve um caso em que conseguiu acelerar a recuperação de um atleta. Poderia descrevê-lo? Ele é recomendado apenas para situações excepcionais como a do artigo, em que o atleta queria muito participar de competição importante?
KS - Depende muito de cada caso individual. Naquela situação específica, a ressonância magnética mostrou que não havia fratura. Mostrou estágios iniciais de estresse ósseo. Portanto, tínhamos que esperar apenas que o estresse ósseo diminuísse, e isso leva muito menos tempo do que uma fratura, que provavelmente levará cerca de 16 semanas para cicatrizar. No estresse ósseo, pode-se começar a carregar peso novamente dentro de quatro a seis semanas. Foi o que fizemos no caso que você mencionou. Até que ponto os dois problemas, fratura por estresse e, como citou o Fonseca, "coluna retificada", podem estar relacionados? Não tenho 100% de certeza do que significa "coluna retificada". As evidências sugerem que uma fratura por estresse é mais provável quando há um aumento da lordose. Um aumento da lordose coloca pressão sobre ossos na parte posterior da coluna, que ficam sobrecarregados, e é assim que ocorre uma fratura por estresse.