18 de janeiro de 2026
INVESTIGAÇÃO

Caso Milly: inquérito do MP apura censura na Flim de São José

Por Da redação | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 3 min

O Ministério Público do Estado de São Paulo instaurou um inquérito civil para apurar a exclusão da jornalista e escritora Milly Lacombe da 11ª edição da Flim (Festa Litero Musical), realizada em São José dos Campos.

De acordo com a Promotoria, a investigação foi aberta após o recebimento de diversas notícias que apontam possível ato de censura, além de violação à liberdade de expressão e ao direito de acesso à cultura.

É o que aponta a portaria que instaura o inquérito, assinada pelo promotor de Justiça João Marcos Costa de Paiva, de São José.

O MP determinou a oitiva de testemunhas e dos envolvidos para aprofundar a apuração.

Na portaria, a Promotoria destaca ainda que a Constituição Federal proíbe qualquer forma de censura política, ideológica ou artística.

Inquérito.

O promotor cita na portaria um vídeo publicado nas redes sociais pelo vereador Zé Luís (PSD), em 16 de setembro de 2025.

Na gravação, o vereador aparece ao lado do prefeito Anderson Farias (PSD), que afirma ter telefonado para o gestor da Afac (Associação para o Fomento da Arte e da Cultura), organizadora da Flim, no dia 13 daquele mês.

Segundo ele, ficou decidido que a jornalista não participaria da Flim.

O pivô do veto, de acordo com o prefeito, foi uma frase dita por Milly em um podcast, que ele classificou como um “ataque à família”.

“Família é um núcleo produtor de neurose. Essa família tradicional, branca, conservadora, brasileira. Gente, isso é um horror. É a base do fascismo. Falemos a verdade”, disse Milly.

Anderson afirmou que espaços públicos não devem ser usados como “palanque político-ideológico”. Milly rebateu, afirmando que teve sua fala tirada de contexto, que passou a sofrer ataques virtuais e que foi vítima de censura.

Crise na Flim.

O veto ao nome de Milly foi revelado por OVALE e desencadeou uma crise sem precedentes na mais tradicional feira literária da cidade.

Após a saída de Milly Lacombe, ao menos 16 dos 20 autores convidados desistiram de participar, criticando a interferência política na feira e censura, o que afetou 100% das mesas previstas até então.

Entre os nomes que cancelaram presença estão Xico Sá, Luiz Silva (Cuti), Helena Silvestre, Maria Carolina Casati, Christian Dunker, Micheliny Verunschk e a atriz e cantora Marisa Orth.

Também deixaram o evento, de forma coletiva, as curadoras Alice Penna e Costa, Tania Rivitti e Bianca Mantovani, além da assistente de curadoria Bruna Fernanda. Em nota pública, o grupo classificou a retirada de Milly como um ato de censura.

Diante da debandada, a Flim acabou sendo adiada de setembro para novembro de 2025, quando foi realizada sem a presença da jornalista e com perfil mais “caseiro”, com redução drástica de público.

O que diz o MP

Segundo o Ministério Público, há contradições relevantes entre as versões apresentadas pela Prefeitura, pela Afac, responsável pela organização da Flim, e os registros públicos disponíveis.

Em resposta ao MP, a Prefeitura afirmou que não houve veto formal do prefeito ou do município à participação de Milly.

De acordo com a administração municipal, a jornalista teria desistido do evento por iniciativa própria, recusando-se a assinar o contrato da Afac por se sentir insegura após críticas feitas por vereadores nas redes sociais.

A Prefeitura também alegou que o adiamento da Flim ocorreu porque outros artistas desistiram após a decisão unilateral da escritora e informou não possuir cópia do contrato, que estaria sob responsabilidade da Afac.

Já Aldo Zonzini Filho, representante da Afac, declarou ao MP que a associação e a assessoria de Milly “tomaram, conjunta e consensualmente”, a decisão sobre a não participação da jornalista - versão que diverge da apresentada pelo Executivo.

Para a Promotoria, a retirada de Milly e a saída em protesto de outros convidados resultaram em prejuízo cultural à população, com a descaracterização da curadoria original da feira.

Próximos passos da investigação

O Ministério Público determinou a oitiva de testemunhas e dos envolvidos para aprofundar a apuração.

No dia 23 de janeiro, às 14h30, serão ouvidas as curadoras Alice Penna e Costa, Tania Rivitti e Bianca Mantovani. Já o depoimento de Milly Lacombe está marcado para 30 de janeiro, às 15h.

A Afac foi oficiada para apresentar documentos e informações no prazo de 15 dias. Também foram notificados o prefeito Anderson e o vereador Zé Luís sobre a instauração do Inquérito Civil.