Neste dia 22 de janeiro de 2026 completam-se 14 anos da violenta desocupação do Pinheirinho, em São José dos Campos. Tantos anos depois, um acontecimento que entrou para a história da luta por moradia no Brasil e segue exigindo denúncia e justiça.
A ação da Polícia Militar de SP foi marcada pelo uso brutal da força, pela ilegalidade e pelo completo desrespeito às decisões judiciais então vigentes. O Estado escolheu a violência contra seu próprio povo.
A operação foi coordenada pelo governador do Estado à época, Geraldo Alckmin, em conjunto com o prefeito Eduardo Cury. Nada ali foi excesso isolado ou erro operacional. Foi uma decisão política consciente, tomada para defender interesses privados e especulativos, à custa de duas vidas e da dignidade de milhares de famílias trabalhadoras.
Naquele dia, as famílias perderam tudo. Perderam móveis, roupas, documentos. Perderam as pequenas caixinhas de lembranças, as fotografias, os objetos simples que guardavam histórias, afetos e sonhos. Casas construídas com as próprias mãos foram reduzidas a escombros.
A desocupação do Pinheirinho foi sustentada por uma verdadeira falcatrua jurídica. Ordens judiciais foram descumpridas, instâncias da Justiça foram ignoradas e a Constituição foi rasgada. O terreno, fruto de grilagem e que acabou nas mãos do megaespeculador e caloteiro Naji Nahas, permanece até hoje abandonado, sem cumprir qualquer função social.
Enquanto a comunidade estava ali, o terreno cumpria plenamente sua função social: havia casas, havia solidariedade, havia vida. Após a desocupação, restou o vazio. Até hoje, os supostos proprietários não pagam IPTU e o poder público segue conivente. A falcatrua continua.
No entanto, nem a violência, nem as armas, nem os tratores conseguiram levar aquilo que realmente importava.
Ficou a memória da luta. Ficou a dignidade de quem resistiu. Ficou a certeza de que lutar por moradia é justo, sobretudo quando a terra é fruto de grilagem e especulação.
Da nossa parte, seguimos insistindo na mesma proposta: a construção de moradias populares naquele terreno. Afinal, ele não foi fruto do suor de nenhum dos que até hoje se dizem donos. Foi apropriado por meio de fraudes, dívidas e especulação, enquanto milhares seguem sem teto.
Sempre nos honraremos de ter lutado ao lado daquelas famílias. Valeu a luta. Hoje, elas vivem no Pinheirinho dos Palmares. Pode ser em local mais distante, mas é, sem dúvida, uma conquista arrancada com organização, resistência e coragem.
O Pinheirinho não é passado. É memória viva, é denúncia permanente e é compromisso com o futuro. Devemos sempre contestar a violência com que o Estado age contra a população mais pobre.
* Toninho Ferreira, Presidente do PSTU de SJCampos, e Aristeu Neto, Advogado do Sind. Metalúrgicos de SJC
Valeu a luta. Seguimos na mesma trincheira.