Conhecido em todo o país por ter matado os pais e a irmã em São José dos Campos e os avós em Campinas, em 1994, Gustavo Pissardo agora vive em Sorocaba (SP), com a mulher e o filho, aos 52 anos de idade. Ele ressurgiu nas redes sociais com um sobrenome diferente, postando fotos ao lado da esposa e do filho.
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Pelos crimes em sequência há mais de três décadas, ele foi condenado a 63 anos de prisão, pena que depois foi reduzida a 42 anos. Ela foi considera cumprida e Gustavo teve a pena extinta em maio de 2025.
O joseense foi preso no dia 5 de outubro de 1994, após o pedido de prisão preventiva da Polícia Civil de São José dos Campos. Na época, ele foi encaminhado para a Casa de Custódia de Taubaté e manteve a versão de que não sabia explicar o motivo dos crimes.
A condenação a 63 anos de prisão saiu em 1997. Após recursos da defesa, um novo júri foi realizado em 1998, e a pena caiu para 42 anos, 7 meses e 6 dias em regime fechado.
Gustavo progrediu para o regime semiaberto em 2008, após algumas negativas da Justiça. Em 2014, passou a cumprir a pena em regime aberto. O término da pena estava previsto para 2033, mas foi antecipado para 2025.
Em 22 de outubro do ano passado, o processo penal de Gustavo foi arquivado definitivamente, de acordo com o TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo). O sistema da Justiça classifica o processo como extinto.
Gustavo tem uma empresa aberta em seu nome em Sorocaba, no ramo de serviços de pintura em edificações (pintor de parede), de acordo com a Jucesp (Junta Comercial do Estado de São Paulo). A empresa foi constituída em agosto de 2017, tem capital de R$ 3.000 e aparentemente funciona na residência de Gustavo, no bairro Jardim Gutierres, em Sorocaba.
Em 18 de janeiro de 2017, um edital de proclamas do Cartório de Sorocaba foi publicado em jornal da cidade informando que Gustavo pretendia se casar. Na ocasião, ele aparecia com a profissão de serralheiro e a futura esposa, com a de auxiliar de cobrança.
Pouco se sabe da vida que Gustavo leva desde que cumpriu toda a pena. Segundo informações apuradas em Sorocaba, ele é uma pessoa reservada e procura viver com discrição. Não dá entrevistas, por exemplo. De uma forma geral, não há menção ao nome dele na imprensa daquela região. Nas redes sociais, a primeira postagem é de fevereiro de 2016, e a mais recente de junho de 2025.
Gustavo ficou nacionalmente conhecido por ter matado os pais e a irmã a tiros na casa da família, no Bosque dos Eucaliptos, na região sul de São José dos Campos. O crime aconteceu na madrugada entre 29 e 30 de setembro de 1994. Ele tinha 21 anos na época.
Na manhã daquele mesmo dia, ele ainda pegou o carro, dirigiu até Campinas e confessou o que fez aos avós, de 74 e 64 anos, matando-os em seguida. Gustavo ainda quis ir até a casa dos tios e matá-los também, assim como a dois primos. Mas desistiu e voltou para São José.
Ele chegou à cidade e combinou de ir para Caraguatatuba com a namorada, passando o final de semana na praia. A partir da segunda-feira, seu mundo ruiu após o crime ser descoberto pela polícia.
Na época, Gustavo era um rapaz trabalhador, esportista e bom estudante em São José. Não bebia e nem usava drogas. Namorava há cinco meses uma garota da mesma idade. Tinha o futuro pela frente.
Gustavo passou seus últimos dias de detenção na Penitenciária 1 de Sorocaba, até 12 de maio de 2014, quando passou ao regime de prisão albergue domiciliar, depois transmutado em regime aberto, segundo a SAP (Secretaria da Administração Penitenciária).
O processo de execução da pena tramitou na Vara do Júri e Execuções Criminais da Comarca de Sorocaba, onde foi extinto no ano passado.
As mortes em sequência dos pais, irmã e dos avós fizeram de Gustavo um dos assassinos em série mais conhecidos do país. Ele também adulterou a cena do crime e fingiu que a casa havia sido assaltada, tentando escapar da responsabilização pelo crime bárbaro.
No entanto, a maneira como Gustavo tratou os corpos e objetos deixados na cena do crime fizeram os policiais duvidarem da inocência do rapaz e pedirem a prisão preventiva dele, levando-o depois a confessar o crime.
Gustavo colocou no carro da família uma TV, um aparelho de som e um videocassete, que depois jogou em um rio, além de tirar objetos do lugar. A simulação de roubo não convenceu a polícia, porque ele cobriu os corpos com cobertores, apagou as luzes antes de sair e deixou R$ 30 sobre a mesa da sala. Atitudes estranhas a assaltantes.
“Quando a lembrança (do crime) vinha dava desespero. E quando apagava vivia normalmente”, disse Gustavo na época, em seu depoimento.
Em 2012, Gustavo foi descrito como um “reeducando de bom comportamento e sem faltas disciplinares” em um documento encaminhado pela penitenciária de Mirandópolis ao Ministério Público, antes da transferência dele para Sorocaba.
O documento baseou o pedido da defesa de Gustavo de progressão ao regime aberto. Na época, o MP não ficou convencido e pediu a produção de laudos psiquiátrico e psicológico sobre o detento. O parecer foi unânime e contrário ao benefício.
O psicólogo que analisou Gustavo colocou em seu relatório que “o reeducando apresenta indícios de dificuldades em controlar e dirigir impulsos instintivos. No momento, mantém contato com a realidade, mas não é possível fazer afirmações em relação à sua capacidade futura de controlar sua impulsividade”. A psiquiatra disse que não tinha opinião formada a respeito das condições de Gustavo de voltar ao convívio social.
A progressão ao regime aberto foi negada pela Justiça em 2012, mas concedida dois anos depois.
Até o momento, o mistério sobre o motivo que levou Gustavo a dar cabo da própria família permanece insolúvel. Várias teses circulam pela internet sobre o caso. Há teorias que apontam até suposta influência satânica na conduta do rapaz.
O fato é que o próprio Gustavo sempre disse em depoimentos que não sabe o motivo de ter feito o que fez. “Acabou a minha vida e acabou a vida da minha família”, disse ele ao ser preso. Logo depois, ele chegou a ficar amarrado na cama do hospital psiquiátrico para não tirar a própria vida.
Na época do crime, a namorada disse que Gustavo poderia ter um distúrbio mental: “A pessoa que cometeu esses crimes não é a mesma que conheci”.
O irmão dele também se pronunciou: “Não sei quais motivos ele teria para fazer isso. Ele sempre foi uma pessoa calma. Mas quero ajudá-lo a se recuperar. Não tenho porque odiá-lo. Eu o perdoo”, disse Adriano Pissardo.
Em entrevista à Folha de S.Paulo em abril de 1997, Adriano disse que o irmão havia descrito “tudo o que aconteceu com detalhes”, mas que não sabia apontar o motivo dos assassinatos. Adriano temia pela vida do irmão na prisão.
“Mas a causa [dos crimes], ele nunca conseguiu falar. Eu sempre comento com as pessoas que me questionam sobre isso e sobre o fato de ele ter o meu apoio. As pessoas perguntam: ‘Você dá assistência ao seu irmão que acabou com a sua família?’ Eu estou com ele porque eu o conheço. Nós somos irmãos. Eu sempre estive com ele. Sei quem ele é. Não é marginal, bandido ou safado”, afirmou o irmão.
Adriano completou dizendo que acreditava que Gustavo tinha um distúrbio mental. “Ele tem problemas. Por essa razão eu não quero que ele caia em um presídio comum. Aí sim, será um problema muito sério. Talvez eu perca o meu irmão. Talvez ele vire um marginal, tendo que matar para sobreviver. Ou talvez o matem.”
Um psicólogo e terapeuta de adolescentes consultado por jornais na época, Ruy de Mathis, disse que o gesto de Gustavo era a manifestação de um surto psicótico, um acesso de loucura.
“A manifestação desta doença, porém, é consequência de uma história, de uma estrutura psicodinâmica que pode ser aparente ou não e que, por razões não reveladas antes, leva a pessoa a elaborar um crime com requintes”, disse o especialista.
Trinta e um anos depois do crime, com a pena extinta e tentando levar a vida da forma mais discreta possível, Gustavo Pissardo continua um mistério.