25 de janeiro de 2026
OPINIÃO

Feminicídio, o crime que espreita nossas casas 


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O Brasil entrou em 2025 com uma estatística que deveria provocar comoção nacional: quatro mulheres assassinadas por dia simplesmente por serem mulheres. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam que ao menos 1.470 vítimas perderam a vida em contextos de violência doméstica, familiar ou por misoginia. E o número real tende a ser maior, já que estados importantes, como São Paulo, não enviaram informações completas de dezembro.

Mas antes de falar em polícia, leis ou penas, é preciso olhar para a raiz do problema. Por motivos culturais profundamente enraizados, seguimos educando meninos como patriarcas em formação e meninas como figuras subservientes ao domínio masculino. Naturalizamos a ideia de posse, controle e superioridade do homem sobre a mulher. Essa lógica atravessa gerações e ajuda a explicar por que tantos relacionamentos ainda se estruturam sobre poder, não sobre respeito.

A série histórica do feminicídio no Brasil, embora relativamente recente, é persistentemente ascendente. O número de 2025 é o maior da última década, superando em 0,41% o registrado em 2024. Parte desse crescimento se explica pela evolução legal: o feminicídio não era tipificado antes de 2015 e, apenas em 2024, passou a ser crime autônomo, com penas que variam de 20 a 40 anos de prisão, podendo chegar a 60 em casos agravados. Antes, era apenas uma qualificadora do homicídio. Com isso, crimes que antes apareciam como “homicídios de mulheres” passaram a ser corretamente enquadrados como violência de gênero.

Esse avanço estatístico é positivo para a formulação de políticas públicas, pois permite compreender a violência em suas dimensões reais. Ainda assim, o fato de o crime talvez ter sido subestimado no passado não diminui a gravidade do presente. Pelo contrário: revela que a violência contra a mulher sempre esteve ali, apenas escondida sob outras nomenclaturas.

A tendência de alta se espalha pelo território nacional. De 2024 para 2025, os feminicídios aumentaram em 15 estados e caíram em 11. As maiores taxas de crescimento estão concentradas nas regiões Norte e Nordeste, evidenciando desigualdades regionais que também precisam ser enfrentadas com políticas específicas.

A experiência mostra que o tamanho da punição, por si só, não impede o crime. O que realmente dissuade é a certeza de que haverá investigação eficiente, julgamento e responsabilização. Da mesma forma, ações policiais são necessárias, mas não suficientes para lidar com um problema que nasce dentro das casas, das relações afetivas e da própria cultura. E não avançamos porque, como a maioria dos homens está no cargo de liderança, como políticos, juízes, promotores e delegados, o crime de violência contra a mulher também é cometido dentro de suas casas, cujos atores deveriam aplicar a lei e não serem coniventes com o status quo. Estou cansada de ouvir de autoridades que as mulheres são as principais responsáveis pela violência, ou porque denunciam ou porque se mantêm nas relações afetivas (sic).

O enfrentamento do feminicídio exige políticas integradas: prevenção desde a educação básica, fortalecimento do sistema de Justiça, melhoria na investigação, proteção efetiva às vítimas, redes de apoio social e autonomia econômica para mulheres em situação de risco. Também passa, inevitavelmente, por rever o modo como formamos nossos meninos e naturalizamos o poder masculino sobre o corpo e a vida das mulheres.

Às mulheres, ainda faltam educação emocional, independência econômica, acolhimento após a violência e um sincero e real apoio de acolhimento após a primeira violência - antes que ela se torne mais um homicídio.  
Levantamento inédito feito pelo Jornal de Jundiaí, via Lei de Acesso à Informação, aponta que mais de 5 mil mulheres foram agredidas ou mortas na RMJ (Região Metropolitana de Jundiaí)  no ano passado.  Podia ser sua mãe, mulher, filha ou amiga.

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ